
Cedo aprendemos que o Grito do Ipiranga foi um momento fundador, emblemático e teatral, em que um povo desafiou, de forma ostensiva, o seu opressor. Um brado capaz de dividir a História ao meio e de inaugurar a possibilidade de um futuro diferente. Ficou-nos a imagem épica — o cavalo empinado, o braço erguido de D. Pedro I —, e, sobretudo, o grito: “Independência ou morte!”
Fora dos manuais escolares, porém, a vida raramente se organiza em torno de cenas grandiosas. São muito mais frequentes os gritos quase silenciosos. Os que mal se ouvem, que não constam nos registos da História, nem fundam nações, e, ainda assim, libertam almas. Pequenos atos de rutura que transformam para sempre quem os vive, sem proclamações ou testemunhas, resguardados no território da intimidade.
Lembro-me, a este propósito, de uma conhecida que decidiu tirar a carta de condução aos 45 anos. Não por necessidade ou por uma qualquer mudança de circunstâncias na sua vida, apenas porque queria sentir-se independente, dizia. Nunca se interessara por carros. Para ela, eram todos variações mínimas de tamanho e cor: grandes ou pequenos, claros ou escuros. O gesto nada tinha que ver com conduzir. Moveu-a a possibilidade: de ir, de escolher, de não pedir. O cartão de plástico — tão banal — constituiu, para ela, um verdadeiro grito do Ipiranga.
Recordo-me, também, de uma senhora que, ao completar 70 anos, decidiu oferecer a si própria uma tatuagem no ombro. Mais do que um impulso ou uma excentricidade tardia: um gesto pensado. Durante toda a vida obedecera à opinião alheia. Primeiro foram os pais a determinar o que era próprio, o que era aceitável. Depois, o marido. Sempre sentiu recair sobre si o peso daquilo que os outros entendiam ficar-lhe bem ou mal.
Naquele dia, olhou-se ao espelho e viu-se órfã, viúva, sem descendentes. Percebeu não ser já posse de ninguém. Nem mesmo do seu corpo. Era ele que lhe pertencia, finalmente.
—És meu — disse, com os olhos brilhantes.
A borboleta de asas abertas, tatuada no ombro, tornou-se o seu grito de libertação.
Hoje, dei o meu.
Não me tatuei. Não tirei a carta de condução. E, obviamente, não libertei um povo. Fiz algo bastante mais insignificante: peguei numa esferográfica e sublinhei um livro. A caneta, sim — a caneta. Até hoje, nunca me tinha permitido tal heresia. Um livro era, para mim, um objeto sagrado. Como me poderia permitir marcá-lo de forma irreversível? E se alguém o quisesse ler depois de mim? Como lidar com uma leitura já atravessada por outro olhar? Como construir a sua própria interpretação de um texto previamente assinalado?
Senti sempre o sublinhado definitivo como uma afronta, um abuso de confiança, uma profanação. Um atrevimento praticado na intimidade da leitura, como se, protegida pelos muros do meu retiro, ousasse marcar o texto com mãos indignas de o fazer.
Hoje, tudo mudou. Talvez porque, também eu, diante do espelho, tenha começado a reconhecer os sulcos suaves que o tempo me pousou na pele, e essa consciência tenha alterado a forma de olhar os livros. A perceção, nova e incontornável, de que o tempo passa e de que, muito provavelmente, mais ninguém lerá os que um dia ficarão na minha biblioteca. De que aquelas páginas me pertencem tanto quanto eu lhes pertenço. E, por isso, sublinhei a fala de uma personagem de Agualusa: “O espanto é a infância da alma”.
Fi-lo por respeito: para inscrever o meu encantamento no texto, tatuando a minha leitura na sua pele. O meu grito íntimo. Reservado, quase secreto. Um pacto silencioso.
Pode parecer um gesto mínimo. Talvez seja. Na minha mente, contudo, desfilaram imperadores a cavalo, braços erguidos, estandartes em punho, clamores de libertação. Foi o meu grito do Ipiranga.
Sílvia Quinteiro: Professora Coordenadora na Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo da Universidade do Algarve. Investigadora integrada do CIAC da Universidade do Algarve, onde coordena o grupo Lit&Tour. Colabora com redes e projetos internacionais, como a Rede Entremeio da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o projeto LITESCAPE.PT – Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental e o projeto RuTIC das Universidades de Valência e Barcelona. Cocoordenou a criação da Rota Literária no Algarve e foi membro das equipas que elaboraram a Rota Literária Saramago no Algarve e a RuTIC; Coautora do livro Turismo Literário – Construção e Exploração de Roteiros (PACTOR).










