CulturaPoesia & Conto

Três pequenos contos | Rafael Sousa Santos

a ofensa

 

O terrível açougueiro Bruckner entrou na pastelaria vermelho de raiva. Quem foi?, quem foi o desgraçado?, cuspia Bruckner, brandindo no ar o enorme cutelo. Vários olhares se cruzaram, mas ninguém se atreveu a abrir a boca. Quem foi?, quem foi?, repetia Bruckner furioso, exijo saber quem foi o responsável. Na mesa do canto, onde todos os dias lia o jornal, o jovem escriturário Weber encolhia-se dentro do casaco. Quem foi?, quem foi? O açougueiro avançava ameaçadoramente por entre as mesas, inspecionando cada rosto, enquanto berrava: não sabem do que sou capaz. Mas todos sabiam. Sobre Bruckner contavam-se as mais terríveis histórias. Weber não mais se esqueceu quando o seu pai, já bastante embriagado, contou à mesa como um certo ervanário acabou sem as duas pernas após uma discussão acalorada com o açougueiro. Pai, por favor. Escuta, dizia o pai, o ervanário não parava de reclamar sobre o preço do fígado. O velho Bruckner apontou-lhe o dedo sujo de sangue. Chega de conversa. O preço é este, paga e desaparece. Mas o preço é absurdo, disse o ervanário, ainda para mais um fígado de segunda categoria. Bruckner tremia de fúria. Vou perguntar uma última vez e é melhor que alguém se acuse. Um cliente cauteloso esperava à porta a resolução do drama. Depois, o velho Bruckner chamou-lhe… canalha? Não, não. Era o quê? Quem foi? Quem foi o responsável? Pai, já chega. Ah, droguista miserável, foi isso, droguista miserável. O açougueiro ergueu então o enorme cutelo. Na pastelaria todos suspenderam a respiração em uníssono, esperando o pior. Droguista miserável, dizia o pai, foi isso. Foi isso que ele disse. Fui eu. Weber estava de pé, com ambas as mãos sobre a mesa. Tremiam-lhe as pernas. Fui eu, repetiu Weber. Todos se voltaram para o jovem escriturário, incrédulos. Bruckner, o terrível açougueiro, lançou um olhar fulminante a Weber. Tu?, disse entre dentes. Sabes o que aconteceu depois? Pai, porque não te vais deitar? 

 

o duelo

 

Deve apresentar-se amanhã, no parque ocidental, antes do nascer do dia. É imprescindível que se faça acompanhar por duas testemunhas. Dito isto guardou a missiva no bolso do casaco. Tenha uma boa tarde senhor Professor. Os dois oficiais bateram com as botas e desapareceram. Mantive-me imóvel em frente à porta, segurando o embrulho que me fora entregue.  Dentro, dois revólveres. Fora convocado para um duelo no dia seguinte.  Nunca havia participado num duelo, e seguramente nunca havia pegado numa arma. Nem sei se isto está carregado. Fechei a porta e deixei-me cair no sofá. Pousei os revólveres sobre as pernas e levei ambas as mãos ao queixo. Um duelo. Não poderei recusar? Alegar indisponibilidade? Doença?  Mas se nem conheço o nome do ofendido. Levantei-me num salto, lançando pela sala os revólveres. É muito estranho que a missiva não tenha sido assinada. É muito estranho de facto. Mais do que estranho, é deselegante. Caminhava agora ao acaso. A verdade é que há quem se ressinta com a coisa mais insignificante. Recordei então o caso do meu antigo barbeiro. Frequentei o seu estabelecimento toda a vida e certo dia, após o ter interrompido num apaixonado sermão, recusou voltar a atender-me. Desde então não voltei a usar patilhas. Tenho saudades do senhor Holst. É certo que me atormentava com longuíssimos discursos morais, mas que diabo, sabia o que fazia. O jovem senhor Delius pode ser muito hábil a trabalhar o cabelo, mas com a barba é um autêntico desastre. Entretanto havia entrado na cozinha e preparava o café. Talvez com um pedido formal de desculpas. O saco de café estava praticamente vazio. Devo lembrar-me de comprar mais. Sim, com um pedido formal de desculpas certamente tudo se resolverá. Subitamente senti uma grande leveza, própria dos momentos de resolução. Um pedido formal de desculpas. Deixei o café a fazer e sentei-me à secretária. Escrevo agora a carta e quando sair para comprar café deixo-a no correio. Tinha a certeza de que o senhor Holst seria sensível ao meu pedido de desculpas. Tantas vezes deixei que situações como esta se prolongassem. Quase sempre por preguiça. Escrever uma carta exige, ainda assim, algum tempo e vontade. Tempo e vontade. Sei que tenho algures um livrinho muito bom sobre a vontade. Ouvi o sinal da cafeteira. Levantei-me e voltei à cozinha. Enchi uma chávena e sentei-me à mesa na sala. Sobre a vontade. Esse livrinho era bem interessante. Podia usá-lo na minha aula de amanhã. Olhei para a estante desorganizada. Em baixo, um dos revólveres cintilava. E ainda tenho de participar nesse maldito duelo. Mexi o café sem necessidade. Que eu perderei o duelo é quase certo. Nunca disparei uma arma na vida. E porque o faria? Ainda assim posso não ser ferido. Já ouvi falar de duelos em que o ofendido se deu por satisfeito logo após o primeiro disparo, mesmo sem ter havido derramamento de sangue. Em muitos casos trata-se somente de uma questão de princípio. Um desagravo à honra, como se diz. Creio ter ouvido isto na barbearia do senhor Holst. Ah, o senhor Holst. Subitamente lembrei-me das palavras do oficial. Preciso de duas testemunhas. Senti um ligeiro aperto no peito. Uma das testemunhas seria por certo Johannes, mas e a segunda? Meditei por instantes e dei um golo no café. Já não estava quente.  Não posso pedir um tal favor ao doutor Bridge. Além do mais ele está fora da cidade. Terminei o café. Com esta nova cafeteira ficam sempre borras no fim. Poderia pedir ao doutor Harrison, o meu antigo pediatra. Sim, definitivamente poderia pedir-lhe. Levei a chávena para a cozinha e preparei-me para sair. Preciso chegar a casa do doutor Harrison antes da hora do jantar. Sabia como o jantar era para ele um momento precioso.  Interrompê-lo seria de uma indelicadeza inaceitável. Vesti o sobretudo e peguei no chapéu. Que idade terá agora o doutor Harrison?, sessenta? Abri a porta. Aproveito para comprar café pelo caminho. Saí para o jardim da frente. Depois passo na alameda, a esta hora encontrarei Johannes na pastelaria. Atravessei a rua em passos largos. Segundo creio o doutor Harrison é mais velho do que o meu pai. Isso quer dizer que terá pelo menos setenta anos. A rua estava deserta. Um cão mordiscava um saco com lixo. Quais setenta, é bem possível que tenha mais de oitenta. Dei um pontapé numa pedra solta. Oitenta anos. Será correto arrastar um homem de oitenta anos para uma tal empresa? De repente parei. Macacos me mordam, esqueci-me da carta para o senhor Holst.

 

a desconfiança

 

Está tudo bem menina? Não, não está tudo bem. Como odeio esta mulher. O seu nome é Desanka Jovanovic, e há dois anos que faz as limpezas em minha casa. Faz as limpezas é como quem diz, visto que ela é estruturalmente inútil. Onde está o meu caderno?, voltou a mexer nas minhas coisas? Que ideia menina, a única coisa que faço é arrumar. Ah! Arrumar é coisa que certamente não faz. Gasto metade do meu tempo à procura das coisas que a velha Desanka esconde pela casa. Que ela esconde? Sim, é a palavra certa. Estou convencida de que ela o faz de propósito. Há tempos tinha um livro aberto na minha secretária, e de um dia para o outro desapareceu. Desapareceu, simplesmente. Passei uma semana a revirar a casa que nem louca. Fui encontrá-lo debaixo da cama, por mero acaso. Foi ela, tenho a certeza que foi ela que o escondeu. Admita, vá admita! O que diz menina?, mas porque faria eu tal coisa? Por maldade, velha desgraçada, apenas por maldade. Eu bem vejo a satisfação que lhe dá quando perco a cabeça. Fica a um canto, com aquele sorriso perverso, à espera que eu desça mais e mais baixo. Está tudo bem menina? E sempre esta maldita pergunta que me enlouquece. Não, não está tudo bem, está tudo mal. E este cheiro a gás?, como posso eu trabalhar com este cheiro horrível? A gás? Não me cheira a nada menina. Claro que não lhe cheira a nada, passa a vida a esgravatar nos lugares mais imundos. Agora habituou-se a entrar na minha casa quando bem lhe apetece. Seja em que dia for, à hora que for. Mas sobretudo quando eu não estou. Para quê? Para remexer nas minhas coisas, claro está. Já lhe disse, mantenha-se longe da minha secretária. Ontem fez-me perder horas a reorganizar tudo. Como diz menina? Eu ontem não estive cá. Não se lembra de lhe ter dito que esta semana ia para fora? Fui ver o mar, veja como tenho os braços bronzeados. É mentira!, sei muito bem que esteve cá ontem! Ficou à espera de que eu saísse de casa para se esgueirar cá para dentro e bisbilhotar o meu trabalho. É o seu maior prazer, bisbilhotar. É o que dá razão à sua vida. Enfiar o nariz nas minhas coisas, para depois fazer a cabeça da senhora Lončar contra mim. Sim, sei muito bem o que estou a dizer. Estou certa de que a velha Desanka lhe anda a encher a cabeça com mentiras infames. Que trago homens cá para casa, que passo os dias a beber, que leio coisas indecentes. Um dia cruzei-me com a senhora Lončar na pastelaria, que me disse: menina, precisamos de falar. Disse-me apenas isto: precisamos de falar. O que será que aquela velha bruxa lhe terá contado? Passei dias com isto na cabeça. Pensei em tudo. Será que a velha descobriu o que se passou com o meu irmão? Não é impossível, bastava ter lido aquela carta. Na verdade, aquela ou qualquer outra. Sou tão estúpida, porque não me desfiz da minha correspondência? Agora é demasiado tarde. Senhora Lončar, sobre o que queria falar comigo?, perguntei-lhe com as pernas a tremer. Desculpe menina? Disse-me há dias que precisávamos falar, disse-me nestes mesmos termos. Tem a certeza?, não me lembro nada disso. Está a mentir, é claro. Como pode não se lembrar? Não bastava a velha Desanka para me importunar a cabeça, agora também a senhora Lončar. Vá para o diabo. Aliás, vão as duas. Tenho mais com que me preocupar. Acabo de me aperceber de algo verdadeiramente grave: existem coisas nos meus apontamentos que não foram escritas por mim. Mas a letra foi replicada na perfeição, é tal e qual a minha. Quem terá feito tal coisa? Não acredito que tenha sido a velha Desanka, ela é uma ignorante. Não seria capaz de o fazer, não seria, mesmo que quisesse. Terá sido a senhora Lončar? É a última vez que lhe pergunto, onde meteu o meu caderno? Como haveria eu de saber menina?, já procurou debaixo da cama? Ah!, debaixo da cama! Eu sabia que tinha sido ela, eu sabia! Meu deus, e este cheiro a gás. Penso agora se a velha Desanka não será apenas um fantoche nas mãos da senhora Lončar. A verdade é que a velha criada me foi imposta quando cheguei a esta casa. É melhor assim menina, pelo menos não tem de se preocupar com a limpeza. Mas é apenas um pretexto para entrar na minha casa. Nunca a vi com uma vassoura na mão, nunca. Tenho de encontrar uma forma de proteger o meu trabalho, caso contrário todos estes anos terão sido uma perda de tempo. E eu sei que o meu tempo está a chegar ao fim.

 

Fotografia de Rafael Sousa Santos

Rafael Sousa Santos (Portugal, 1991) é arquiteto, investigador e doutorando em arquitetura na Universidade do Porto. Em 2021 foi investigador visitante no Politecnico di Milano, onde colaborou na didática de dois cursos de projeto de arquitetura. Neste momento é investigador visitante e bolseiro da Fulbright no Massachusetts Institute of Technology. Tem publicado sobre tópicos como o ensino do projeto, o papel do desenho, métodos de pesquisa qualitativos, ou planeamento urbano. Em ficção, publicou o conto “Nada a fazer” na revista Arcádia, e o conto “A regra” na revista Desassossego.

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