
II
Há dois temas permanentes na obra de Camilo: a felicidade e o conflito que se opõe à felicidade. Escritor romântico que nunca deixou de o ser, explorando o amor como fio condutor da sua obra, o mestre de Ceide foi também, e sempre, um escritor realista explorando as grandezas e misérias do tempo das suas novelas que não é o seu mas um tempo passado que se projeta no seu.
É nesse contexto simultâneo de romantismo e realismo que se desenvolve na obra de Camilo o tema da felicidade. Pertencendo a muitos lugares e a lugar nenhum, amante de tantas mulheres e de mulher nenhuma, nem sequer a Ana Plácido (como o demonstra a farsa que foi o seu casamento, quase no final da vida, casamento forçado por amigos, em particular o seu melhor amigo, o grande médico Ricardo Jorge), instável, nevrótico, toda a sua vida O Penitente perseguiu a felicidade sem alguma vez a ter encontrado, a não ser, como ele confessa em IMPRESSÃO INDELÉVEL, naquele breve período da sua primeira juventude em que viveu em Vilarinho de Samardã. Mas, na verdade, a sua ânsia de felicidade era impossível de satisfazer.
E é, significativamente, com a novela ONDE ESTÁ A FELICIDADE, a primeira do ciclo da felicidade, que se inicia, verdadeiramente, o seu percurso de grande escritor (como percebeu ALEXANDRE HERCULANO) e a felicidade é o tema central de toda a sua obra novelística posterior.
Mas, onde poderá encontrar-se a felicidade? No amor, no dinheiro, na virtude, ou em lugar nenhum?
Nessa novela ONDE ESTÁ A FELICIDADE escreveu Camilo o seguinte diálogo:
– Em suma, queres saber onde está a felicidade?
– Se quero!!..
– Está debaixo duma tábua onde se encontram cento e cinquenta contos de reis.
Mas nem aí, porque, como está claro na segunda novela do ciclo da felicidade, UM HOMEM DE BRIOS, apesar do dinheiro, a infelicidade acaba por ser o destino dos amantes com dinheiro. Escreveu Camilo em UM HOMEM DE BRIOS:
O amor que leva à sedução, a sedução que leva ao fastio, o fastio que leva ao abandono, são alternativas de todos os tempos.
Percebemos, então, que Camilo não acreditava que a felicidade, pelo menos para si, fosse possível: a costureira Augusta, feita baronesa de Amares pelos cento e cinquenta contos de reis encontrados debaixo duma tábua, não logrou alcançar a felicidade apesar de ter alcançado o dinheiro.
Foi certamente por isso que Aquilino Ribeiro destruiu, em O ROMANCE DE CAMILO, o mito do “grande” amor de Camilo e Ana Plácido: Tendo esse amor começado em 1855, e ocorrendo a prisão de ambos na cadeia da Relação do Porto por crime de adultério, entre 1860 e 1861, já no final de 1863 escrevia Camilo numa carta dirigida ao Conselheiro Gustavo Nogueira Soares, seu amigo e confidente, destroçado com a infidelidade (real ou suposta) de Ana Plácido com Ferreira Quiques, um amante de Ana Plácido antes do seu relacionamento com Camilo:
O mal da alma procede do lamentável passo que deu a Ana Plácido, reatando as relações com o Quiques. Tive o dissabor de surpreende-los, e deixei-os ambos dignos um do outro. A pobre mulher está de todo perdida.( AQUILINO RIBEIRO, O Romance de Camilo, II, pp.324).
Porém, ainda durante o primeiro período do seu relacionamento amoroso com Ana Plácido, 1855/56, manteve os seus amores com a freira Isabel Cândida de Vaz Mourão, que conhecera em 1850, mulher não dotada de beleza física mas de tal modo dedicada a Camilo que, mesmo depois de por ele abandonada, continuou a criar a filha do romancista e de Patrícia Emília de Barros, Bernardina Amélia, e foi mesmo ela quem deu o consentimento para o casamente desta, que o pai recusara.
Mas, além da freira Isabel Cândida, nunca Camilo deixou ter uma relação que, muito para além do erotismo, assentava num afeto quase filial com Eufrásia Carlota de Sá, dona de uma pensão na Rua do Bonjardim onde se albergou Camilo depois de ter fugido de Vila Real para o Porto, e que, para além de sua hospedeira integral, no dizer de AQUILINO RIBEIRO, lhe votou uma dedicação sem limites, ao ponto de servir de intermediária na relação amorosa entre Camilo e Ana Plácido, quando esta estava casada e a viver com Manuel Pinheiro Alves, na Rua do Almada.
São várias as mulheres que atravessaram a vida de Camilo: a Maria do Adro ( Margarida Dias) referida em IMPRESSÃO INDELÉVEL, Joaquina Pereira de França, com quem casou, aos dezasseis anos, para logo abandonar, Patrícia Emília de Barros, com quem protagonizou uma fuga e lhe deu uma filha, Fanny Owen, Ana Plácido, entre muitas outras. No dizer de Pacoaes, Camilo Será sempre um místico enlaçado na Beleza pura e um Fauno seduzido pela Ninfa que divaga entre as árvores.
Foi que neste conflito interior em que Camilo se encontrava enlaçado que tornou impossível que alcançasse a felicidade e que fosse quase sempre impossível que as personagens das suas novelas a encontrassem.
Mas o conflito interior de Camilo que o impedia de alcançar a felicidade tinha também o envolvimento social na sua génese.
O Penitente de Ceide viveu num tempo em que o casamento, sobretudo dentro da nobreza, era um negócio familiar destinado, sobretudo, à conservação ou aumento do património, e o casamento entre diferentes estratos sociais era reprovado pela sociedade. Casar por amor é uma ideia que surgiu com o romantismo e teve consagração apenas no século XX.
As novelas camilianas são atravessadas por este conflito: de um lado estão o amor e a liberdade, do outro os interesses e os vínculos sociais. Na sua primeira grande novela ONDE ESTÁ A FELICIDADE, o amor entre o nobre endinheirado e a pobre costureira Augusta, da Rua dos Arménios, do Porto, confronta-se com a teia social que envolve Guilherme para o aproximar de uma prima do seu nível social, Cecília, e o leva a abandonar Augusta. Também se repete o conflito nas suas novelas mais notáveis, a começar por MARIA MOISÉS, em que Josefa da Lage, de baixa condição social, se apaixona pelo fidalgo António Queirós e por este é rejeitada devido à sua condição. E na mais célebre das novelas de Camilo, AMOR DE PERDIÇÃO, é o conflito entre as famílias fidalgas de Domingos Botelho e Tadeu de Albuquerque que impede a união e a felicidade dos amantes, Simão e Teresa. O conflito pode dar-se mesmo entre os filhos de famílias nobres: os pais que contrataram um casamento contra a vontade dos filhos para aumentar o seu património são a causa do conflito entre marido que ama outra mulher e esposa que ama outro homem, como acontece em ESTRELAS FUNESTAS.
(continua)
HENRIQUE DÓRIA
Henrique Dória é advogado e colaborou no Diário de Lisboa Juvenil e nas revista Vértice e Foro das Letras. Tem quatro livros de poesia e três de prosa publicados. É diretor da revista online incomunidade.com, e da Rádio Transforma.










