
Pouco a pouco
vou te sepultando,
ó pátria amada.
Como quem se liberta
do peso antigo
do fardo.
Há muito carrego
o dissabor
de ser teu filho,
o desamparado.
Ainda assim,
mesmo que me doa,
não renego
o ventre
que nos gerou.
Vou sepultar-te,
pátria mãe.
Quiçá, um dia,
despertes do torpor
e te ergas,
em rebeldia,
para guardar
os teus filhos.
Adeus,
pátria…
***
A chuva
cai miúda
na noite.
Os passos
apressados
marcam o asfalto.
À porta
da padaria,
uma mãozinha invisível
pede pão,
uma esmola.
Ninguém o vê,
envolto no cobertor,
sobre o duro asfalto,
tenta adormecer.
É duro
não ter um teto.
É triste
não ter afeto.
É cruel
ser desamparado
e procurar abrigo
longe dos perigos da rua.
É amargo
ser menino
de rua.
***
Há um punho
que se levanta,
é da mesma cor
que sangra a face.
Há uma navalha
dilacerando o sonho
do fruto
do mesmo ventre.
Na noite,
pretos açoitam
outros pretos
com mãos herdadas
do medo,
com fome
a engolir a terra
sedenta de sangue.
São pretos
que tiram o pão
de outros pretos.
São pretos,
Mãe.
São pretos.
HERA DE JESUS
[Maputo, Moçambique,1989]
Começou a escrever desde tenra idade. De 2013 a 2017, participou e foi distinguida em alguns concursos internacionais de poesia. Tem textos publicados nas antologias “Soletras Esse Verso” (2018); “Fique em Casa” (2020); “Linguagens e suas Tecnologias, Manual do professor” (2020); E ” No Cais do Amor” (2022).
Tem contribuído para as revistas Lidilisha, Soletras, Ómnira, Contioutras, Por Dentro de África, Escamandro, Avenida Sul, Mallamargens , Folhinha Poética, Cultural Traços/ Alta Cultura, Germinaliteratura, e Incomunidade. É membro da Confraria Brasil/Portugal.










