
Resumo: O complexo militar-industrial-penal produz, além de máquinas destrutivas e exploradoras da natureza, síndrome de Estocolmo em massa capaz de mobilizar cada vez mais pessoas para, de moto próprio, competirem entre si para serem vítimas cúmplices na prossecução da semimilenar missão imperial de explorar a Terra, incluindo a humanidade.
As polícias e as penitenciárias modernas são contemporâneas da substituição da escravatura pelo assalariamento. As prisões serviram e servem para quebrar a moral dos trabalhadores livres – livres porque não estão presos. Os nazi-fascistas adoram prisões, mesmo quando eles próprios são presos. Mas porque é que os inquéritos dizem que os portugueses acham bem as rusgas na rua a estrangeiros e se recusam a reconhecer que isso é racismo? Porque é que na Europa os órgãos de soberania gozam de prestígio negativo (menos de 50% de aprovação) e as polícias positivo (mais de 50%)? Porque é que as últimas manifestações (2024-2025) têm sido motivadas por episódios de violência policial? Será que isso (a violência racista) é marginal à luta política ou é institucional? Se a violência racista (melhor: discriminatória) é institucional, as prisões (e o lúmpen) são sociedades à parte ou são o núcleo duro da inércia da sociedade face aos seus abusadores? Em que consiste precisamente a produção de lúmpen, esse fio de prumo da ordem social?
A civilização da síndrome de Estocolmo
Quando se fala de prisões, a nossa imaginação foca-se entremuros. Os mais atrevidos podem recordar tempos de escola, da tropa, de práticas religiosas, de actividades laborais que parecem ter semelhanças com os regimes penitenciários (Goffman, 1999). Mas como sustentar a ideia de comparar práticas quotidianas, em que todos convivemos, com obscuras práticas prisionais que só guardas e presos podem conhecer e sobre as quais não estão geralmente dispostos a falar?
Finalmente reformado, reencontro amigos de juventude. Todos procuramos reorganizar os nossos convívios. Recordamos episódios de juventude e de infância. Discutimos política e filosofia. Informamos sobre conhecimentos profissionais adquiridos. Dos traumas familiares e profissionais nem uma palavra. Parece que estivemos presos. O que todos compreendemos.
Compreender o que são presos e guardas, o que os leva a comportarem-se da maneira que os caracteriza, é compreender a síndrome de Estocolmo. Mas o reconhecimento do mérito e a adopção sincera da missão dos nossos abusadores que nos contratam profissionalmente não é também um efeito da síndrome de Estocolmo? Síndrome de que quem nunca esteve preso também não escapa, sem ser capaz de o reconhecer – por vergonha.
Como mostrou a experiência de Stanford (Zimbardo, 2007), em contexto prisional pessoas comuns tornam-se voluntariamente torturadoras se lhes forem distribuídos papeis de guardas. Se lhes forem distribuídos papeis de presos, encenam-se como vítimas. O próprio investigador que conduziu a experiência, e ficou famoso e respeitado por isso, se impôs, sem se dar conta disso, o papel de organizador e mandante das torturas e vitimações que sabia estarem a ocorrer.
Não foram apenas os estudantes que se voluntariaram para realizar a experiência que obedeceram aos desejos de confirmação do investigador da sua suspeita de que as prisões motivavam comportamentos desumanos, incluindo o auto-sacrifício. Para provar a desumanidade das prisões, o investigador dispôs-se a ser desumano para com os estudantes que nele confiaram voluntariamente. Precisou de três décadas de estudos para reconhecer pública e cientificamente a transformação porque ele mesmo se tinha imposto, voluntária e inconscientemente.
Retomou o assunto décadas depois para denunciar um dos momentos de reforço político do fascismo, depois do golpe de Pinochet de 1973 e antes das políticas de austeridade de 2010 – a mobilização das novas cruzadas contra o Islão, provocadas por George W. Bush (Amaral, 2003). Chamou efeito Lucifer à síndrome de Estocolmo mobilizada mais uma vez politicamente pelos EUA e o Ocidente com a sua guerra eterna contra o Islão.
Nem os mais atrevidos compreendem que se os estudantes não participam nas aulas e, desse modo, reduzem as suas possibilidades de aprendizagem, como os trabalhadores também podem fazer cera no trabalho para evitar a sua sobreexploração; se muitas das sugestões profissionais dos trabalhadores são ignoradas, roubadas ou até punidas pelos empregadores; se se insiste na produção de gases com efeito de estufa, isso tudo e muito mais acontece por que a civilização usa e abusa da síndrome de Estocolmo para conseguir mobilizar praticamente toda a humanidade à disposição das elites.
A produção e a manutenção de filhos-da-mãe, de pessoas marginais e visceralmente más, não é um resquício da irracionalidade tradicional: é uma necessidade da nossa civilização (e porventura de outras) para impor a imoral racionalidade hierárquica imperial de exploração da Terra com vista à estúpida acumulação de riquezas.
A civilização
Para dividir e reinar, a civilização ampara-se em e desenvolve mecanismos sociais de frustração da fraternidade espontânea. A emocionalmente satisfatória convivência horizontal recuou para espaços-tempo politicamente menos relevantes, privados. A rarefacção das convivências horizontais produzida pela substituição das emoções pela razão torna-as mais indispensáveis. Essa indispensabilidade tem sido explorada comercialmente, como no desporto e no espectáculo, e politicamente, como nas escolas e nas guerras. Transforma grupos em massas, comunidades em eleitores. As exibições de poder deixam de ser excepcionais e marginalizadas, como o são nas sociedades mais simples, para serem omnipresentes, estruturais e estruturantes. São racionalmente encenadas como sedução ameaçadora para obter amplos resultados práticos, em particular a submissão e a exploração.
O espírito imperial tem um papel instrumental na construção de civilizações. Institucionaliza a submissão diferenciada entre decisores dominantes, seguidores séquito, massas subordinadas e grupos estigmatizados, todos orientados por desígnios superiormente impostos utilizando o efeito Lucifer. Todos estamos obrigados (e desejosos) de escolher a nossa função profissional e todos ficamos expostos a ser escolhidos para sermos usados como bodes expiatórios. A lei é igual para todos, todos somos potenciais suspeitos.
Mas uns somos mais suspeitos que outros, como explicou Orwell. O risco civilizacionalmente produzido de insegurança existencial leva as elites a pagarem por serviços de segurança privada. Mesmo os serviços do estado são, em larga medida, serviços de segurança dos seus dignatários e respectivos séquitos. A segurança das elites e do estado estende-se, como bem sabem os seus estrategas, aos domínios da propaganda.
Segurança e propaganda, violência e sedução, acumulam, promovem e amplificam, por tentativa e erro, as discriminações sociais. São essas discriminações devidamente justificadas que naturalizam, que tornam eticamente aceitável, a hierarquização social entre os protegidos, privilegiados, e os perseguidos, maltratados por nascimento, os filhos-da-mãe. A melhor propaganda da civilização inclui profecias que se auto-realizam, como o consumismo que anima a intensificação da exploração da Terra desde o pós-guerra (Marcuse, 1991).
O espírito imperial é institucionalmente divulgado e instigado com a finalidade de naturalizar o trabalho de manutenção das hierarquizações sociais, nomeadamente através da escolarização e da profissionalização, e dos respectivos processos de avaliação. O facto é que a nossa civilização conseguiu manipular de tal modo as nossas mentes que somos praticamente incapazes de imaginar uma sociedade sem hierarquias, mesmo onde elas não existem (Graeber & Wengrow, 2021; Silva, 2003). As sociedades são submetidas pelo espírito imperial a servir a missão que as explora, juntamente com a natureza. As redes sociais e a Inteligência Artificial são apêndices tecnológicos que potenciam os conhecimentos-ilusões-ideologias paulatinamente produzidos milenarmente, democratizados e intensificados nas últimas décadas (Pasquinelli, 2023).
As elites seduzem as sociedades com expressões artísticas e culturais ameaçadoras que apreciamos nos museus e nos monumentos, como se não se dirigissem a nós, como se fossem dádivas. As ameaças são monumentos de manifestação de desejos de poder eterno em cuja construção morreram certamente operários frequentemente sentindo-se honrados por estarem a participar numa obra simbólica que lembra batalhas e outros mortos, ou simplesmente por isso lhes permitir ter emprego. Todos esses mortos são transformados em fantasmas a quem não são prestadas homenagens. Fantasmas que também somos socialmente, mas com os quais, irracionalmente, não nos identificamos. Preferimos guardar a nossa empatia para quem abusou desses fantasmas – os antecessores de quem de nós abusa.
Como nos motins prisionais, sem aviso rebentam carnavais de repulsa, culpa, medo, raiva, vingança, nas cidades. Os especialistas, sem explicação para tal, falam em violência gratuita. Dever-se-ia chamar contra violência das vítimas cúmplices enlouquecidas por vislumbrarem a explicação do que se passa, mas a quem não é permitido discutir ou compreender o que se passa. Perante a irresponsabilidade das elites e das sociedades perante os sacrifícios impostos por gerações a tanta gente (Clark, 2007), as ameaças politicamente representadas pela inacessibilidade do vulgo às decisões políticas de fundo concretizam-se em tumultos ameaçadores da ordem social. Esta é manifestamente frágil. A história mostra que nunca se sabe o que emerge de baixo das convulsões sociais. Que o digam os polícias, os guardas prisionais, os militares. Que o diga a União Europeia face à segunda eleição de Trump como presidente dos EUA.
As elites aprenderam a mobilizar o espírito punitivo para desviarem da sua direcção as emoções negativas populares de frustração. Tais emoções manifestam-se desde que se organizou a mobilização forçada de pessoas para cumprimento de missões almejadas pelas elites (Bentham et al., 2000; Pasquinelli, 2023; Reich, 1991). Desde Hobbes e Rousseau, Maquiavel e Kant, que se sabe que é irrelevante considerar a natureza das pessoas de boa ou má índole. De uma maneira ou outra, bem-dispostos ou revoltados, os trabalhadores cumprem os seus deveres e dedicam-se alegremente às revoltas, fazendo tudo parte da sua experiência de vida. Seja pela força ou por via contratual, as elites dominam as massas. Exploram o trabalho para extrair da natureza riquezas abstractas com que se extasiam, mesmo à custa das maiores barbaridades. É assim a civilização.
Quando o espírito punitivo das massas alveja as elites, as construções imperiais entram em crise por falta de manutenção. Frequentemente, icónicas obras de arte são destruídas. Desde a Revolução Francesa, quando o povo se levanta, das primeiras coisas que faz é abrir as prisões. Para as manter, as sociedades imperiais desenvolveram mecanismos penais a que são fornecidos bodes expiatórios, grupos sociais culturalmente estigmatizados para o efeito: os filhos-da-mãe.
Legenda: “Filhos da mãe: a negação da fraternidade original pelo sistema de penas (1)_1”: Câmara Municipal de Ouro Preto, Brasil. Foto 1 e foto 2 uma ao lado da outra
Legenda: “Filhos da mãe: a negação da fraternidade original pelo sistema de penas (1)_2”: Câmara Municipa de Gouveia, Portugal.
As casas camponesas reservam o rés-do-chão aos animais, de entre os quais são escolhidos alguns para serem ritualmente sacrificados para diversas finalidades. O que será uma forma de substituir sacrifícios humanos. Os poderes imperiais, como os que construíram os edifícios das fotografias 1 e 2, reservam as caves húmidas construídas entre os alicerces para servirem de presídio, calaboiços, lugares em que os sacrifícios humanos, em nome da necropolítica, são executados civilizadamente, com a cobertura jurídico-política organizada a favor das elites.
A seguir: A civilização ocidental que se globalizou produziu e mantém complexos industriais-militares-penais que produzem síndrome de Estocolmo em massa. Ninguém gosta disso, mas todos estamos presos no labirinto. Muitos estamos com gosto. Uns estamos mais presos do que outros. No fundo da hierarquia estão os filhos-da-mãe. Tal como nós, são diferenciados uns dos outros por políticas que foram bem-sucedidas a contrariar a fraternidade original. Esta, porém, não deixa de se manifestar de muitas formas. É da fraternidade que emerge a esperança em mundos melhores.
Referências:
Amaral, D. F. do. (2003). Do 11 de Setembro à crise do Iraque. Bertrand.
Bentham, J., Miller, J.-A., Perrot, M., & Werrett, S. (2000). O Panóptico (T. Tadeu, Ed.; 2a). Autêntica.
Clark, G. (2007). A Farewell to Alms – a Brief Economic History of the World. Princeton University Press.
Goffman, E. (1999). Manicômios, Prisões e Conventos (1a ed 1961). Perspectiva.
Graeber, D., & Wengrow, D. (2021). The dawn of everything – a new history of humanity. Farrar, Straus and Giroux.
Marcuse, H. (1991). The New Forms of Control. In One-Dimension Man ([1964], pp. 3–20). Routledge & Kegan.
Pasquinelli, M. (2023). The Eye of the Master – A Social History of Artificial Intelligence. Verso.
Reich, R. B. (1991). O Trabalho das Nações. Quetzal.
Silva, J. C. G. da. (2003). O Discurso Contra Si Próprio. Assírio e Alvim.
Zimbardo, P. (2007). The Lucifer Effect: understanding how good people turn evil. Random House.
Legenda “Filhos da mãe: a negação da fraternidade original pelo sistema de penas (1) _3”: fotografia de António Pedro Dores.
António Pedro Dores, sociólogo, professor universitário aposentado, autor dos blogs https://sociologia.hypotheses.org/ e https://libertacao.hypotheses.org/











