Cultura

A novíssima poesia moçambicana pede passagem | Lau Siqueira

Foto de Rohan Reddy na Unsplash

afasto as cortinas da tarde
porque te desejo inteira
no poema
(Luiz Carlos Patraquim) 

 

Para comentar em prefácio a poesia de Milton Isaías e Chissola Daúd, recorri ao livro “Literaturas Africanas na Contemporaneidade”, publicado EdUFPB em 2020. Trata-se de uma coletânea de ensaios organizada por Vanessa Riambau Pinheiro, Rosilda Alves Bezerra e Zuleide Duarte, professoras da Universidade Federal da Paraíba e da Universidade Estadual da Paraíba, respectivamente. Neste livro encontrei um texto imprescindível para compreender um pouco a poesia feita em Moçambique atualmente. Falo de “A estética do silêncio na novíssima literatura moçambicana”, de Alberto José Mathe. Texto fundamental para medirmos o território das nossas pegadas.

 

Segundo Mathe, “Moçambique é um país que se fez pela poesia, pois através deste gênero iniciou o sonho de construir uma nação de todos os moçambicanos renegando e rebatendo o legado ideológico da colonização para forjar uma nova nação cuja identidade será uma amálgama dos valores pré-coloniais que se interceptam a vários níveis com os valores culturais advindos dos recentes contactos culturais.” Meu encanto com a poesia moçambicana, todavia, vem de longe. Noémia de Sousa, Craveirinha, Rui Nogar e Luiz Carlos Patraquim são alguns dos representantes de uma tradição poética que considero extremamente inspiradora.

 

O livro que vamos comentar aqui reúne apenas uma pequena fração dessa poesia pulsante e ainda emergente. O título já é um (quase) terceto eivado de provocações: “Sombras-Sobras/ Pegadas-Prisões/ Mulheres-Pilares”.  Dialoga, pois, com o ensaio citado. “A modernidade da nossa poesia consiste numa articulação constante entre o tecido social e cultural com as práticas de escrita”, diz Mathe. Há um lirismo rebelde na nova poesia moçambicana que dialoga de uma forma ou de outra com os caminhos apontados por Mathe. Vejo isso também em escritores e escritoras de Moçambique como Mbate Pedro, Énia Lipanga, Amosse Mucavele e Hirondina Joshua. Portanto, eis uma circunstância que ajuda a pensar até mesmo acerca da pulverização atual da poesia brasileira. 

 

Já faz algum tempo que acompanho pelas redes sociais a produção poética de Milton Isaias e Chissola Daúd. Duas vozes determinadas e distintas que atravessam oceanos. Versos que podemos encaixar na “estética do silencio” apontada por Mathe – assistente Universitário na Universidade Pedagógica de Moçambique, com doutoramento na Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN (Brasil). Pelas raras oportunidades que temos de comprar livros de autores africanos por aqui, creio que estamos diante intercâmbio necessário. Ajudaria a respirar fora das bolhas consagradas da poesia brasileira que atualmente é vítima de alguns prêmios literários.

 

Em Milton Isaías identifico exatamente essa poesia que busca novas abordagens. Sempre com versos encaixados numa linguagem de contenção. Um percurso criativo empenhado na economia rigorosa de vocábulos. Percebe-se, como diz Mathe, “o trabalho árduo com a palavra”. Ao tempo em que identificamos também uma busca pela precisão cabralina. Experimentações necessárias, mas sem soltar a mão da tradição moçambicana. 

 

O poeta parece ter aprendido com os pássaros a expressar o máximo de canto no mínimo de corpo. Milton possui um olhar atento para as invisibilidades. Um poeta que se refaz o tempo todo entre a memória e a descoberta. Às vezes parece querer traduzir o grau zero do significado. Como no poema “Dose da revolução: Os comprimidos do oprimido/ Ensurdecem o opressor/ Por isso,/ Nada se ouve.” Ele reconhece a tradição moçambicana tanto quanto seus contemporâneos, mas arrisca um passo além ao buscar o limite do abismo. Sabe que a poesia que interessa é escrita pelo poeta que não tem medo do ridículo nem se abraça aos modismos em troca de aplausos.

 

No poema “Tímida Ternura”, por exemplo, Milton Isaías lembra muito o que diz Charles Peirce: “o poeta faz linguagem para generalizar e regenerar sentimentos.” Eis o poema: “Libera-se a tímida ternura/ Em baile da vergonha/ Se houver toque triste do tempo/ É o sopro coletando uma lágrima.” Vejo aqui um poeta desbravando linguagens em busca de uma dicção singular. Tarefa que deverá acompanhá-lo pela vida afora. Afinal, quando o poeta se acomoda achando que atingiu o Olimpo já não está preocupado com a criação poética, mas com a política literária.

 

Nosso poeta passeia pelas mais diversas temáticas. Seu olhar é sobre o mundo, sobre os silenciamentos e invisibilidades de cada esquina. “O olho da rua espia os mendigos/ Que catam os grãos do vazio” (…), no poema “Venenos ao relento”. Versos que não se desprendem da realidade crua, onde somos todos frutos das sobras extraídas nos ritmos da vida. Ele nos apresenta uma poesia que se alimenta do olhar e da memória. Dos fracassos coletivos e do aprendizado das esperanças construídas pedra sobre pedra. 

 

Já Chissola Daúd oferece uma poética ancorada na diversidade de cores da filosofia. Sobretudo porque forte mesmo é a sua tecelagem criativa. Especialmente na construção de versos que nos arremessam contra a parede: “Tudo nasce/ e nem tudo vive”. Poemas que compartilham Moçambique e sua diversidade humana com o mundo. Sem os ruídos panfletários de certos engajamentos, mas falando de um país que teve na poesia seu pilar de liberdade. Um país que, de alguma forma, permanece estabelecido em versos. Com suas debilidades expostas, mas espelhado em novos olhares sobre o futuro. 

 

Em versos de rara beleza, tais como: “Mulher é a ciência que nasce/ E é luz que envelhece”, Chissola traduz para o mundo a sua navegação lírica. No livro “Mulheres e amores em ficções de autoria feminina” (EdUFCG), de Rosângela Rodrigues, aprendi que para as escritoras é fundamental “negar o pensamento masculino como totalitário, que enxerga todas as mulheres dentro de uma categoria tipológica” (…). Chissola afirma um feminismo que me parece consolidar-se na poesia moçambicana. Devo destacar, entretanto, que o seu engajamento é poético e ancora-se na metalurgia do verso.

 

Diferente de Milton Isaías, Chissola Daúd não economiza vocábulos para construir sua vasta artesania. Também encontramos nos seus versos uma diversidade de temáticas, de olhares e traduções do mundo. Poemas que exigem sempre mais de uma leitura. Algo que nos lembra Derrida em “A farmácia de Platão” – “Um texto só é um texto se ele se oculta ao primeiro olhar, ao primeiro encontro, a lei de sua composição e a regra do seu jogo.” Chissola propõe uma poesia que explora todas as possibilidades, mas nunca se entrega por inteiro. Guarda-se para surpreender o leitor numa segunda leitura. Aliás, exige sempre uma segunda leitura.

 

Chissola nos conduz de forma direta para as profundas dores do povo africano, mas também abre as janelas da resistência. É uma voz do orgulho africano, da moçambicanidade, da força de um povo falando para o mundo. Especialmente quando em poemas como “As avós” ela conversa com a ancestralidade – São a ferida da estrada,/ Tão doído que seja,/ Tão enfermo que rasteja,/ São a luz do candeeiro, (…)” – é de presente e de futuro que está falando. Sua poesia transita entre o estopim e a explosão. Seu poema nasce africano, moçambicano, mas é para o mundo que ela verseja.

 

Fotografia de Lau Siqueira

Lau Siqueira nasceu em Jaguarão-RS e reside atualmente em João Pessoa, no Nordeste do Brasil. Publicou dez livros de poemas, participou de diversas antologias. Atualmente dedica-se na escrita de uma biografia cujo título é Anatomia do Silêncio – a vida e a morte de Chico Veneno.

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