Cultura

Textos | Tere Tavares

 

Ser? 

 

Essa esfinge corre em direção ao nada

A flecha voa dos braços desérticos

A vestimenta arredonda-se no sem fim

No quase rosto difuso e ardente

 

Cobrem-se de tons solares o mistério

O dilema entre ir e vir

A equação da vida

A volubilidade do que resiste

E nunca definha


Arte de Tere Tavares

 

A não resignação diante do infinito

Reflete-se ao fundo, ao que chamo de arte
Pelo desejo de observá-la eternamente


Como não adorá-la?

 

Arte de Tere Tavares

 

Textura

 

Sou esta nuance que nada deseja além de seguir ao longo do sulco da tua face e, talvez, esperar com alegria, ter esperança, ouvir uma canção – que resista a toda a espécie de balbúrdia e ao silêncio que a sucede ou caminha ao seu lado – como só um outro que me escuta, um poço de olhos fundos e insaciáveis, o alívio de todo peso de um nome. Nunca sou só o que sou. 

 

O que dizer de quem se diz? Até onde contar o que nos conta? 

 

E quando anoitecer que eu possa ser um pouco da noite, tecer a noite com a paciência do pescador.

 

E ao amanhecer que eu me perceba ao menos o mínimo da manhã a desfiar a luz do dia a fragrância dos matizes inolvidáveis do entardecer, como quem se entretém numa homenagem à Penélope e ao amor, como os ocasos em que sempre desce o indefinível e prodigioso ouro da claridade.

 

Arte de Tere Tavares

 

Era uma flor de manacá
Recolhida dos orvalhos e das dúvidas do dia anterior


A Natureza que nos quer cúmplices 

Com seus lápis antigos de um agora indefinido
A mostra que se faz a cada amanhecer
Ortografando-se incessantemente

 

E a humanidade nem percebe.

 

Arte de Tere Tavares

 

A força que agora se inicia

Nasceu de um passado remoto e pedregoso
Como pequenos peixes que estivessem a brincar nos corais

Um berço esmiuçado para o belo

 

Tudo é novo para quem acorda sem o arrependimento de ter visto.



Arte de Tere Tavares

 

Arte de Tere Tavares

 

Parece-te impossível essa composição?

Tentei obter rosas e veio uma névoa injusta

Uma tapeçaria de ares confusos

Não percebes? Eu te pergunto, mas também não percebi.
Existe algo de inalcançável em cada coisa viva
Uma realidade errática que nos observa sem deixar-se interpretar.

 

Arte de Tere Tavares

 

Havia um casulo lendo-nos

Como se fôssemos uma carta sobre a mesa

Letras sendo pão

E por esse esplendoroso livro de asas plenas e sinceras

Deixamo-nos atravessar.

 

 

Arte de Tere Tavares

 

Fotografia de Tere Tavares

 

Tere Tavares, escritora e artista visual, residente em Cascavel, PR, autora dos livros Flor Essência (2004), Meus Outros (2007), Entre as Águas (2011), A linguagem dos Pássaros (Ed Patuá 2014), Vozes & Recortes (Ed Penalux 2015), A licitude dos olhos (Ed Penalux 2016), Na ternura das horas (Ed. Assoeste 2017) Campos errantes (Ed. Penalux 2018), Folhas dos dias (Selo Ser MulherArte Editorial, 2020), Destinos desdobrados (Ed. Penalux, 2021) e Diário dos inícios ( Meatanoia Editora, Selo Mundo Contemporâneo Edições, 2021) . Conta com publicações em antologias, jornais e sites literários nacionais e internacionais. Integra a Academia Cascavelense de Letras.



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