Poesia & Conto

Três pequenos contos | Rafael Sousa Santos

TRÊS PEQUENOS CONTOS

 

a confissão

 

Mattia coloca meio pacote de açúcar no café, dá duas mexidelas e bebe-o num trago, como sempre faz. Conheces a Elena?, perguntou-me. Quem? A Elena, a que trabalha na pastelaria da esquina. Não, respondi, mas era mentira. Conheço-a muito bem. A Elena, a que Mattia se refere, é minha vizinha, e ocupa os meus pensamentos desde que se mudou para aquela casa. Não faz minimamente o meu tipo, mas lá que tem qualquer coisa… Que expressão idiota, “o meu tipo”. Mas estás a ver quem é, certo? Sim, tenho uma ideia. Estou apaixonado por ela, disse Mattia. Também eu, pensei para mim, e de que maneira. Estás?, olha parabéns. Parabéns?, retorquiu Mattia. Sim, estar apaixonado é uma coisa boa. Foi a primeira coisa que me ocorreu dizer-lhe. Bem, mas há um problema. Não lhe perguntei qual era, ele dir-me-ia de qualquer forma. Entretanto dei um golo no café. Ela tem namorado. É sempre assim, respondi. Sabes quem é? Não faço ideia, mas era novamente mentira. É um sujeito enorme, com umas sobrancelhas muito negras e farfalhudas. Julgo que se chama Tommaso. Trabalha na frutaria, mas imagino-o sempre como um marinheiro. É grosseiro de corpo e de espírito, mas tem um hálito incrivelmente fresco. Eu também teria, se não fumasse tanto. E se não bebesse tanto café. Acho que eles namoram há pouco tempo, disse Mattia. Estás enganado, pensei para mim. Desde que está naquela casa, Elena recebe todas as quintas-feiras uma visita do seu marinheiro. Aquele desgraçado. A semana passada bem a ouvi gritar «bate-me porco, bate-me». O que achas que devo fazer?, perguntou-me. Sei lá, respondi secamente. Achas que devia contar-lhe? Contar-lhe o quê? O que havia de ser?, que gosto dela. A minha paciência estava no limite. Estás à espera que ela deixe o tipo por tua causa?, é isso? Não sei, disse Mattia baixinho. Olha bem para ti. Se estás com vontade de ser humilhado, porque não vais choramingar ao teu senhorio?, pode ser que ele te deixe lá ficar mais um mês e assim não tens de voltar para casa da tua mãe. Mattia olhou-me furioso. Depois suspirou e olhou tristemente pela janela. Não dá, aquele tipo é um pirata.

a compra

 

Afasto discretamente a cortina. Continua ali, o desgraçado do Valberg. Há dias apareceu-me em casa para me vender um chapéu. Preciso de dinheiro, foi o que me disse, dívidas de jogo. Era um chapéu muito antigo, fora de moda, mas de ótima qualidade. O certo é que o comprei, por impulso, e custou-me uma pipa de massa. No dia seguinte abro a porta e dou de caras com o tal Valberg. Desculpe, mas preciso reaver o meu chapéu. Como assim reaver?, você vendeu-mo. Eu sei, mas foi um erro terrível; precisava de dinheiro e já não sabia o que fazer. Então e o que propõe?, vai reembolsar-me? Pois, isso é impossível, já não tenho o dinheiro. Já imaginava. Logo que possa voltarei para lhe pagar, mas preciso que me devolva o chapéu agora. Eu nem o conheço, que garantias me dá? A minha palavra. Meu caro amigo, por muita boa vontade que eu possa ter, o que me pede é inconcebível; que tipo de negócio é este? Tem razão, tem toda razão, mas ainda assim insisto: devolva-me o chapéu. Porque não volta quando tiver o dinheiro? Preciso do chapéu agora, imediatamente. Desculpe mas a sua atitude é totalmente desadequada, vou ter de lhe pedir que saia. E o meu chapéu? Esqueça o maldito chapéu, você vendeu-mo. Mas foi um erro, já lhe expliquei, preciso reavê-lo. Devia ter pensado nisso antes, boa tarde. E fechei-lhe a porta no nariz. A insistência absurda do tal Valberg irritara-me. Irritara-me ao ponto de não querer ser compreensivo. Porque na verdade nem gosto muito daquele chapéu. Não sei se é da aba, que é um pouco curta, mas fica-me ridículo. Percebi isso instantes depois de o comprar. No dia seguinte lá estava ele novamente à minha porta. Você outra vez? Preciso que me devolva o chapéu. Continua com essa conversa?, pensei que tivesse ficado claro. Você não está a perceber: eu preciso mesmo do meu chapéu. Disse isto olhando-me nos olhos, com uma certa gravidade. Senti um arrepio. Está a ameaçar-me? Entenda como quiser, preciso é que mo devolva. Basta, desapareça da minha casa. Tentei fechar a porta, mas ele antecipou-se. O que pensa que está a fazer? Veja se entende, preciso de reaver o meu chapéu. Isto é demais, você é um tarado. Reabri a porta para depois a fechar com toda a força, entalando-lhe os dedos. Ele deixou escapar um guincho e recuou. Consegui então fechar a porta. Desde essa noite que o tal Valberg não saiu da frente da minha casa. Passa os dias a caminhar de um lado para o outro, lançando olhares para o interior. Mesmo durante a noite o vejo, a fumar debaixo do candeeiro público. Está a tentar intimidar-me. Eu podia devolver-lhe o maldito chapéu e acabar com isto, mas é uma questão de princípio. Quem é que ele pensa que é afinal? O certo é que o chapéu repousa no cimo do guarda-fatos desde o dia em que o comprei, e é provável que não volte a sair de lá. Mas é meu, que diabo. Afasto novamente a cortina. Continua ali, o desgraçado do Valberg.

o plano

 

Não podemos fazer isto. Não podemos?, mas foste tu que planeaste tudo. Eu sei, mas mudei de ideias. Como assim mudaste de ideias?, só podes estar a brincar. Não estou. Tens noção do que nos vai acontecer? Ele não respondeu. Juro que não te percebo. Ela puxou um cigarro e olhou pela janela. Estavam os dois dentro do pequeno carro vermelho, parados no caminho com muros altos que conduz à casa do marechal. Juro que não te percebo, repetiu ela, enquanto libertava o fumo pelo nariz. Não faças isso, é repugnante. Quero lá saber. E fez exatamente a mesma coisa, para que ficasse claro. Pelo menos és capaz de me explicar o que te fez mudar de ideias? Isso não é importante. Não é importante?, sabes que “isso” nos pode custar a cabeça? Estás a exagerar. Não estou não, tu não os conheces, e deu mais uma passa no cigarro. Olhou então para ele. É por causa da mulher do marechal, não é? Deu mais uma passa, sem tirar os olhos dele. Responde-me, disse ela, e cuspiu-lhe o fumo para a cara. O que estás a fazer?! Responde-me, é por causa da mulher do marechal? Ele não respondeu, nem era preciso. Meu querido Poul, estás apaixonado por ela? Poul voltou-se para a janela. Viam-se ao longe as grandes palmeiras da casa do marechal. Foi lá que viu Maria pela primeira vez, duas semanas atrás. Usava um grande chapéu e um vestido longo, toda de branco, magnífica. Estava sentada a ler em frente ao lago. Algum poeta francês decerto, pensou Poul. Junto de si duas crianças brincavam. Lamento mas o senhor Marechal não o pode receber. Poul que flutuava com a visão de Maria sentiu-se subitamente cair no mundo. Estremeceu. À sua frente tinha um velho criado, vestido com exagerada elegância e com cara de poucos amigos. Como disse?, perguntou Poul. O senhor Marechal não o pode receber. Já me anunciou? Não, nem tenciono fazê-lo. Não tenciona fazê-lo? Não. Poul olhou o velho criado nos olhos. Tinha um olhar duro, indecifrável. Será que ele me conhece?, pensou Poul. Posso saber porquê? Porque o senhor Marechal não recebe pessoas da sua laia. Percebe-se de longe que tem o espírito tão sujo como as suas botas, que aliás são ridículas. Agora ponha-se a andar. Sem que Poul se apercebesse, Maria estava já ao lado dos dois. O que se passa? Minha senhora, este cavalheiro… Poul fez uma vénia longuíssima, quase tocando com a ponta do nariz no chão. Minha senhora, o meu nome é Poul Jacobsen. Maria deixou escapar um sorriso. Muito prazer senhor Jacobsen, e estendeu-lhe a mão. Chamo-me Maria Roos, sou a esposa do senhor marechal. Poul achava Maria deslumbrante, a um ponto quase insuportável. Deixou-se ficar a segurar a sua mão uns segundos a mais do que o convencionado, mas não tanto que se tornasse impróprio. Tinha uma mão pequena e delicada, com dedos finos. Poul percebeu que ela teria mais dez ou quinze anos do que ele. O que o traz aqui senhor Jacobsen? Poul endireitou-se. Consta na vila que o senhor marechal procura um professor de pintura. Vim para oferecer os meus serviços. Ah, que bela notícia. Andámos há meses à procura de alguém. A pequena Anna ficará muito feliz. Dirigiu-se ao criado. Senhor Panton, teria a amabilidade de a chamar? A esta hora deverá encontrá-la na biblioteca. Mas minha senhora… Por favor senhor Panton, vá chamar a pequena Anna. Não façamos mais esperar o senhor Jacobsen. O criado torceu o nariz, fez uma vénia rápida e desapareceu. Maria e Poul sorriram. Havia entre os dois uma cumplicidade silenciosa e quase natural, própria das crianças. Já te aconteceu? O teu problema é que te apaixonas com muita facilidade. Onde foste buscar isso? Meu querido Poul, dizia ela enquanto acendia outro cigarro, até tu és capaz de reconhecer a total inviabilidade deste teu amor.

 

Fotografia de Rafael Sousa Santos

 

Rafael Sousa Santos (Portugal, 1991) é arquiteto, investigador e doutorando em arquitetura na Universidade do Porto. Em 2021 foi investigador visitante no Politecnico di Milano, onde colaborou na didática de dois cursos de projeto de arquitetura. Neste momento é investigador visitante e bolseiro da Fulbright no Massachusetts Institute of Technology. Tem publicado sobre tópicos como o ensino do projeto, o papel do desenho, métodos de pesquisa qualitativos, ou planeamento urbano. Em ficção, publicou o conto “Nada a fazer” na revista Arcádia, e o conto “A regra” na revista Desassossego.





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