
Desculpa, mas preciso de espaço. Não é possível escrever assim, pensando nos outros. Dizem que escrever é um dom, uma assessoria divina, mas não, escrever é trabalho. Muito cedo tive de me desligar da família. Meu pai e minha mãe não entendiam muito bem o que eu fazia – à época escrevia para um jornal muito conhecido. Meus dois irmãos me chamavam de vagabundo e tinham raiva porque eu ainda morava com os meus pais. O jeito foi eu sair de casa e dar notícias meses depois, para dizer somente que estava vivo e que não precisava de cuidados. Mentira. Eu estava atolado em dívidas. Não podia pensar no aluguel, que chorava. Os poucos amigos que tinha, que ganhei no âmbito da escrita, me socorreram inúmeras vezes; uma hora, vinham com cestas básicas; outra, davam algum trocado. Não culpo os meus pais. Hoje acho que sou um sujeito intrinsecamente ingrato. Fui egoísta até os ossos. Não cuidei como deveria do meu pai, que morreu de câncer no ano passado, mas a razão do meu afastamento foi a presença incansável dos meus irmãos, com os quais não falo. Minha mãezinha ainda é viva, e lhe peço para visitá-la quando está sozinha – não quero ter o desprazer de encontrar a corja da irmandade… Pois é, levo uma vida solitária, até certo ponto prazerosa, porque não sou impedido por ninguém de acordar ao meio-dia, tomar o café e almoçar às 15h, como faço regularmente. Sou um sujeito notívago, como os morcegos: só trabalho à noite. Agora estou preparando uma obra monumental, como os grandes livros dos escritores russos. A mim me parece que somente uma grande obra – literalmente – teria o condão de chamar a atenção do público em geral. Os meus dezoito livros já escritos, com prosas curtas e curtíssimas, não têm muita serventia para os leitores, apesar de eu idiotamente achar que as pessoas, hoje, preferem a facilidade e a agilidade. Na verdade, as pessoas são entupidas de palavras todos os dias. Há uma explosão de informações, que enterram os meus escritos, como supérfluos ou inservíveis. Como disse, estou empenhado na grande obra, monumental como Ulisses, de James Joyce, que nasceu para ser incompreendida e desejo de entendimento de boa parte da população leitora. Por dia, escrevo entre duas e três páginas. Houve um tempo em que escrevia, naturalmente, de cinco a dez. Hoje meu cérebro não funciona assim. Luto para completar as páginas pretendidas, porque tenho um cronograma: quero inaugurá-lo no dia em que completarei cinquenta anos. Será uma explosão. Já estou vendo em todas as manchetes: “Paulo Wilson Jacomé escreve sua obra colossal, a sua redenção na literatura!”. Passarei a ser conhecido assim. Alguns poucos amigos sabem do potencial da minha escrita. Algumas pessoas têm apreço por mim. Mas continuo só, juntando os meus cacos, na esperança de um porvir glamoroso; como disse, redentor.
Adriano Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2017, lançou seu primeiro livro de crônicas, “O sussurro cálido da negação”, publicado virtualmente. Logo, em 2018, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020, os livros de contos “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”; em 2021, o romance “Em mim, a clausura e o motim”, pela Editora Penalux; em 2022, a coletânea de contos “Não há de quê”, pela Editora Folheando; em 2024, o livro de contos “Amparo secreto”, pela editora Urutau, e o romance “Viver morrendo”, pela editora Folheando; agora, um novo romance, em 2025, “Arraia-ralé”, pela editora Urutau. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.
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