Cultura

Alcatrão | Maria Adelina Amorim

Foto de Dieter K na Unsplash

azuis celestiais debruados a alcatrão e a jasmim por entre as flores

demorarei na auréola crepuscular, e as cores de notre-dame desvendarão os meus olhos e a minha atitude

tenho pressa de não chegar ao cume e à hora vespertina, lugar onde as papoilas raiam de sangue os ventos do oeste e as asas da guilhotina ardem no pomar ao fundo da casa

sigo nua ao lado dos infames das prostitutas e dos desacreditados da fé e dos patronatos desgovernados

voo sem fim cheia de andorinhas nos cabelos e nos ângulos que me dão pelo flanco o preço das auroras e o passe do autocarro 

verto o vazio e o insondável deserto de noivas e de besouros encantados por potros fecundados de éguas 

bato à porta de gente anã, escondida da podridão da terra (in)culta, crua de abecedários e de palavras inaugurais, ágrafa de toda a ternura, sedenta dos ferros, do gás, do chicote e dos nove minutos da morte sobre o asfalto

 

contudo, não sou eu a guardiã dos segredos nocturnos, nem das vozes vociferadas cheias de luciferes e de anjos proibidos 

apenas sinto o cheiro das carnes depostas por cima da pureza original

 

(…)

e assim me abro à corola dos dias gastos e fastos de melancolia

altura em que os divãs se quebram na cabeça da psicanálise

e as mães se expõem à artilharia das infâncias filiais

 

impludo ais, escrevo

 

até que a morte me liberte da condição 

da culpa

do lugar dos outros, da língua dos outros e da sua ausência. 

 

Legenda: “Alcatrão _1”: fotografia de Maria Adelina Amorim.

Maria Adelina Amorim: 

 

PALAVRAS-CHAVE: LITERATURA; POESIA; LITERATURA PORTUGUESA; POESIA PORTUGUESA

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