
em 1783 e falecido em Santa Marta, Colômbia, em 1830. Libertador da Venezuela, Colômbia, Equador, Panamá, Peru e Bolívia, ao promover a autonomia frente ao Império Espanhol, Simón Bolívar presidiu ou governou a Venezuela (1813-1814-1819), a Grã-Colômbia: Colômbia, Venezuela, Equador e Panamá: 1819-1930, o Peru: 1824- 1826 e a Bolívia (1825), realizando a frustrada urdidura da unidade latino-americana, sonhada como a Pátria Grande e buscada no Congresso do Panamá, em 1826. Era a resistência civilizatória do projeto de Simón Bolívar, condensado no Congresso do Panamá, perante a barbárie sub-reptícia da Doutrina Monroe, de 1823, propugnada pelo Presidente dos Estados Unidos da América, James Monroe, a qual pretextava defender a América da voracidade das potências da Europa – “a América para os americanos”-, enquanto preparava a supremacia imperial do Uncle Sam, Tio Sam, sobre a América Latina e o Caribe, cujo Big Stick, Grande Porrete, viria a caminho, com canhonaços dominadores sobre Cuba, Nicarágua, Panamá, Haiti e Republica Dominicana.
Doutrina Monroe objeto de recidivas no século XXI, com drones, mísseis, inteligência artificial, ações espetaculares, sequestro de Presidente da República e o recorrente esfarrapar do Direito Internacional Público. Logo é possível a compreensão de que o enganoso conceito de civilização, de natureza relacional, sempre carregou consigo, por contraste, a definição do outro como bárbaro, presente na Grécia, em Roma, enfim, na Europa, pressupondo o suposto ‘direito do civilizado’ e, em auto reivindicação, ‘superior’, de ‘civilizar a barbárie’, retirando-a da incivilidade, da incultura e da violência da selvageria, elevando-a a patamares mais avançados de ciência, técnica, valores, racionalidade e quadros comportamentais. Subjacente a tudo, por evidente, está a postulada autorização, como se fosse um escudo ético de conduta, para ser o guia, o pastor, o condutor, o mandante, afinal, o único que pode, por ser ‘civilizado’, resgatar o outro da atribuída noite caliginosa do nada, para o tudo solar de sua transfiguração – imagina-se!- , em humano, razoável e democrático, como prêmio à submissão, à obediência, enfim, à servidão vendida como voluntária. Ora, a barbárie não é um tempo passado do elo perdido, posto que a humanidade testemunha, a quente, que está a ser reinventada nos correntes genocídios de Gaza, nos bombardeios de Beirute e nos regicídios de Teerã, por aqueles que desacreditam o discurso civilizatório, anunciando as futuras tomadas de Cuba e da Groelândia e a incorporação da Venezuela como 51º Estado-membro da América, que já ofereceu ao mundo titãs emancipatórios como Abraham Lincoln e Martin Luther King Júnior, sem o impossível olvido do poeta Walt Whitman.
Eis a profunda relevância do trabalho de tradução de Vargas Vila, exatamente no livro Ante os Bárbaros, desenvolvido pela cooperativa intelectual dos ilustres professores Lucas Mateo, Vargas e Thiago Santos Aguiar de Pádua, os quais colocam à disposição do leitor brasileiro um texto consular, avô, por todos os títulos, de As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano. Obra de consciência e de combate, esta de Vargas Vila, que bem revela a sua condição de liberal e de libertário – advindo do Partido Liberal Colombiano, fundado em 1848, o mais antigo da Colômbia e talvez, das Américas, na vertente liberalista, em funcionamento contínuo -, a realizar a leitura interpretativa das conjunturas e das estruturas imperiais recorrentes, entrelaçando as assimetrias conectadas do Norte e do Sul do continente americano. De extrema oportunidade a publicação, no Brasil, de Ante os Barbáros , país que experimentou a beira do abismo e tudo tem a aprender com a sábia reflexão de Vargas Vila, pulsante e rediviva, ora homenageada, posto que a serviço do ato de “romper o cerco das feras”, como no poema “ Em Torno à Escritura”, de Fernando Rendón, vertido para o português pelo saudoso poeta estelar Thiago de Mello:
“O raio escreve com rigor iluminado e cortante.
O relâmpago é um morse.
A chuva escreve na superfície dos muros.
O vento sobre as dunas do deserto.
O sol escreve nos semblantes.
O rio, sobre os penhascos.
Os fósseis estão gravados na face da pedra antiga.
O caracol imprime um fio de luz sobre
a areia.
O pássaro carpinteiro bica um idioma cuneiforme.
Ainda que lento, o povo escreve a história.
A vaidade escreve com fumo e cinzas.
Os poetas são os leitores do universo.
Nem tampouco o fogo dos carnavais
é o da metralha.
O poder do fogo da poesia, o fogo
para romper o cerco das feras. “
Assim seja o ato de ler, descobrir, ressignificar e redimensionar Vargas Vila, latino-americano como Juan Rulfo e Gabriel Garcia Márquez, para “romper o cerco das feras” e aspirar, na luta, pois é na luta, segundo Paulo Freire, que se espera a esperança, à construção processual de um mundo mais humano, porque mais justo e mais fraterno.
Rossini Corrêa: Escritor, Advogado e Professor, membro da Academia Brasiliense de Letras, da Academia Maranhense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, da Academia Maranhense de Cultura Jurídica, Social e Política e da Sereníssima Academia Agostiniana.










