
Um dos assuntos que mais têm suscitado a minha reflexão nos últimos tempos é o da gentrificação da memória histórica e, ao mesmo tempo, o controlo de um tipo de memória histórica por diferentes poderes. Recordo sempre a afirmação de Milan Kundera, em A Insustentável Leveza do Ser, de que a memória é essencial na luta contra o esquecimento e que, por isso, é arma fundamental contra o pensamento e poder totalitários.
Parece ser consensual referir a importância estrutural da memória histórica. Todavia, assistimos à secundarização da História dos curricula escolares de todos os níveis de ensino. A História tem desaparecido da componente teórica de vários cursos superiores. A gentrificação do conhecimento histórico, portanto, da memória, ocorre porque a lógica neoliberal triunfou ao considerar que o ensino deve ter eficácia tecnológica e empresarial e, consequentemente, a História e outras Ciências Sociais aparecem como inúteis e pouco rentáveis e que não conduzem os alunos para um emprego qualificado. Além disso, optou-se por aquilo que se considera um saber especializado e muito prático e os conhecimentos mais marginais e que visam a contextualização aparecem como descartáveis. Por último, esta desvalorização da memória e do conhecimento histórico articula-se com os cortes orçamentais que o Ensino Superior é vítima e estes saberes são sempre os primeiros a ser cortados.
Todo o conhecimento precisa de contextualização histórica, do lastro da acção humana no tempo e no espaço. Em 1996, o historiador Jacques Le Goff ao reflectir sobre a memória histórica, salientava a sua importância para a construção de uma identidade ou identidades dos povos, dos grupos e dos indivíduos. É na busca e na reflexão dessa memória que estão as raízes dos povos e nomeadamente dos seus pensamentos e práticas culturais e artísticas. Busca essa que deve ser livre e procurar a pluralidade, a diversidade e complexidade do debate histórico e cultural, porque só assim se garante a recuperação de muitas vozes do passado e percebemos o presente na sua densidade, na sua forma poliédrica e, igualmente, nas suas contradições.
Foucault (Arqueologia do Saber, 2004) insistia que a memória histórica não é algo mumificado, ou nas suas palavras, “espaços de recolhimento da poeira dos enunciados”, mas sim lugares e fontes de ressurreição que trazem a marca de um tempo, de um lugar, das estratégias de agregação e de apropriação de determinados valores, conceitos e normas de ajustamento, de tramas e jogos de poder, de rituais e rupturas de grupos sociais organizados.
Por isso, temos de defender o direito e o dever à memória histórica, porque sem ela ocorre o esvaziamento da comunidade e do conhecimento plural e, como Umberto Eco afirmou, sem ela não existe sobrevivência. Neste mundo globalizado a memória histórica permite perceber quem somos e como chegamos aqui. Ao assegurar esta reflexão sobre a continuidade no tempo e no espaço, a memória histórica contribui para pensarmos o presente enquanto comunidade e de pensar criticamente e projectar o que queremos enquanto sociedade democrática e diversa. O historiador e professor de Cambridge, Richard J. Evans afirma que a memória histórica é que nos permite navegar com rumo na vida contemporânea e acrescenta: “Hoje em dia, em que somos inundados com avalanches, torrentes de desinformação e teorias da conspiração, é mais importante do que nunca ter as ferramentas para pensar criticamente sobre os factos e distinguir a realidade da ficção e combater as fake news”.
Qualquer experiência humana, como a cultural e artística, é uma experiência no tempo e no espaço e, por isso, o cancelamento ou gentrificação da memória histórica significa o apagar do tempo enquanto “lugar” do acontecimento concreto e visível. Este anulamento persistente da memória é tornar abstracta a experiência, retirá-la do seu enquadramento espácio-temporal e, portanto, esvaziar a consciência pessoal e colectiva dos dados e das fontes que nos permitem analisar e reflectir sobre a realidade, aprisionando-a numa dimensão atemporal. No romance distópico, 1984, de que falarei adiante, o protagonista, Winston Smith constata que todos ficaram prisioneiros dessa atemporalidade, em que a História parou e nada existe a não ser um presente infinito, que impede a possibilidade de mudança e de pensar de forma crítica.
Em segundo lugar, o controlo da memória histórica, outra forma de gentrificação. Podemos partir da famosa frase de George Orwell em 1984: “Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o futuro”. Ou então lembrar os versos do poema da Natália Correia, “Queixa das Jovens Almas Censuradas”, que conhecemos tão intensamente interpretado pelo José Mário Branco:
Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a História
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.
No romance distópico acima citado, Orwell descreve-nos como funciona o memory hole, um mecanismo usado para alterar ou destruir deliberadamente documentos, fotografias, gravações, textos e outros documentos considerados perigosos ou inapropriados para o regime. Mas o Ministério da Verdade não se limita a destruir o passado, porque ao recriar todos os documentos e fontes ele reconstrói a memória histórica à medida da ideologia do regime. Jacques Le Goff já tinha falado da memória histórica como instrumento de poder. Sabemos que as ideologias e os poderes totalitários e as narrativas utópicas/distópicas, entrincheiradas em verdades dogmáticas, percebem como se pode recorrer ao passado para legitimar ou deslegitimar o presente e, para isso, é necessário apagar ou modificar tudo o que no passado põe em risco o seu domínio ideológico e acesso ao poder. Desde o embuste do Protocolo dos Sábios do Sião, fundamento do antissemitismo moderno, à mentira do incêndio do Reichstag, passando pela eliminação de Trotsky da fotografia ao lado de Lenine na Revolução de Outubro, os exemplos são às catadupas.
O produto da selecção da memória colectiva, como refere o sociólogo Halbwachs, diz muito mais sobre o presente, sobre os nossos preconceitos e ideologias do que sobre o passado. Vemos, de facto, emergir com aparentes novas roupagens ideologias totalitárias que tentam controlar e manipular a memória e a narrativa históricas, dando origem a teorias da conspiração e às fake news, aumentadas exponencialmente pelas redes sociais em indignações que se renovam constantemente e em que o debate se faz atirando slogans, hashtags e insultos à mistura.
Campo difícil para uma reflexão séria sobre a memória histórica que vise a cidadania democrática e tolerante, que procure analisar de forma crítica as diferentes heranças históricas. A História pode ajudar a desenvolver a honestidade intelectual e o rigor, a compreensão independente, a abertura de espírito, a curiosidade, a coragem de resistir e a tolerância.
Em terceiro lugar, ouvimos apelar à descolonização da escuta e dos sons. Também na memória histórica temos que defender sua descolonização. Aliás, devemos falar em memórias históricas, porque a História é compartilhada por diferentes vozes, que estiveram em conflito ou numa lógica de dominação/subjugação. A colonização da memória histórica implica sempre que certas narrativas históricas sejam dominantes e que a cultura dos colonizados seja apropriada ou eliminada. A memória histórica dos colonizadores é sempre uma imagem falsa do passado, ou muito parcial, em que se busca o reflexo de uma imagem idealizada e que deu identidade durante séculos. Por isso os processos de desconstrução dessa memória histórica são sempre disruptivos e, por vezes, traumáticos. Descolonizar a memória histórica é libertar a reflexão histórica e cultural dos valores de dominação, devolvendo a palavra aos que foram dominados e excluídos, reconhecendo a autonomia e a singularidade dos seus percursos históricos e culturais. Perceber que houve muitas vezes uma apropriação cultural que esvaziou de sentido autêntico as produções culturais de muitos grupos à margem do poder, mas sem esquecer que isso também trouxe uma contaminação cultural que é positiva porque tornou as culturas mais plurais e complexas.
Importa também reflectir sobre as representações coloniais sob o ângulo das suas permanências na actualidade pós-colonial. Mais do que as imagens do passado colonial construído e a permanência dessas imagens, é importante reflectir sobre os modos e as lógicas em que podemos questionar e criticar as mesmas. Por exemplo, quando se aborda o tema dos Descobrimentos (e esta palavra já comporta todo um sentido colonial) e o império colonial português vamos desembocar a uma certa retórica luso-tropicalista, vulgarizada pelo Estado Novo, de que seríamos os criadores de uma espécie de colonialismo benigno e de um povo com uma capacidade afectiva especial para lidar com os povos que colonizou. Esta construção narrativa contribuiu para a ausência de um questionamento crítico sobre o colonialismo e o racismo em Portugal e para uma incapacidade e resistência em ouvir vozes que trazem outras memórias históricas. Por isso, até recentemente ainda não tinha sido promulgada uma legislação específica sobre a preservação da memória do colonialismo, sobre um tratamento mais crítico nos programas escolares e os espaços de pesquisa e de reflexão crítica sobre o nosso passado colonial estavam, geralmente, confinados a estritos círculos académicos. Contudo, nos últimos anos a memória do colonialismo e pós-colonialismo está a ganhar espaço como tema de debate e de investigação. Esse é o papel da História: contrariar a tendência da memória dos poderes para simplificar a complexidade do vivido, para reduzir as lembranças a essências, para exaltar aquilo que convém ao grupo que recorda e esquecer os aspectos mais negativos da sua acção.
Relacionado com o último ponto, e para terminar, a gentrificação da memória histórica está de alguma forma relacionada com o triunfo da “cancel culture”, que começou com as boas intenções de combater o racismo, a homofobia, a misoginia e outras atitudes intolerantes, mas corre o risco de se tornar uma outra forma de Index inquisitorial, porque, mais uma vez, afasta a contextualização histórica e cultural dos julgamentos que decreta. Aprendemos todos com Lucien Fébvre que o anacronismo histórico é um dos maiores pecados de quem faz História, porque projecta o presente, com os seus valores, ideologias e experiências na análise do passado.
Devemos remover monumentos ou proibir qualquer obra de arte que choque com os valores das sociedades democráticas? Devemos ter imortalizados em pedra, bronze ou qualquer outro material, protagonistas racistas e colonialistas, por exemplo, que representam a memória histórica de quem teve poder? Um dos primeiros alvos foi a estátua de Cristóvão Colombo em Boston, que acabou decapitada, seguido do derrube da estátua de Edward Colston em Bristol, benfeitor e responsável pelo desenvolvimento desta cidade, mas cuja riqueza foi construída com um intenso tráfico de escravos. De seguida foram atacadas muitas estátuas em variados locais e em Portugal o alvo foi a estátua do Padre António Vieira vandalizada com tinta vermelha e com a frase “descoloniza”.
Outras obras artísticas passaram também a ser alvos. Devemos continuar a ver filmes como E Tudo o Vento Levou (que chegou a ser retirado de exibição e agora está acessível, mas com um aviso prévio) ou o Nascimento de uma Nação, do genial Griffith porque são explicitamente racistas? Devemos continuar a sentir-nos tocados com as angústias da entrada no mundo adulto de Holden Caulfield em Catcher in the Rye, de Salinger, apesar da sua evidente misoginia? Devemos continuar a rir com o gritante antissemitismo de Gil Vicente? Devemos retirar da lista de livros de leitura obrigatória nas escolas (o que já aconteceu em várias escolas dos EUA) o Huckleberry Finn, obra magnifica de Mark Twain, porque o escravo Jim é muitas vezes apelidado de nigger? Devemos censurar ou criticar a obra de Gershwin por apropriação cultural evidente da música negra? A lista é interminável.
Muitos consideram anti-intelectual e uma forma de censura, como outra qualquer, querer cancelar qualquer monumento ou obra de arte, porque além do valor estético intrínseco esses objectos artísticos representam sempre uma memória histórica concreta.
Há quem, como a escritora e jornalista alemã de origem egípcia, Waafa Albadry, considere que remover esses símbolos de racismo, homofobia, machismo e colonialismo pode ajudar a desconstruir o discurso dominante nas sociedades ocidentais, porque “consagram a supremacia branca em espaços públicos” e isso impede uma verdadeira reconciliação nas sociedades democráticas.
Mas, em vez de derrubar e censurar, atitudes sempre totalitárias em relação à memória histórica, não devemos, como sociedades e culturas democráticas que queremos ser, aproveitar estes momentos e estas questões para discutir o lugar dos monumentos históricos nas nossas cidades e o papel das obras de arte? Mais debate histórico e cultural e menos voluntarismo ideológico, muitas vezes sectário, é necessário em vários fóruns.
Provavelmente a maioria estará de acordo de que certas estátuas pertencem aos museus e não ao espaço público e que podemos até acrescentar novos monumentos que nos tragam outras memórias históricas, de outros grupos, cuja memória nunca foi contada e analisada. Algumas das obras artísticas e literárias merecem, também, um olhar mais plural e crítico.
A “cancel culture” rapidamente deixa de ser um instrumento de justiça social, política e cultural, para se transformar numa forma de intimidação de grupos sectários e dogmáticos. E o que parecia ser uma atitude progressista transforma-se numa outra forma de gentrificar a memória histórica, punindo pessoas e censurando obras por se comportarem ou pensarem de forma marginal, fora das normas definidas como correctas. A gentrificação da memória histórica, como vimos, expulsa sempre o que é periférico, o que é alternativo, o que é diverso e complexo mesmo por parte dos gostam de se assumir como poderes alternativos, embrulhados numa linguagem pós-moderna e redonda.
Nada disto é novo na História da Humanidade, que já assistiu a vários momentos iconoclastas, que foram críticos do seu próprio tempo, rejeitando certas leituras estabelecidas e propondo ou mesmo impondo outras. Mas o passado histórico não se apaga porque removemos os objectos do nosso horizonte visível ou censuramos certas obras. Uma sociedade democrática tem que ser capaz de assumir essa herança como parte da sua memória e da produção histórica e cultural e fazer uma leitura crítica da mesma, contextualizando-a no tempo e no espaço e confrontando-a com as ausências de outras vozes e objectos artísticos. A capacidade de saber viver com as luzes e as sombras que fazem parte do nosso passado revela muito da nossa maturidade democrática. O desenvolvimento de uma memória histórica livre, plural e crítica é essencial para a sobrevivência das sociedades democráticas, aliás, da humanidade.
Porto, Janeiro de 2025
Maria João de Abreu Mena Guimarães e Castro,
Professora do Ensino Superior, na Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo, nas áreas da História da Cultura, do Teatro e Cinema e da Ideologia e Pensamento Político Contemporâneo. Investigadora do CITCEM (Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço e Memória») nas áreas da História da Cultura e do Pensamento Político Contemporâneo. Directora do Coliseu do Porto desde Abril de 2020. Deputada do PS na Assembleia da República na XV Legislatura. Vereadora do PS na Câmara do Porto em regime de substituição. Dirigente do PS Porto.










