Cultura

Três sonetos de Porcelana branca | Joel Henriques

Foto de Danielle-Claude Bélanger na Unsplash

TRÊS SONETOS DE PORCELANA BRANCA

 

SOU DOS QUE AMAM corajosamente

E vivem no candor de desejar,

Dos que do largo rio vão ao mar

Pelo estuário, soçobro quente.

 

Quem ama como amo nunca mente

Seja qual for o seu maduro par

No mundo ele irá desaguar

Desfeito entre vidros mas ingente.

 

Sou quem arder, não o que há de ser

Embora recupere o semblante

Na fome se acaso a mereço.

 

Amada, o teu olhar o chão requer.

Faz-me ver a verdade marulhante

«De longe ou de perto te estremeço».

 

QUIETAÇÃO

Ninguém pode tirar o que pertence

Ao ser que noite dentro flébil dança

Mas é tamanha esta segurança

Que só o fim como a todos vence.

 

E pode acontecer ele ter alma

E embora aí seja eterno,

Venha por sobre ela o inverno

Alimenta a lareira, a vivalma.

 

Não como essa mão enregelada

Mas como a própria lenha para o fogo

Que acende o coração com o desejo.

 

Não se reduz a cinza ou ao nada

E logo que extingue o ardil, o jogo

A dois amantes e a longo beijo.

 

VEM, Senhora da noite, com bom sono,

Estrela que me guarda e não vigia

Senão por entregar-me na invernia,

Pela própria noção de abandono.

 

Vem porque és jovem e de tez morena

E basta lucilares pelo céu

Para inconsciente eu ser eu;

Alheia a qualquer sombra ou pena.

 

Vem como a palavra contundente

Que me deixa feliz inanimado

Todavia com alma abissal.

 

Vem para generosa confidente

Não de qualquer palavra mas do lado

Que habita o rés-do-chão de vale em vale.

 

 

fotografia de Joel Henriques

Joel Henriques nasceu em 1979, nas Caldas da Rainha. É licenciado em Estudos Portugueses e pós-graduado em Ciências Documentais. Trabalhou em bibliotecas, como assistente técnico, e em tipografia como operador de corte e acabamento e revisor literário. Sonha, deseja, ama e pretende ser útil.

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