
TRÊS SONETOS DE PORCELANA BRANCA
SOU DOS QUE AMAM corajosamente
E vivem no candor de desejar,
Dos que do largo rio vão ao mar
Pelo estuário, soçobro quente.
Quem ama como amo nunca mente
Seja qual for o seu maduro par
No mundo ele irá desaguar
Desfeito entre vidros mas ingente.
Sou quem arder, não o que há de ser
Embora recupere o semblante
Na fome se acaso a mereço.
Amada, o teu olhar o chão requer.
Faz-me ver a verdade marulhante
«De longe ou de perto te estremeço».
QUIETAÇÃO
Ninguém pode tirar o que pertence
Ao ser que noite dentro flébil dança
Mas é tamanha esta segurança
Que só o fim como a todos vence.
E pode acontecer ele ter alma
E embora aí seja eterno,
Venha por sobre ela o inverno
Alimenta a lareira, a vivalma.
Não como essa mão enregelada
Mas como a própria lenha para o fogo
Que acende o coração com o desejo.
Não se reduz a cinza ou ao nada
E logo que extingue o ardil, o jogo
A dois amantes e a longo beijo.
VEM, Senhora da noite, com bom sono,
Estrela que me guarda e não vigia
Senão por entregar-me na invernia,
Pela própria noção de abandono.
Vem porque és jovem e de tez morena
E basta lucilares pelo céu
Para inconsciente eu ser eu;
Alheia a qualquer sombra ou pena.
Vem como a palavra contundente
Que me deixa feliz inanimado
Todavia com alma abissal.
Vem para generosa confidente
Não de qualquer palavra mas do lado
Que habita o rés-do-chão de vale em vale.
Joel Henriques nasceu em 1979, nas Caldas da Rainha. É licenciado em Estudos Portugueses e pós-graduado em Ciências Documentais. Trabalhou em bibliotecas, como assistente técnico, e em tipografia como operador de corte e acabamento e revisor literário. Sonha, deseja, ama e pretende ser útil.










