
1-Há um tempo que rói mais o corpo do que a alma? E outro em que a alma rói mais os remorsos do que as unhas? E quando a alma sangra, sangra também o corpo de remorsos?
2-Caberá a eternidade num só dia? O amor, a poesia e a beleza poderão, num só dia, preencher a eternidade?
3- Poderá criar-se um poema sem esperança? Mas o poema não será, ele próprio, a esperança?
4- Os alcatruzes subindo com a água não são os mesmos que descem para a água? E a água que está em cima não é a mesma que está em baixo? E todo o mistério das águas não está em fundirem-se nos nossos lábios?
5- Sabes em que lugar do corpo fica a alma? E em que lugar da alma fica a árvore da ciência do bem e do mal? Não ficará antes na mão direita com que escreves a palavra alma?
6- O amor brilha no teu coração lado a lado com as sementes da romã?
7- Um pássaro canta sobre os ramos. A noite leva-o e as estrelas seguem-no com compaixão. Não serão ambos a mesma fatalidade?
8- Seremos mais que sons repercutidos que, depois do relâmpago, se vão perdendo, perdendo, perdendo?
9- Um acampamento de drogados. Ali estão as trevas e o inferno. Mas dentro deles há sucessivos sóis e paraísos. Não é assim porque para lá do sol e das trevas, do paraíso e do inferno, eles sabem que tudo será só esquecimento?
10- A vida é o relâmpago da lembrança e o mundo a eternidade do esquecimento. Qual o maior dos dois mistérios?
11- Há um caminho que percorreste e outro caminho ao lado que poderias ter percorrido. Em qual deles fica o espelho do arrependimento?
12- A tristeza do camponês e do poeta têm as suas raízes na obscuridade da terra. A alegria das raparigas e dos amantes terá as suas raízes na luminosidade do sol?
HENRIQUE DÓRIA
Henrique Dória é advogado e colaborou no Diário de Lisboa Juvenil e nas revista Vértice e Foro das Letras. Tem quatro livros de poesia e três de prosa publicados. É diretor da revista online incomunidade.com, e da Radio Transforma.










