
Sinto falta do que não me lembro,
Mas tão vívida é a noite
Que cintilam os sonhos.
Torna o vento que perpassa a campina,
E tornam as gotas que nomeiam a cheia…
Vejo flores povoando a estrada
E estrelas adentrando a laguna…
Ouço um canto a ressoar nas tardes
E o silêncio a ecoar das noites…
Sinto tudo o que eu não lembro,
E me consome um tempo
Que não concebe o fim.
Mudam os traços
Feito a pele da terra
Ao percorrer-se a vereia,
E mudam as vestes
Feito os trajes da noite
Que ocultam as ruas…
Mas há tanto que se retém
Que o infinito abarca o espelho.
Mesmo partindo tantas vezes,
Mesmo penetrando a bruma…
Acho que voltamos para o mesmo lugar,
Acho que sempre voltamos…
Sinto falta do que não me lembro
E sinto falta de ti.
* Termo páli e sânscrito referente à ciclicidade da vida.
Rudá Ventura: poeta, músico e educador brasileiro, nascido em São Paulo.
Graduado em História, especializou-se em Ciências Humanas pela PUCRS.
Autor do livro Preamar (Laranja Original, 2017) e integrante da antologia Encontro de Utopias (Patuá, 2019), tem poemas publicados também em revistas literárias do Brasil, de Portugal e de Moçambique.
Buscando tornar a literatura mais acessível, realiza palestras e apresentações recitadas em instituições de ensino e eventos culturais.
Lançado em 2025 pela editora Patuá, Ária é seu novo livro de poesia.










