
A coesão e a coerência são fulcros da textualidade e vêm sendo estudadas e debatidas pela corrente da Linguística moderna, a Linguística do Texto, que emerge na década de 1960. Sobre elas, não serão destinadas aqui formulações conceituais caudalosas. Tampouco definitivas. Servirão, antes, como antídoto a alguns frames cotidianos exemplares, e nem sempre lineares, da tessitura de falas e comportamentos, quais sejam, observados ou experienciados, nos últimos tempos, como escuta de um mundo em ocaso de sentido, afeto e razão de ser.
Uma das chaves para se compreender a coesão reside, segundo Leonor Lopes Fávero (2004, p. 10), nos “modos como os componentes do universo textual, Isto é, as palavras que ouvimos ou vemos, estão ligados entre si dentro de uma sequência”. Noutros termos: a coesão se estabelece na “relação semântica entre um elemento do texto e algum outro elemento crucial para a sua interpretação”, nos dizeres de Ingedore Koch (2001, p. 17), ao secundar Halliday & Hasan; ou, ainda, nas relações de sentido que se estabelecem por meio de uma sentença conectada à anterior, “com o propósito de se criar textos” (KOCH, 2001, p. 17).
A coerência, por seu turno, é identificada nos “modos como os componentes do universo textual, isto é, os conceitos e as relações subjacentes ao texto de superfície, se unem numa configuração, de maneira reciprocamente acessível e relevante” (FÁVERO, 2004, p. 10). Com isso, é possível entender que a coerência é corolário de todo o processo de cognição operante “entre os usuários e não mero traço dos textos” (FÁVERO, 2004, p. 10).
Com base nessas considerações, é natural que se perscrute o próprio conceito de texto assim como da significação e do sentido da linguagem que nele se fazem (ou não) presentes. Afinal, “um texto não é simplesmente uma sequência de frases isoladas, mas uma unidade linguística com propriedades estruturais específicas” (KOCH, 2011, p. 11). E mais que isso, para além de uma perspectiva saussureana, o texto deve fazer sentido e estar voltado para a intencionalidade do falante, ou seja, a de “um sujeito consciente de suas intenções, capaz de comunicá-las a alguém” (GUIMARÃES, 2002, p. 31) e de ferir quem quer que seja, como não poderia me esquecer de adendar.
Nesse ponto, não há como escapar dos chamados códigos sociais oriundos das relações sociais, mas que presentemente estão sendo pouco ou nada seguidos. Isso reflete, quiçá, o desamparo que beira o vazio, na medida em que remete à perda da palavra em estado de dicionário (com sentimento em Drummond), insurgindo-se contra a falta de empatia. Nesse exercício de se colocar no lugar do outro, o que se espera são respostas apalavradas, que consigam levar a cabo o sonho de um mundo que proporcione maior acolhida e crescimento de todos que nele se situam tanto quanto os lunares. E nem é porque estes estão à procura da poesia. Não. Bem menos, muito menos que isso. O que almejam é estar em contato direto com algo que os diga e que se exerça na fala do coração. Menos dedo em riste e mais abraçamento, para resumir em fórmula simples.
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5 de outubro de 2024
Da melancolia que cismava em ultrapassar a linha da depressão, em crise aguda, decidiu buscar socorro. Primeiro, ao passar uma mensagem de texto via WhatsApp, para o então namorado EaD (que, para ela, era questão de tempo e logo se transformaria em presencial), de quem, chula e estupidamente, recebera:
Não me venha desdenhar da vida… Deixa! Esquece…! Vc não entende… Comer teu *** por pensar assim. Minha vontade agora é de te bloquear com força….
Em seguida, recorreu, só que dessa vez por chamada de voz, à amiga, cuja idade duplicava a sua, de quem apenas escutou:
Se você cometer autoquíria, eu não tenho nada com isso.
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10 de setembro de 2024
Não era incomum a cobrança para que fosse mãe. Nunca quis. Por diversos e conscientes motivos que a levaram à conclusão de que a responsabilidade de tal feito era inversamente proporcional à sua estatura física e emocional. Porém, a insistência, incômoda, não cessava. Vinha de todos os lados. Um casal, em específico, chegou a dizer que “um filho era a melhor coisa do mundo”. Pois muito que bem: de posse da criança e do diagnóstico de autismo, soube, ao visitá-lo, anos mais tarde, que ele não frequentava e não era frequentado por ninguém.
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14 de janeiro de 2025
De sua colega ainda da época estudantil, com deficiência visual, e “tão somente” a visual, chorou, invisível:
Fui almoçar dias atrás em um restaurante com o meu esposo e meus dois cunhados, e você não há de ver que o garçom simplesmente questionou a todos da mesa, e não a mim, o que eu sim, eu!!!, gostaria de comer.
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22 de julho de 2025
Daquele, até então, bem-quisto amigo, cujo crescimento pôde acompanhar gradativamente, recebera um convite para o lançamento de seu livro, porém não na cidade que dividiram na juventude, e, sim, na que ela passaria a residir depois e onde já estava fixando endereço há pelo menos uns 10 anos. Lembrou-se de que não era a primeira vez que ele iria lá, contudo, em nenhuma das idas, a procurara. Coincidentemente, naquela data da noite de autógrafos, ela achou melhor forjar uma viagem.
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18 de setembro de 2025
Era o dia de seu aniversário.
Nunca foi dada a isso.
Até que …
… Pensou que do poeta, pudesse esperar, naturalmente, poesia.
Mas o que chegou foi o pix, a mais, dela para ele, que não o viu, de outro dia.
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Dez. de 2025 jan. de 2026
O que não hesitaria em chamar de “tortura” o ruído do ar condicionado de seu quarto, também, foi quem sempre conferiu a Carlos Brilhante Ustra o levante de todas as honrarias, e, de quebra, deu de ombros aos doentes da covid-19, ao disparar: “E daí? Não sou coveiro!”, chegando a imitá-los com falta de ar.
REFERÊNCIAS
FÁVERO, Leonor Lopes. Coesão e coerência textuais. 10. ed. São Paulo: Ática, 2004. (Princí-pios; v.206).
GUIMARÃES, Eduardo. Os Limites do Sentido: um estudo histórico e enunciativo. 2. ed. Campi-nas: Pontes, 2002.
KOCH, Ingedore Villaça. A coesão textual. 15.ed. São Paulo: Contexto, 2001. (Coleção Repen-sando a Língua Portuguesa)
Letícia Ferro é Doutora em Letras e Linguística (UFG) e graduanda em Pedagogia (UERJ).










