Cultura

Uma (a)típica vida ou a (des)aprendizagem de si | Letícia Ferro

Foto de Aleksandr Eremin na Unsplash

Em fins do verão, foi quando pôde andar ao léu: o risco de exercer a novidade sem peias a preencheu enormemente, mas a voz gutural do medo fez-se ouvir mais forte, impedindo-a de seguir adiante. A imprudência de levar, na face, o colorido quente foi responsável por carrear sanções de toda espécie, despontuando a ordem interna, como se de dentro de uma cave tivesse saído. Aturdida, só parecia querer distar de si, de tanto que ouvia dos seus que a sua interpretação sobre o mundo era atípica. Não era, afinal, leitora do seu tempo – os conteúdos que (re)produzia não se cerziam sob o custeio demandado. Além disso, as próprias vontades nunca cabiam à justa medida do outro. Uma criança flâneuse. Uma menina flâneuse. Uma mulher flâneuse – en retard.

 

(Escrevia cartas ao vento, porém, em segredo, jamais as desertaria.)

 

Depois de assentir na escuta à sua volta, sentia-se massinha de modelar, à mão de todos. Corpo sólido, porém, natimorto, sob o vaticínio da aprovação do sistema – autorização da bitola para poder existir. Sim. Para poder existir. Ponto. Até isso usurpariam dela. Em meio à dependência de terceiros, retração de ser o que se é, manifestava-se o estado de maior alheamento em relação àquilo que ela mesma desconhecia saber, apesar de sua condição: o exercício autocentrado de suas competências. E, principalmente, de seus devaneios. Em sendo ela: vários a circunscreveriam de modo simultâneo e com passos lentos. Depois, seriam, quando não afugentados, suspensos – em definitivo.

 

(Desesperação, pensando em solitude.)

 

Um devaneio em especial – quiçá, o mais tenro – remonta à fala de quem a viu crescer, na medida em que a cobria emular o lifestyle de sua prima – com mais idade, e escorpiana. Tratava-se da prima que ia a festas e gostava de dançar, de usar minissaia e baby look, de jogar vôlei, frequentar o grupo de jovens da igreja aos domingos, de trocar beijos e abraços aleatórios, de beber socialmente, como de prender ou cortar curtíssimo os cabelos. Foi a que pediu de aniversário a Barbie-Noiva. A que, também, gostava de se pintar. Já a prima mais nova, o oposto. E quando tentava reproduzir o que não lhe pertencia, malograva. Certa vez, decidira se maquiar. Era sua primeira vez com aquele corretivo, mas a mãe, tão logo a viu, chegou a disparar que aquilo “só serviria mesmo para reforçar ainda mais sua falta de cor, beleza e vocação para ser mulher”. Só o que (se) sabia era que destoava de todas as meninas, com idade regulada à sua, em especial, com quem crescera, a família – nada familiar, na realidade. Impossível não trazer à baila, aqui, seu convívio, na idade primária, com Adriana, uma menina que, do alto dos seus nove anos, a escrutinaria “por que não colocar os cabelos de lado e colorir de vermelho os lábios tão finos”.


Em vão. O máximo que ouvia de volta era um quem-sabe, blasé, dado de ombros. (A face observada era melancólica, e a vendeta por outra, que não a sua, tardaria chegar. Ou nem chegaria. A depender do árbitro.)

 

(Entre o sombreado repetido, enveredava-se – ela havia, por repetição, tentado comprar os ditames.)

 

Em adição ao peso da carga alheia, sucediam, ainda, o seu pouco traquejo escolar: fosse com a invenção deliberada, e ao acaso, dos números na “resolução” dos exercícios de matemática, sobre os quais os olhos do professor apenas corriam, não percebendo, pois, seu faz-de-conta; fosse com a geografia, na sua desorientação, e à espreita do espaço parental que ela sempre o recebia como desconhecido.

 

(Não existiria resposta certa para pessoinha excetuada de contexto.)

 

A menina, entocada na sua (a)típica condição, só seria lida a contento quando adulta, por meio da inserção da ciência – o anteparo que a salvaguardaria entre um bullying e outro, devolveria-lhe o ar. Poderia ter sido antes? Adoraria. O que a faria, inclusive, evitar esticar tanto a corda da pungência como a esticou. Mas não houve como. Nascida numa época em que nada, nesses termos, era sabido ou trazido para diálogo, ela vivia de um estreitamento no mundo: a diferença. Por essa razão, se ressentia intocada para dar à frente alguns dias ao amor próprio, que ela só obteria (?) por ela mesma, já que o irmão, a prima, e, quem mais (não) a despertasse interesse, ficariam para trás. Queria ela ser enQUADRADA? A comparação se dissiparia e irromperiam, dentro do seu coração, as batidas da (in)diferença. Não porque o quisesse assim, e sim porque o sentisse como sua única forma de (sobre)viver.

 

Do corpo, já calejado, raiz com flores abertas, com galhos estendidos entre o desdém e as falas que lutam pela escuta do despeito, adviria o retrato da (r)esistência, sua (a)versão, quase crepuscular, de agora. Sim – crepuscular, porque só a partir daí passou a prestar atenção, a ouvir a desimportância dos comentários formatados, das caminhadas embaixo de chuva ou sol, sem a menor necessidade. Ser o (des)limite entre o que dela exigiam e o que ela era – o que resultaria? Um dos diários chegou a encontrar com algumas das respostas. Anotações à margem, rasuras nos roda-pés, letras incrustadas na nervura amainada do manuscrito que, apesar da diferença, era também ela, a diferença, o que a devolveria para si. E a sua forma eclipsada de ser no mundo, a doçura guardada, o nome – o gentílico da alegria em latim. No entanto, não abandonaria de vez o hábito de debruçar o rosto entre os dedos lacunares pelos vãos, chorando copiosamente a (d)esistência da vida; só que as convicções de foro íntimo apoiariam sua intuição, entregando-na o assombro da coragem, que nem de longe é o antônimo do medo. Sua voz trêmula e de alcance restrito viriam apurar a hesitação dos seus pensamentos, as vozes altas, os gritos mudos, malgrado, na maioria dos casos, em espectro, a fariam, vez ou outra, (des)entender-se, como se hoje fosse ontem e o amanhã não passasse de hoje.

 

Fotografia de Letícia Ferro

 

Letícia Ferro é doutora em Letras e Linguística – Estudos Literários, pela UFG.

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