Poesia & Conto

Poemas | Hera de Jesus

Foto de Muki Pan na Unsplash

Pouco a pouco

vou te sepultando,

ó pátria amada.


Como quem se liberta

do peso antigo

do fardo.


Há muito carrego

o dissabor

de ser teu filho,

o desamparado.


Ainda assim,

mesmo que me doa,

não renego

o ventre

que nos gerou.


Vou sepultar-te,

pátria mãe.


Quiçá, um dia,

despertes do torpor

e te ergas,

em rebeldia,

para guardar

os teus filhos.


Adeus, 

pátria…

 

***

A chuva

cai miúda

na noite.


Os passos

apressados

marcam o asfalto.


À porta

da padaria,

uma mãozinha invisível

pede pão,

uma esmola.


Ninguém o vê,

envolto no cobertor,

sobre o duro asfalto,

tenta adormecer.


É duro

não ter um teto.


É triste

não ter afeto.


É cruel

ser desamparado

e procurar abrigo

longe dos perigos da rua.


É amargo

ser menino

de rua.

 

***


Há um punho

que se levanta,

é da mesma cor

que sangra a face.


Há uma navalha

dilacerando o sonho

do fruto

do mesmo ventre.


Na noite,

pretos açoitam

outros pretos

com mãos herdadas

do medo,

com fome

a engolir a terra

sedenta de sangue.



São pretos

que tiram o pão

de outros pretos.



São pretos,

Mãe.

São pretos.

 

Hera de Jesus

 

HERA DE JESUS 

[Maputo, Moçambique,1989]

Começou a escrever desde tenra idade. De 2013 a 2017, participou e foi distinguida em alguns concursos internacionais de poesia. Tem textos publicados nas antologias “Soletras Esse Verso” (2018); “Fique em Casa” (2020); “Linguagens e suas Tecnologias, Manual do professor” (2020); E ” No Cais do Amor” (2022). 

Tem contribuído para as revistas Lidilisha, Soletras, Ómnira, Contioutras, Por Dentro de África, Escamandro, Avenida Sul, Mallamargens , Folhinha Poética, Cultural Traços/ Alta Cultura, Germinaliteratura, e Incomunidade.  É membro da Confraria Brasil/Portugal.

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