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Envios Proposições Discotecagem | Ney Ferraz Paiva

Foto de Brendan Stephens na Unsplash

O máximo da alegria de um depende da máxima alegria de todos.

– José Oiticica

 

vídeo-instalação para mário de andrade 100 anos de paulicéia desvairada

 

meio cego ou quase mudo

ovni anão criança avião

não há expectador aqui

incompleto ato de ver & dizer

poucos, quem o viu? pouquíssimos

sem linha onde se equilibrar direito

avistamentos de objtos kitsch

na suburra noturna da paulicéia

à cata de traçar o que dizer

europaméricadonortejapão

encadernado pelo oxigênio

nas veias eretas dos versos

resíduos coloquiaisproibidos

nas antenas da cultura de ponta

uma escola de samba animará a

festa junto com deus & o diabo

museusgaleriasshoppingcenters

eu sou trezentos, sou trezentos-

e-cinquenta de um dia pro outro

sem nenhuma sombra de dúvida

sem fazer teatro ou alterofilismo

com amor e raiva pelos outros &

eles por mim (digo exasperado)

sem remédio nem receita a boca

aberta com palavras o trombone

terra, ar, fogo, água, sinalisadas

a testa franzida espremendo o silêncio

transpiro preguiça por todos os poros

gaguejo erro feio sou meu ventríloquo

 

águas salgadas

 

tomando banho

de mar

em copacabana

sophia de mello

breyner andresen

circunavegou

o inescrito

abriu às braçadas

(tensão lentidão alívio)

a trilha ou teia

 

sem parecer uma turista

respirou o esforço

secreto da travessia

levou até a praia

palavras desconhecidas

afogadas em seus lábios

a carne macia de um peixe

 

em silêncio submarino

o mar marca a ferro & brasa

o coração de quem escreve

 

s.p. sem mário de andrade

 

não, mário, não é possível

guardar o que não é mais teu

asfixiar a alma lacrar o tempo

escrever de trás para a frente

o segredo dos teus naufrágios

 

nós que não suportamos mais

o atraso de uma única palavra

a liberdade que nos arrancam

enquanto o progresso avança

 

no túmulo fumas o teu cigarro

desces às jogatinas do inferno

vês são paulo desaparecer

nos desertos da américa

 

fascistas queimam teus livros

vida & morte em cada esquina

o modernismo ser empalhado

como é pesado o teu silêncio

carta de torquato neto a hélio oiticica

rio 11 de janeiro 1971

 

o poema que escrevi anteriormente

me botou na encruzilhada

era macumba pra você voltar

pra eu não ficar sozinho

você não voltou, mas se

naquele momento você

voltasse eu não ficava

mais fora de sua órbita

apesar de todos os efeitos

paradoxais do contágio

do corte biográfico algumas

hipóteses ou propostas

um brevíssimo momento

das nossas vidas juntos

transformado numa espécie

de intervalo pela força

dominante da sua presença

me deixa muito mais a fim

de fazer acontecer as coisas

saber pra que serve a vida

de repente, em londres você

estava tão cansado pra sacar

acabou escolhendo o exílio

artístico e que era isso ou

nada, não voltar, ficar por aí

sem ter lugar no mundo

aqui seria sinistro ainda é

o brasil virou um incômodo

tanto que você passou quase

direto pra manhattan, ficou

pouquíssimo tempo no rio

durante o verão de 1970

voltou de cabelo comprido

marca da sua criatividade

clandestina mundializada

dentro e fora do brasispero

você não estava interessado

em praia, mas em tíbia, pelos,

palato, uivos, saliva, raiva

curtir o verão da anarquia

experimentar o experimental

não entrar pela grande porta

do medo que muitos entraram

e não saíram mais como eu

sem você o diálogo acabou

as madrugadas mixaram

os dias são curtos e frios

a dor está apenas começando

como fixar marilyn no teto do sucesso maquiada por malevich

 

malevich era pra oiticica um bom maquiador/ fixou rostos belíssimos como fogos de artifício/ sem usar nenhuma cor/ ainda assim ficavam acesos/ algo recíproco como uma sombra que vem de um lugar que não poderia vir/ que ali estava sem entrar totalmente no eixo/ isto não é mais pintura é uma curva do aniquilamento/ para o deserto, abismo ou nuvens de cogumelo/ marilyn não é uma sombra, mas uma marionete do diabo/ de salto alto sobre o mar verde profundo/ como um uniforme integralista/ um escaravelho sobre o coração envenenado através do vidro entreaberto do vestido/ dar um amasso/ semelhante a cavalos selvagens que trepam um no outro no campo branco da folha de papel/ a perfeição era o oposto do que usava e abusava/ paradoxal incerta rival de si mesma/ de uns e outros/ terminará por se matar/ embora quisesse viver egolatramente as unhas e perfumes da tigresa/ equilíbrio tencionado, pose perfeita, iminência do colapso/ deusa das perdas/ musa da querela/ um abocanhar de piranha/ espraiando pelo mundo/ artifício da encenação suspensa no teto por um fio de aço/ obcecada por espelhos/ narcisa de corpo inteiro superestrela disposta a cair

aaa

enquanto caetano compõe alegria, alegria

 

quando caetano e paulinho da viola se encontravam no solar da fossa/ eu estava na primeira fila para ouvir o choro e o samba/ dos quais não se safam os próprios marginais/ de  ter a sensação de estripar uma galinha/ era um lugar incrível para se estar/ a música convocava aos riscos e abismos/ ferventes mensagens estatelavam os ouvidos/ com a voz de quem pretende parir/ no princípio as mulheres eram estrelas/ ou qualquer coisa de intermédio/ progredindo nas fileiras do poema/ profanatórias incidem nos excessos dos amantes/ estimulam evocam outros  mistérios/ eu deveria estar atento ao tropicáustico movimento de ser quase dezembro/ a noite caindo sobre nossas cabeças/ corações páginas riscadas falas vãs/ explodiam ventos óvulos  veias/ à espera de conversar com algum ditirambo dionisíaco/ que não vai aparecer/ senhoras e senhores donos de tudo/ coloco uma pedra sobre o assunto/ marilyn caminhando contra o vento/  nunca mais vamos ser vistos juntos/ nunca mais o retrato dela na carteira

hélio/ caeiro

 

nunca criei cavalos

mas é como se os criasse

alimento cisnes na neve   com carreiras de cocaína

toda a matéria é feita de quarks

palavras movediças caos terra

penetram no duplo sentido das coisas

tentam trazer ordem ao universo

desaprendi ter sido corisco

quando dei por mim já era dionísio  cara de cavalo cronópio mineirinho

madame satã caeiro

como se os meus pés já não

estivessem inteiramente

plantados no chão

de madrugada o piso

da minha casa range

aleatoriamente textos

manuscritos  cartas

enviadas de toda parte

objetos que costumo pegar na rua

armazenando-os até em cima

quase como se já estivessem

perto das nuvens

não terei resistido à tentação das letras

colisões dos raios cósmicos com átomos

cavalos relincham escoiceiam

mudam de sexo

à vista de todos

rabos lombos patas

dentro da brisa estagnada

como num estábulo degradado

mãos enluvadas de pelica

mergulham em aquários

examinam com uma lupa

as paredes blindadas

pequenas defensoras

do lado do bem, do gozo

o ar carrega os restos mortais

de um futuro eclipsado

aqui se nasce animal

atravancado de humano

durmo no colchão esticado

como uma ponte

que lygia clark

me emprestou

onde vou morrer  secretamente

de um aneurisma

vivo arrancando

a pele da pintura

a uma distância

mínima do risco

sempre o precipício

nuvens de mau agouro

Ney Ferraz Paiva

“Proposições discotecagem_1”: fotografia de Ney Ferraz Paiva.

Ney Ferraz Paiva, natural de Belém (Brasil), é poeta, curador independente e artista visual. Publicou diversas obras, incluindo os livros de poesia “Arrastar um landau debaixo d’água” (2015) e “O desastre toma conta de tudo” (2019). Realizou as exposições “Um mundo onde Foucault possa reclinar a cabeça” (Belém: Galeria Theodoro Braga, 2014) e “A Hora Herzog” (Belém: Espaço Na Figueredo, 2022; Galeria Semente, Casa Na Mata, 2023). Como curador, organizou exposições de diversos artistas brasileiros, incluindo Paulo Ponte Souza, Luiz Pinto, Petchó Silveira, GC Arte, Marinaldo Santos e Werner Souza. Ele atua como curador de Artes Visuais e Literatura no Núcleo de Conexões Na Figueredo, em Belém.

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