Cultura

Somos a nossa própria casa | Clécio Branco

Foto de Barbara Krysztofiak na Unsplash

Do livro: Isso não é um chapéu: reflexões a respeito de O Pequeno Príncipe

Editora: LC-Produções – Curitiba – Brasil

 

“Inquirido sobre a sua raça, respondeu:

 

— A minha raça sou eu, João Passarinheiro.

 

Convidado a explicar-se, acrescentou:

 

— Minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual. Cada homem é uma raça, senhor polícia.”

 

(Mia Couto, Cada homem é uma raça)

 

É possível que o planeta do pequeno príncipe seja o asteroide B612, aquele descoberto por um astrônomo da Turquia, mas ninguém deu muita importância para a descoberta do astrônomo turco. Segundo o texto, o descrédito era por causa das “roupas tradicionais da Turquia”[…] por isso “ninguém acreditou no que ele disse. As pessoas grandes são assim…”1

 

É coisa de gente adulta demais julgar as pessoas a partir de sua identidade pessoal. Um centrismo de “eu” que faz o pivô referencial do mundo inteiro. Não é só na psicologia individual que isso ocorre; a mesma lógica se dá no campo social. Depois que o astrônomo turco foi obrigado a vestir roupas ocidentais, o resultado foi o respeito à sua descoberta. Desse dia em diante, “um ditador turco decretou uma lei que obrigava o seu povo a se vestir no estilo europeu, sob pena de morte para quem desobedecesse”2

 

Há uma paranoia no mundo dos adultos em tornar todo mundo igual e eliminar as diferenças. Por essa razão, sempre houve guerras religiosas e políticas. Eliminar as diferenças é a coisa mais absurda que os adultos vivem tentando fazer. Tornar todos iguais, como se fossem decalques de um único ser. Quem serviria de modelo ao decalque?

 

Na verdade, o que importa para as pessoas não é muito importante. Elas querem saber de números, dos valores que vão ganhar, da quantidade. Assim, seria possível uniformizar todas as pessoas.

 

Quando você diz a elas que fez um novo amigo, elas nunca lhe fazem perguntas sobre o que realmente importa saber. Elas nunca lhe dizem, “Como é o som da sua voz? Quais os jogos de que ele mais gosta? Por acaso seu novo amigo coleciona borboletas?” Ao invés disso, elas querem logo saber: “Qual a idade dele? Quantos irmãos e irmãs ele tem? Ele é gordo? Quanto dinheiro tem o pai dele?”3 (Saint-Exupéry, 2019, p. 35).

 

Esses são os dados que interessam às pessoas: se a bolsa de valores está subindo ou descendo, se a guerra vai influenciar o mercado, se um projeto social vai afetar as finanças do país, se cuidar das crianças carentes vai quebrar as economias do Estado. Não há preocupação com as crianças… talvez alguém se preocupe com elas.

 

Se a guerra que os homens fazem vai ferir e matar crianças, se muitas ficarão órfãs e doentes, nada disso interessa às pessoas. Na guerra e nas crises, os homens mostram sua face mais terrível. De modo geral, as coisas que interessam aos homens são números — esse é o valor que lhes importa. No Haiti, por exemplo, antes das grandes crises, as pessoas se reuniam para tomar café, eram amigas umas das outras e convidavam outros amigos. O costume de oferecer um cafezinho funcionava como vínculo entre as pessoas. As pessoas, suas casas, mesmo sendo simples, as cores das paredes, os jardins, os pássaros que visitam os jardins, tudo isso importava para aquelas pessoas. Mas:

 

se acaso você fosse dizer às pessoas grandes: “Eu vi uma bela casa de tijolos rosados, com flores na beirada das janelas e várias pombas no telhado”, elas não conseguiriam ter qualquer ideia de como seria a casa. Você teria de dizer a elas: “Eu vi uma casa que custa uns 300 mil reais”, e só então elas teriam noção e exclamariam: “Nossa, que bela casa deve ser!”4 (Saint-Exupéry, 2019, p. 35).

Existem homens grandes que se importam. Em 2020, o Butão — um lugar pequeno e que não tem grandes números na economia — foi eleito o país mais feliz do mundo. O ministro da educação — um homem adulto que se importa com pessoas e crianças — criou o projeto “Meu Mundo Verde”. As prioridades do Butão incluem uma série de elementos desprezados pela maioria das pessoas. No Butão, o que importa é a natureza intocada, o silêncio, a paz e a vida em comunidade.

 

Mas não é somente nesse pequeno país das montanhas que um homem adulto se importa com as coisas mais relevantes. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em seu livro Agonia do Eros, pensa a cultura do afastamento e do isolamento das pessoas na contramão da conexão social. Eros, deus da mitologia grega, é uma energia de ligação entre as coisas vivas, inclusive entre as pessoas — algo semelhante com o que citei antes, sobre o significado do cafezinho no Haiti e a vida comunitária no Butão. Eros se encontra em agonia porque as pessoas estão conectadas aos seus celulares, mas não estão conectadas umas às outras.

 

Em O pequeno príncipe, a preocupação é com o carneiro, se esse animal come grama e arbustos, e se comeria os baobás antes de crescerem. A questão principal é se o carneiro não comeria a flor junto com a grama e os arbustos. Ele tinha um compromisso sério com a flor. O restante da conversação no Capítulo iv é sobre o que se deveria ou não deixar crescer no planeta. Podemos entender essa questão como uma metáfora ou alegoria, o que se revela muito mais rico do que tomar literalmente as palavras do livro. Pensar no que devemos ou não deixar crescer em nossa casa, em nosso ethos, na forma grega de pensar, ou ainda em nosso oikos. Há sementes ruins que devemos arrancar logo; outras, porém, devemos esperar para ver no que vão dar. Existe ainda um terceiro grupo: o grupo daquelas que devemos cultivar.

 

Sobre as sementes, há muitas coisas a contar, mas é preciso lembrar que, nesse caso, são as qualidades do ethos/oikos, daquilo que cresce no interior de nossa alma.

 

Elas dormem nas profundidades escuras do coração da terra, até que uma delas seja acometida por um desejo de despertar. Então esta pequena semente vai se espreguiçar e começar a lançar um ramo na direção do sol, a princípio de forma tímida5 (Saint-Exupéry, 2019, p. 39).

 

Nesse caso, sobre o desejo, não é uma metáfora; tudo que é vivo deseja despertar e existir, expandir e crescer. E busca o sol para se alimentar e se aquecer. Cuidar da casa é uma “questão de disciplina”, diz o pequeno príncipe.

 

“É preciso verificar se estamos arrancando regularmente todos os baobás […]”6

 

Esses são os mais ameaçadores:

 

[…] pois em sua infância ambos são muito parecidos. É um trabalho um tanto entediante, mas acaba que se torna fácil quando nos acostumamos a ele7 (Saint-Exupéry, 2019, p. 39).

 

Uma planta, seja qual for a espécie, é sempre muito inteligente, e vai fazer de tudo para existir no mundo. Tudo que tem vida quer existir e permanecer no mundo — permanecer e se multiplicar. O menino está certo, as plantas se comunicam não apenas com o Sol e o vento; elas se unem no subsolo e fazem isso ligando cidades e estados. Stefano Mancuso compartilha esse estudo em seu livro A planta do mundo:

 

Para mim, parecem raízes que unem regiões, cidades e vilas dos dois lados do Atlântico, diz isso em relação ao mapa de raízes da Árvore da Fraternidade na França. “Raízes?” Ele olhou para mim como se eu tivesse enlouquecido. “Sim, raízes, e não me olhe como se eu fosse louco. Passei minha vida adulta estudando raízes. Acredite em mim, posso reconhecer um rizoma quando vejo um. E isto aqui neste mapa é, sem dúvida, a representação topográfica de uma rede rizomática8 (Mancuso, 2021, p. 33). 

 

Se o pequeno príncipe aparecesse aqui, certamente perguntaria mil vezes o que é um rizoma, até obter uma resposta. Para não correr o risco de deixar essa pergunta sem resposta, vamos recorrer a outro autor, mas agora um filósofo — na verdade, dois.

 

Na filosofia de Deleuze e Guattari, o rizoma é uma lógica cartográfica, assemelhando-se ao trajeto de uma criança. As linhas não param de se expandir e de multiplicar as hastes — são linhas que se bifurcam para todo lado e podem sobrepor-se umas às outras, gerando novas bifurcações e novos entrelaçamentos. O rizoma faz conexões e, ao mesmo tempo, é heterogêneo — pode ser uma sucessão de “e…”, ao contrário da exclusividade “e/ou”. É multiplicidade, pode insurgir-se, retroceder, seguir para os lados, para cima e para baixo, em direções imprevisíveis. Pode começar de qualquer ponto e recomeçar a partir de qualquer lugar e tempo. O rizoma faz rupturas e novos agenciamentos durante todo o tempo. É uma cartografia, por isso o botânico está debruçado sobre um mapa de raízes, um rizoma. O gengibre e a grama são rizomas9. O rizoma são raízes que se ramificam e se conectam; o tubérculo e o bulbo, cada um com suas funções e formatos específicos, são rizomas.

 

O baobá não é um rizoma, é uma árvore, mas suas raízes podem fazer um rizoma estrangular um planeta como o do pequeno príncipe. Porém, quando se trata de caráter ou de personalidade, marcas e traços que podem arruinar as condutas humanas, fica o conselho: “Crianças, tomem cuidado com os baobás!”10

 

Cuidando da própria casa

 

“O lugar da subjetividade é o oikos — nossa verdadeira morada. Lugar de onde se vê tudo em perspectiva — por isso o “mundo é perspectivismo”. O único lugar de onde não podemos escapar jamais. Como caramujos, carregamos nossa casa em nós. Ela anda junto, seja lá para onde quer que se vá.” 

(Clécio Branco, Oikos)

 

Eu não havia compreendido por que era tão importante saber que carneiros comiam só grama e arbustos, mas ele acrescentou: “Então eles também devem se alimentar de baobás, certo?”11 (Saint-Exupéry, 2019, p. 37).

 

O tema ainda é o de cuidados que devemos ter com a “própria casa”. Os cuidados exigem disciplina — afinal, não se desenvolvem boas qualidades de espírito sem disciplina. É preciso trabalhar e praticar a disciplina. É uma questão de prática e pronto.

 

Os baobás e as ervas daninhas são traços de caráter, maus hábitos, impulsos destrutivos, limitações que precisamos enfrentar e vencer, além de tendências a perversões. Elizabeth Roudinesco considera a perversão um excesso — em comum com a psicanálise, o excesso de gozo, que acompanha todas as culturas de todos os tempos. O excesso, conforme Roudinesco:

 

é um fenômeno sexual, político, social, psíquico, trans-histórico, estrutural, presente em todas as sociedades humanas. E se todas as culturas partilham atitudes coerentes — proibição do incesto, delimitação da loucura, designação do monstruoso ou do anormal —, a perversão naturalmente tem seu lugar nessa combinatória12 (Roudinesco, 2008, p. 12).

 

Quando vemos o desenho dos baobás, que cresceram e tomaram conta do planeta inteiro, percebemos a metáfora que remete à “nossa casa”: nós mesmos podemos ser uma ameaça para nossa própria vida e para a vida de tantas outras espécies de seres viventes. Ninguém melhor do que Dostoiévski para descrever a realidade dos sentimentos conflituosos de um ser humano que se permitiu sentir e planejar uma ação sombria, o exato momento em que se insurge um estranho devir na alma. É verdade que se trata de literatura, de ficção, mas, na vida real, essa tragédia se repete com toda a nitidez de Crime e castigo. Sobre seus pensamentos, desde a gênese do primeiro pensamento de cometer um crime, quando o sentimento é de repulsa, diz Raskólnikov: 

 

Oh, meu Deus! Como tudo isso é repugnante! Ah, sim, sim, eu… não, isto é um absurdo, uma estupidez! Acrescentou absolutamente — e se eu cometesse um horror desses? De que porcaria é capaz a minha alma! Acima de tudo é suja, brutal, má! E, durante um mês inteiro, eu…13 (Dostoiévski, 2011, p. 19).

 

Os baobás e as ervas daninhas estão sendo superdimensionados? Tomei como metáfora as raízes de três baobás que engoliram o asteroide B612. Foi uma semente no início — sempre é uma pequena semente.

 

Em Crime e castigo, Raskólnikov foi surpreendido pelo primeiro pensamento e cultivou essa erva daninha, pois não conseguia se livrar da ideia terrível. Creio que as primeiras cem páginas do romance são a teia de aranha. Os pensamentos maquinam, e o crime vai se agigantando e engolindo a consciência do personagem. São as páginas da elaboração e do planejamento do ato, e de sua execução. O livro, dependendo da edição, pode chegar a seiscentas páginas. As últimas quinhentas páginas são reservadas à punição pelos crimes.

 

“Pulsão de morte — gozo do mal”, diria o pai da psicanálise. A mesma força arrebatadora da consciência moral nos tempos do nazismo. O sonho iluminista de uma sociedade de homens guiados pela razão foi aniquilado pelos campos de extermínio do nazismo. Acreditava-se que a razão seria capaz de criticar a si mesma, mas esqueceram que, se isso pudesse acontecer, não haveria garantia de alcançar toda a humanidade. Um devir sombrio pode se insurgir do interior de qualquer um de nós. Pois, assim como na literatura de Dostoiévski, com seu protagonista belamente esculpido, os detalhes de um devir sombrio se enroscando na teia de pensamentos podem insurgir-se em qualquer um.

 

Carl Gustav Jung, ao desenvolver seu conceito do lado sombrio que existe em cada um de nós, esboça essa dupla realidade de sermos, ao mesmo tempo, luz e sombra. Na história sagrada, o devir sombrio nasce no mais belo dos anjos. O anjo de luz prefigura a sombra que cobre seu brilho, de modo que ele mesmo é o regente das sinfonias celestes, a dualidade da luz e da sombra, entre os mais puros seres celestiais. Esse é um tema caro à filosofia da dupla Deleuze/Guattari. No conjunto da obra Capitalismo e esquizofrenia, eles se referem a esse devir que se insurge movido pelo desejo de poder. No prefácio da edição americana de O anti-Édipo, desses dois filósofos citados, Michel Foucault deixa uma advertência quanto ao desejo por poder. Ele afirma que há uma coisa dentro de nós, algo que nos “fascina e nos humilha”: o desejo por poder. Esse desejo está em nós, essa pulsão de morte que, a qualquer momento, pode crescer como baobás e tomar conta da casa — a nossa casa.

 

Tanto as sementes de erva daninha como um devir sóbrio (numinoso, em Jung), o lado sombrio ou o desejo por poder, todas são essas sementes que fazem a humanidade se levantar, algumas vezes de forma opressora, cruel, destruidora e indiferente às desigualdades entre os irmãos.

 

Notas

 

1 SAINT-EXUPÉRY, Antoine de, O pequeno príncipe., p. 33. (Edição usada é Brasileira. Editora Vozes:  Petrópolis – R. J. Tradução de Rodrigo Tadeu Gonçalvez, 2015.

 

2 Ibidem.

 

3 Ibidem, p. 35.

 

4 Ibidem.

 

5 Ibidem, p. 39.

 

6 Ibidem, p. 41.

 

7 Ibidem.

 

8 MANCUSO, Stefano. A planta do mundo. São Paulo: Ubu Editora, 2021, p. 33.

 

9 DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Tradução: Aurélio Guerra Neto e Celia Pinto Costa. São Paulo: Editora 34, 2009, v. 1.

 

10 SAINT-EXUPÉRY, Antoine de, op. cit., p. 43.

 

11 SAINT-EXUPÉRY, Antoine de, op. cit., p. 37.

 

12 ROUDINESCO, Elizabeth. A parte obscura de nós mesmos: uma história dos perversos. Tradução: André Teles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008, p. 12.

 

13 DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e castigo. Tradução: Natália Nunes e Oscar Mendes. Porto Alegre: L&PM, 2011, p. 19.

fotografia de Clécio Branco

Clécio Branco é psicólogo clínico, Mestre e Doutor em Filosofia. Autor das obras Ensaios de A a Z para mentes inquietas e Encontros com o Mestre I. Disponíveis na Amazon em versão Kindle e física.

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