Cultura

Mia Couto: um conto | José Eduardo Degrazia

O escritor Mia Couto — Foto: José Eduardo Agualusa

A prosa de Mia Couto é leve, livre, solta feito uma linha de pandorga que a mão de um menino prende e larga, ao mesmo tempo. Uma prosa feita de imagens que envolvem a narrativa num manto de placidez ilusória – dentro do invólucro a carne dolorida se manifesta. Sem medo de tangenciar o romantismo, as mais densas e cruas histórias parecem atenuadas, diluídas, elevadas. Mas é a pura ilusão da magia da escrita; o escritor, como um ilusionista, manipula a realidade diante dos nossos olhos, transforma o natural em fantástico, e, o que parece ser sobrenatural, torna-se terra a terra.

 

Tido pela crítica especializada como um continuador do realismo fantástico (chamado, também, de realismo animista, para diferenciá-lo), leitor de Jorge Amado e Guimarães Rosa, só poderia o autor fazer uma amálgama original de suas confluências. Essa amálgama é feita com a massa do lirismo, da imagem, da metáfora. A narrativa é, dessa forma, um campo de experiência onde os neologismos tornam-se parte de uma construção (poderíamos dizer tijolos) maior: a história que se desenrola em certo tempo e espaço. Mesmo sendo lírico, é baseado em sua terra e país que o autor escreve. Regionalidade que aflora em todas as narrativas deste livro de contos O fio das missangas.  O tempo é o que se expande e se contrai, nas almas e corpos dos personagens, que vivem suas vidas pequenas entre o mundo colonial que se esboroa na África e a realidade pós-colonial de Angola, com suas particularidades.

 

Representativo dessas missangas que fazem o rol de histórias do livro, temos o conto A saia almarrotada (pp. 29-32). O desencadear da narrativa é o presente de uma saia que a personagem ganha, sabendo que não poderá usá-la. Porque há uma outra característica na obra do autor, que é sua visão agudamente feminista, no tratar a vida das mulheres do seu povo. Com que delicadeza e profundidade Mia Couto revela os sentimentos mais íntimos dessas mulheres que, em meio de sua sociedade familiar, patriarcal, procuram sobreviver e ter uma vida plena, apesar de tudo e contra, às vezes, todos. Já no primeiro parágrafo mostra a personagem em seu ser mais oprimido: “Nasci para cozinha, pano e pranto. Ensinaram-me tanta vergonha em sentir prazer, que acabei sentindo prazer em ter vergonha”.  (p. 29). Criada pelo pai e pelo tio: “Eles me quiseram casta e guardada. Para cuidar deles, segundo a inclinação de suas idades.” (p. 30). E segue: “As outras moças, das vizinhanças, comiam para não ter fome. Eu comi a própria fome”. (p. 30). A realidade é, pois, de dominação e pobreza. Dizendo: “Em casa de pobre ser o último é ser nenhum. Assim eu não me servia. Meu coração já me tinha expulso de mim”. (p. 30).

 

No abandono e alienação de si mesma só a espera de um homem, que transformaria a sua vida, parece que lhe dá alento. A realidade é muito dura, seca, feita de abandono e maus-tratos. Um amor há de vir que despertará nela todas as potencialidades de corpo e alma que estavam, desde sempre, submetidos às regras e normas de sua vila e família. Esse renascer é prenunciado pela personagem: “Esse homem me daria, por fim, um nome. Para o meu apetite de nascer, tudo seria pouco nesse momento.” (p. 31).  Instada pelo pai, para que não desabrochasse, leva a valiosa prenda, a saia que ganhara escondido, e que lhe era tão valiosa em desejos, sonhos e volúpias, para o fundo do pátio – para queimá-la. Pela primeira vez desobedece àquela voz de mando “Era essa voz que fazia Deus existir”.

 

Essa personagem sem nome narra sua vida muitos anos depois, e conta que não botou fogo no vestido, mas em si mesma. A saia tinha sido enterrada numa cova. Na idade de muitas rugas quanto “pregas têm este vestido”, ela ainda pede ao pai que a permita usá-lo. E fica a olhar a saia: “Agora estou sentada, olhando a saia rodada, a saia amarfanhosa, almarrotada”. (p. 32). O último neologismo diz tudo sobre a personagem.

    

Artigo do professor Adaylso Wagner Souza de Vasconcelos, da Universidade da Paraíba, sobre o conto de Mia Couto, analisa-o sob o ponto de vista do feminismo:

 

      O referido conto discute no seu âmago a cultura de excessos e  castrações promovida pela sociedade ocidental patriarcal que, herdeira de uma dezena de preceitos judaico-cristãos, destina à mulher a margem  social.  O silenciamento, as opressões e a busca de liberdade são algumas das cicatrizes identificáveis quando a intenção maior é calar a voz feminina. Diante desse cenário, Mia Couto desenvolve seu conto, apresentando a nós uma mulher anônima que, apesar das adversidades, tenta romper com esse padrão e buscar a liberdade. A narração é realizada em primeira pessoa e um fato bastante interessante é a epígrafe contida na mesma – O estar morto é  uma mentira.  O morto apenas não sabe parecer vivo. Quando eu morrer, quero ficar morta (Confissão da mulher incendiada). Só essa epígrafe resultaria em inúmeras interpretações e nas mais variadas vertentes de análise. Assim, a opressão feminina já vem sendo denunciada, de forma direta, desde a epígrafe. (VASCONCELOS, 2014).   

 

A personagem sem nome do conto vive toda a vida sob a submissão patriarcal, que a condena a uma existência de desejos e sonhos contidos e, a maior parte das vezes, fechada no seu corpo e na sua alma. Envelhece sem ter vontade, a voz dos maiores repercutindo sempre aos seus ouvidos/inconsciente, tornando-a um joguete das normas ancestrais. A saia sendo a única forma encontrada de sentir o mundo em si, de cingi-lo ao próprio corpo, de ter nele a única forma de amor pretendida: a espera de usá-lo algum dia, o que a transformaria nela mesma, um ser desejante e desejado.

 

A vontade de matar-se é uma forma altamente lírica usada pelo autor para a personagem ter, enfim, realidade e vida própria. Em vez de queimar o vestido como o pai lhe ordenara, coloca fogo em si mesma. Os irmãos a salvam da morte, mas de certa maneira a impedem de expressar-se mais uma vez: “lancei, sim, fogo sobre mim mesma. Meus irmãos acorreram, já eu dançava entre labaredas acarinhada pelas quenturas do enfim”. (p. 32).

 

Só na velhice a voz que tudo lhe ordenava parece diminuir de intensidade e poder, e a personagem pergunta: “Posso agora, meu pai, agora que eu já tenho mais ruga que pregas tem esse vestido, posso agora me embelezar de vaidades? Fico à espera da sua autorização enquanto vou ao pátio desenterrar o vestido do baile que não houve.” (p. 32).

 

Só no fim da vida mesquinha que teve, sempre adiada a felicidade, é que ela tomará, enfim, o seu destino nas mãos, como toma pela última vez aquele vestido como metáfora de memória e despedida.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

COUTO, Mia. O fio das missangas: São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

 

       VASCONCELOS, Adylson Wagner de Souza: A saia almarrotada, de Mia Couto, e o vestido, de Adélia Prado: a vestimenta como mecanismo de memória. In: Cadernos Imbondeiro. João Pessoa, v. 3, n 2, 2014. https://periodicos.ufpb.br/index.php/ci/article/view/21698 Acessado em 19 de junho de 2024.

fotografia de José Eduardo Degrazia.

José Eduardo Degrazia nasceu em Porto Alegre em 1951.  Médico oftalmologista, atualmente aposentado. Publicou 40 livros de contos, poesia, romance, teatro e infantojuvenil.  Tradutor de espanhol e do italiano, publicou 14 livros, entre eles, sete de Pablo Neruda. Colabora em jornais e revistas com crônicas e ensaios. Principais Prêmios Recebidos: prêmio Biênio da Colonização e Imigração, com Lavra Permanente, 1974; prêmio de teatro do SNT com a peça A casa dos impossíveis, 1975; finalista do Prêmio de contos Nestlé de Literatura, de 1996, com “O atleta recordista”; finalista do Prêmio Açorianos com Os Leões Selvagens de Tanganica, 2003; prêmio O Sul de Melhor Tradução com livro de Pablo Neruda, 2006; prêmio e Livro do Ano da Associação Gaúcha de Escritores com o romance O Reino de Macambira; prêmio e Livro do Ano da Associação Gaúcha de escritores com os minicontos de Deus Não Protege os Certinhos, 2021; prêmio Mihai Eminescu da Academia Internacional da Romênia para obra em Prosa, 2012; prêmio Internacional de Poesia de Trieste, 2013; prêmio de Poesia da União dos Escritores da Moldávia, 2015; prêmio de Tradução da Associação de Editores da Romênia, 2016; prêmio Karamanov da Macedônia do Norte, 2022.

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