Cultura

Por uma crítica literária afirmativa | José Eduardo Degrazia

Foto de Kelly Sikkema na Unsplash

São, com efeito, estudos de crítica; mas creio que não é missão mais importante desta avaliar as obras literárias como boas ou más. Cada dia menos me interessa sentenciar; a ser juiz das coisas, vou preferindo ser seu amante.

                Ortega Y Gasset

 

Quando da morte do crítico Agrippino Grieco (1888-1973), o também já falecido estudioso Ivan Lins (1904-1975) escreveu um artigo atacando o primeiro da mesma forma como este criticava todo e qualquer escritor. O resultado foi que o filho do Agripino entrou na justiça com uma ação contra o crítico de seu pai. O Juiz, como não poderia deixar de ser, analisando os artigos que os dois famosos críticos escreviam, não acolheu a pretensão do filho escrupuloso. O argumento do douto julgador, foi o de que Agripino costumava denegrir a reputação de escritores, notáveis ou não, sem a menor preocupação de ferir suscetibilidades. Não caberia, portanto, ao filho exigir que o seu pai fosse tratado de forma diferente da que costumava usar para os outros.

 

Esse exemplo é bem característico para mostrar a falência da crítica somente negativa, que ataca obras e autores por serem presumidos, pavões ou o que quer que sejam. A crítica de Agrippino Grieco não deixou boa escola, porque mostrava a discrepância entre o que dizia o crítico dos outros, sempre exigindo o máximo, e sua própria obra. Lendo-se o que escrevia Agrippino, esperar-se-ia que seu trabalho literário fosse de gênio, o que está muito longe de ser.  A publicação de sua obra “Gralhas e Pavões” em 1988, deixou muito claro as limitações de seu método. Se alguém duvidar, que tente ler “O Panorama da poesia brasileira”, obra de 1937. Se algumas vezes acerta em suas ponderações, como no caso de Augusto dos Anjos, na maioria dos julgamentos erra, principalmente quando tenta avaliar seus contemporâneos, atacando-os sem motivo estético aparente – quase todos os escritores que o autor ataca, resistiram aos seus vereditos. Agrippino costumava misturar a crítica da obra com a vida do criticado.

 

A crítica literária deve se ater em primeiro lugar à obra e, se necessário, à biografia do ator, subsidiariamente. A crítica do gostei e não gostei, se numa apreciação primária corresponde à aproximação de qualquer obra de arte, não pode finalizar apenas nisso. É necessária a reflexão que se segue, para só então, tentar-se o entendimento da obra.

 

Penso que o real valor de uma crítica que pretenda educar o gosto e aumentar o entendimento sobre o fenômeno literário, não pode ficar preso ao sentir impressionista, mas deve procurar o seu significado na estética e no momento cultural e histórico. Só a partir daí podemos entender uma obra dentro do seu tempo e lugar, o seu significado e projeção. O crítico literário deve ter antes de tudo humildade, para tentar compreender obras que só muito tempo depois poderão ser completamente compreendidas.

 

Penso como Ortega y Gasset (1883-1955) quando diz na “Meditação do Quixote”: “Vejo na crítica um fervoroso esforço para potenciar a obra eleita. Justamente o contrário que faz Saint-Beuve quando nos leva da obra ao autor e pulveriza este último num chuvisqueiro de anedotas. A crítica não é biografia, nem se justifica como labor independente, se não se propõe a complementar a obra” E continua o filósofo espanhol: “Cabe orientar a crítica em sentido afirmativo, e dirigi-la menos a corrigir o autor que a proporcionar ao leitor um órgão visual mais perfeito. A obra se completa, completando-se sua leitura”. Podemos entender, através do filósofo, que a verdadeira crítica literária é a que se deixa identificar pela obra eleita, sem preconceitos de nenhuma espécie, e que emerge dela com uma visão mais clara, mais esclarecida, da obra e de si mesmo, leitor/crítico.

 

Não acredito na crítica que busca apenas o defeito da obra literária, não vejo como ela possa acrescentar alguma coisa ao seu conhecimento. Pior ainda se o crítico, conhecendo o autor, procura destruí-lo se inimigo ou elevá-lo se amigo. A crítica deve empreender voos mais altos, sem deixar de entender, no entanto, que a carreira literária busca o poder como qualquer outra. Por isso alguns jovens críticos querendo ser poetas e ficcionistas, procuram um lugar ao sol atacando à direita e à esquerda, numa carga giratória e verborrágica, cheia de insinuações, maledicências e gracejos. E, como já foi dito, termina por entender mais da personalidade do crítico do que sobre a obra pretensamente analisada.

 

Além do mais, mesmo os resenhistas profissionais têm de ter amor pela literatura, amor pelos livros, procurar ser isentos, e, principalmente, em relação aos seus contemporâneos, evitar juízos apressados e definitivos.

fotografia de José Eduardo Degrazia.

José Eduardo Degrazia nasceu em Porto Alegre em 1951.  Médico oftalmologista, atualmente aposentado. Publicou 40 livros de contos, poesia, romance, teatro e infantojuvenil.  Tradutor de espanhol e do italiano, publicou 14 livros, entre eles, sete de Pablo Neruda. Colabora em jornais e revistas com crônicas e ensaios. Principais Prêmios Recebidos: prêmio Biênio da Colonização e Imigração, com Lavra Permanente, 1974; prêmio de teatro do SNT com a peça A casa dos impossíveis, 1975; finalista do Prêmio de contos Nestlé de Literatura, de 1996, com “O atleta recordista”; finalista do Prêmio Açorianos com Os Leões Selvagens de Tanganica, 2003; prêmio O Sul de Melhor Tradução com livro de Pablo Neruda, 2006; prêmio e Livro do Ano da Associação Gaúcha de Escritores com o romance O Reino de Macambira; prêmio e Livro do Ano da Associação Gaúcha de escritores com os minicontos de Deus Não Protege os Certinhos, 2021; prêmio Mihai Eminescu da Academia Internacional da Romênia para obra em Prosa, 2012; prêmio Internacional de Poesia de Trieste, 2013; prêmio de Poesia da União dos Escritores da Moldávia, 2015; prêmio de Tradução da Associação de Editores da Romênia, 2016; prêmio Karamanov da Macedônia do Norte, 2022.

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