
A João da Costa Silva, in memoriam
Trilha sonora: “Minha herança”, Ana Castela
Estão imediatamente órfãos alguns objetos que só você teria visto como importantes: uma pena de pombo qualquer, uma pedra
ou concha […]
Ricardo Domeneck, em “Victor Heringer une-se aos eguns”, p. 119,
in: Cabeça de galinha no chão de cimento.
E os dias potentes de vida já não batiam à porta como outrora. No lugar, foi entrando o adiantado dos anos. De repente, pouco mais de nove décadas e meia pareciam, se não céleres, de tempo mitigado, em que pese terem sido regalo destinado a poucos, a ele, tamanha graça foi concedida. O acúmulo das primaveras se juntaria ao grande gosto que fazia por viver: o “ensejo de permanecer piscando”, como ele mesmo me dizia. Os olhos, por um beiço de pulga, não cerraram antes do esperado – a experiência finita da carne o seria, antes, não uma, mas, algumas vezes, aquilatada na circunscrição de sua finitude. Sim, se os pais não são para sempre, os avós, tampouco. Não, não é sobre cronologia. É sobre afeto que não tarda nunca, soando ao perto, e até imerecidamente.
Ele – presença quando tudo o mais me falta(va). Grafia de convivência de avô com neta – a abrandar o meu sentimento de mundo. Referência maiúscula que me faria, quando criança, aprender a sacar, sensivelmente, do jardim vizinho à escola, uma flor de hibisco cor-de-rosa para dar à “tia”, sempre antes do início da aula. A de perceber o nascedouro da palavra gentileza, no instante mesmo em que não entrava no carro sem se certificar de que todas as mulheres já o tivessem feito, e com conferida acomodação. (Nesse particular, Maria Inês, sua cônjuge, e minha estimada avó – também in memoriam, in cordis –, ecoaria, imaginando o futuro no passado: “jamais aceitar menos do que se merece!”). Ou, a que não deixava esvaziar nunca a gaveta de doces da estante de seu quarto, pois era com ela que meu avô rivalizava sempre em doçura. E não havia quem não se achegasse e não saísse de lá com as maçãs do rosto protuberantes mais do que o de costume. Os instantes absortos pelo hálito, quando não de hortelã, de mel ou caramelo, reluziam na largueza de seu sorriso ao servir quem quer que fosse – e com simples balas simples.
Mas, hoje, entendo exatamente por que tinha de ser com elas: as gomas são delicadas de se apanhar com a ponta dos dedos. Era seu modo de soletrar açúcar no coração, a ser adivinhado no desembrulho de uma a uma. Para ele, o não da vida lá fora já era motivo certeiro para o deguste de-
las. (Assim como o são, também, para mim.). O esforço que animava sua existência vinha desde sempre: abria e ativava a palavra de coragem sempre que fosse iniciar um novo dia. Em cada amanhecer, ao som do canto dos galos, se deparava com os enigmas da vida e sua legibilidade ocorria no encontro da humildade com sua maneira analítica, às vezes brejeira, meticulosa sempre, de lidar com todas as coisas, arrolando-as com leveza e afeto. Seu t(r)ato com os bichos, por exemplo, era de acarinhamento dos mais vermelhos. Sopro de vida a conferir um sorriso no rosto. Como quando do apego, malgrado tardio, ao nosso felino Godot. “Gatos são atentados”, dizia. Mas gateiro se tornou. (É que Godot era irresistível.)
Contra os que atribuíam caipirismo à incredulidade dos passos longevos do meu avô, sua resposta vinha sempre envolta de uma presença de espírito traduzida em tiradas que refletiam todo o constelado de suas conquistas. Encimado por janelões de um casebre, construído à custa de horas a fio de trabalho no salão de barbearia, e que se situava, goianamente, na antiga Campininha das Flores, ele projetava seu olhar à sôfrega missão cumprida com orgulho. (Muito se faz(ia) troça de quem nunca teve a oportunidade de “se sentar num banco de escola”.) Os olhos ficavam úmidos só de contar – rememorar a passagem do tempo por meio da pungência e da contenção de bens o fazia desautomatizar o cotidiano; era lição temporã, de quando o frio ainda se manifestava maior que o próprio cobertor. Inverno longevo, que só me foi possível compreender anos e anos depois. Todo o resto: perfumaria. Já dizia não se permitir estar mais nas tintas. (Assim como eu. Hoje.)
As experiências partilhadas comigo davam forma às palavras mais caras, conotando umas com as outras, a voz ouvida era dedicada ao meu aprendizado, antes mesmo que eu o imaginasse; quando o sentido se perdia, logo refluía. E o mapa sempre dentro de sua cabeça. A bússola, de fábrica, o ditava, como reencontro, admitindo o valor mais depurado, nos vazios e na forma – tribuária do rústico. Anterior ao malogro das expectativas, o tempo degenerava, advertindo contra a fala de um persistente lugar-comum da confiança alheia. Era preciso desapegar da ideia automatizada que, “em sendo familiar” já se compreenda como garantia de ombro amigo iminente. “Palavra gasta, em desuso: é o parente”, disparara ele, certa feita, no exato segundo em que a garrafa de café, do alto do parapeito da janela da cozinha, despencava em cima da pia. E sem que para isso tivesse recebido algum ou o menor dos triscados. A queda, naquele momento, arregalara nossos olhos: entre assombrados e cúmplices, ficamos. (Sigo assim.). A algaravia disparada pelas anedotas conferia-nos a concordância factível de nomes e segredos.
Tardes incontáveis: elogio à nossa correspondência, contra os lugares de fala que, não raro, me pareciam sem saída, de tão escrachados, indecentes – assim me consignava na descoberta do que era e não do que eu gostaria – ou pensava – que fosse. Da leitura de mundo dele, pincei a atenção dada às minúcias, ao que se tinha como desimportante, particularíssimo. Ao sabor de suas humildes mãos, o artesanato o era brincadeira exangue. Para atingir a perfeição só assim. E ele a atingia. Nela, a forma dos objetos, não bastava, ainda adquiria o frescor do improviso. Gamelas, caixinhas avulsas, cachepôs para o jardim, ninharia para os ovos das galinhas…, todas com nome, acertado um a um, particularmente.
Quando fitava o horizonte, ele o fazia com olhos ensinados pela vida, e, por trás das lentes grossas dos seus óculos, escondia um pensamento de mil palavras, salvas, prontas a serem acessadas, fosse a época que fosse. Para isso, bastava que se perfizesse o movimento de um suspiro. Assim, era a sua estratégia de sobrevivência em confronto com a vida dura, da qual ele, “apesar de…”, conseguia venerá-la. Contra o mau tempo, em busca de dias melhores, a resignação o acometia. Seu modo de ver surgia-lhe direto e punha a nu quem era quem, fazendo ouvir o sensível de sua intuição de virginiano, do dia 17. Esconjurávamos fantasmas juntos, por isso. Mais (de) uma vez.
Há (no presente) algo de profundamente inspirador na forma como meu avô se anunciava no mundo, flertando pensamentos em voz alta com graça, sempre esteado pelo correto, linha reta, mas que, vez ou outra, adquiria sinuosidade porque nada, nem ninguém deveria sucumbi-lo. Sua serenidade era, portanto, restabelecida. Encabulava, sim, mas não se entregava, porque sabia que no dia seguinte o sol estaria lá de novo – disposto a secar mais uma gamela de barro por fazer, a insurgir a flor de hibisco. A secar a lágrima que fosse, inclusive a que agora me cai.
Letícia Ferro é doutora em Letras e Linguística pela UFG. E-mail para contato: let_ras@hotmail.com










