
O máximo da alegria de um depende da máxima alegria de todos.
– José Oiticica
vídeo-instalação para mário de andrade 100 anos de paulicéia desvairada
meio cego ou quase mudo
ovni anão criança avião
não há expectador aqui
incompleto ato de ver & dizer
poucos, quem o viu? pouquíssimos
sem linha onde se equilibrar direito
avistamentos de objtos kitsch
na suburra noturna da paulicéia
à cata de traçar o que dizer
europaméricadonortejapão
encadernado pelo oxigênio
nas veias eretas dos versos
resíduos coloquiaisproibidos
nas antenas da cultura de ponta
uma escola de samba animará a
festa junto com deus & o diabo
museusgaleriasshoppingcenters
eu sou trezentos, sou trezentos-
e-cinquenta de um dia pro outro
sem nenhuma sombra de dúvida
sem fazer teatro ou alterofilismo
com amor e raiva pelos outros &
eles por mim (digo exasperado)
sem remédio nem receita a boca
aberta com palavras o trombone
terra, ar, fogo, água, sinalisadas
a testa franzida espremendo o silêncio
transpiro preguiça por todos os poros
gaguejo erro feio sou meu ventríloquo
águas salgadas
tomando banho
de mar
em copacabana
sophia de mello
breyner andresen
circunavegou
o inescrito
abriu às braçadas
(tensão lentidão alívio)
a trilha ou teia
sem parecer uma turista
respirou o esforço
secreto da travessia
levou até a praia
palavras desconhecidas
afogadas em seus lábios
a carne macia de um peixe
em silêncio submarino
o mar marca a ferro & brasa
o coração de quem escreve
s.p. sem mário de andrade
não, mário, não é possível
guardar o que não é mais teu
asfixiar a alma lacrar o tempo
escrever de trás para a frente
o segredo dos teus naufrágios
nós que não suportamos mais
o atraso de uma única palavra
a liberdade que nos arrancam
enquanto o progresso avança
no túmulo fumas o teu cigarro
desces às jogatinas do inferno
vês são paulo desaparecer
nos desertos da américa
fascistas queimam teus livros
vida & morte em cada esquina
o modernismo ser empalhado
como é pesado o teu silêncio
carta de torquato neto a hélio oiticica
rio 11 de janeiro 1971
o poema que escrevi anteriormente
me botou na encruzilhada
era macumba pra você voltar
pra eu não ficar sozinho
você não voltou, mas se
naquele momento você
voltasse eu não ficava
mais fora de sua órbita
apesar de todos os efeitos
paradoxais do contágio
do corte biográfico algumas
hipóteses ou propostas
um brevíssimo momento
das nossas vidas juntos
transformado numa espécie
de intervalo pela força
dominante da sua presença
me deixa muito mais a fim
de fazer acontecer as coisas
saber pra que serve a vida
de repente, em londres você
estava tão cansado pra sacar
acabou escolhendo o exílio
artístico e que era isso ou
nada, não voltar, ficar por aí
sem ter lugar no mundo
aqui seria sinistro ainda é
o brasil virou um incômodo
tanto que você passou quase
direto pra manhattan, ficou
pouquíssimo tempo no rio
durante o verão de 1970
voltou de cabelo comprido
marca da sua criatividade
clandestina mundializada
dentro e fora do brasispero
você não estava interessado
em praia, mas em tíbia, pelos,
palato, uivos, saliva, raiva
curtir o verão da anarquia
experimentar o experimental
não entrar pela grande porta
do medo que muitos entraram
e não saíram mais como eu
sem você o diálogo acabou
as madrugadas mixaram
os dias são curtos e frios
a dor está apenas começando
como fixar marilyn no teto do sucesso maquiada por malevich
malevich era pra oiticica um bom maquiador/ fixou rostos belíssimos como fogos de artifício/ sem usar nenhuma cor/ ainda assim ficavam acesos/ algo recíproco como uma sombra que vem de um lugar que não poderia vir/ que ali estava sem entrar totalmente no eixo/ isto não é mais pintura é uma curva do aniquilamento/ para o deserto, abismo ou nuvens de cogumelo/ marilyn não é uma sombra, mas uma marionete do diabo/ de salto alto sobre o mar verde profundo/ como um uniforme integralista/ um escaravelho sobre o coração envenenado através do vidro entreaberto do vestido/ dar um amasso/ semelhante a cavalos selvagens que trepam um no outro no campo branco da folha de papel/ a perfeição era o oposto do que usava e abusava/ paradoxal incerta rival de si mesma/ de uns e outros/ terminará por se matar/ embora quisesse viver egolatramente as unhas e perfumes da tigresa/ equilíbrio tencionado, pose perfeita, iminência do colapso/ deusa das perdas/ musa da querela/ um abocanhar de piranha/ espraiando pelo mundo/ artifício da encenação suspensa no teto por um fio de aço/ obcecada por espelhos/ narcisa de corpo inteiro superestrela disposta a cair
aaa
enquanto caetano compõe alegria, alegria
quando caetano e paulinho da viola se encontravam no solar da fossa/ eu estava na primeira fila para ouvir o choro e o samba/ dos quais não se safam os próprios marginais/ de ter a sensação de estripar uma galinha/ era um lugar incrível para se estar/ a música convocava aos riscos e abismos/ ferventes mensagens estatelavam os ouvidos/ com a voz de quem pretende parir/ no princípio as mulheres eram estrelas/ ou qualquer coisa de intermédio/ progredindo nas fileiras do poema/ profanatórias incidem nos excessos dos amantes/ estimulam evocam outros mistérios/ eu deveria estar atento ao tropicáustico movimento de ser quase dezembro/ a noite caindo sobre nossas cabeças/ corações páginas riscadas falas vãs/ explodiam ventos óvulos veias/ à espera de conversar com algum ditirambo dionisíaco/ que não vai aparecer/ senhoras e senhores donos de tudo/ coloco uma pedra sobre o assunto/ marilyn caminhando contra o vento/ nunca mais vamos ser vistos juntos/ nunca mais o retrato dela na carteira
hélio/ caeiro
nunca criei cavalos
mas é como se os criasse
alimento cisnes na neve com carreiras de cocaína
toda a matéria é feita de quarks
palavras movediças caos terra
penetram no duplo sentido das coisas
tentam trazer ordem ao universo
desaprendi ter sido corisco
quando dei por mim já era dionísio cara de cavalo cronópio mineirinho
madame satã caeiro
como se os meus pés já não
estivessem inteiramente
plantados no chão
de madrugada o piso
da minha casa range
aleatoriamente textos
manuscritos cartas
enviadas de toda parte
objetos que costumo pegar na rua
armazenando-os até em cima
quase como se já estivessem
perto das nuvens
não terei resistido à tentação das letras
colisões dos raios cósmicos com átomos
cavalos relincham escoiceiam
mudam de sexo
à vista de todos
rabos lombos patas
dentro da brisa estagnada
como num estábulo degradado
mãos enluvadas de pelica
mergulham em aquários
examinam com uma lupa
as paredes blindadas
pequenas defensoras
do lado do bem, do gozo
o ar carrega os restos mortais
de um futuro eclipsado
aqui se nasce animal
atravancado de humano
durmo no colchão esticado
como uma ponte
que lygia clark
me emprestou
onde vou morrer secretamente
de um aneurisma
vivo arrancando
a pele da pintura
a uma distância
mínima do risco
sempre o precipício
nuvens de mau agouro
Ney Ferraz Paiva
Ney Ferraz Paiva, natural de Belém (Brasil), é poeta, curador independente e artista visual. Publicou diversas obras, incluindo os livros de poesia “Arrastar um landau debaixo d’água” (2015) e “O desastre toma conta de tudo” (2019). Realizou as exposições “Um mundo onde Foucault possa reclinar a cabeça” (Belém: Galeria Theodoro Braga, 2014) e “A Hora Herzog” (Belém: Espaço Na Figueredo, 2022; Galeria Semente, Casa Na Mata, 2023). Como curador, organizou exposições de diversos artistas brasileiros, incluindo Paulo Ponte Souza, Luiz Pinto, Petchó Silveira, GC Arte, Marinaldo Santos e Werner Souza. Ele atua como curador de Artes Visuais e Literatura no Núcleo de Conexões Na Figueredo, em Belém.










