Fascículo (1)
A singradura da prece empapa-se no inóspito, descendo até à salva de ossos onde a matéria em decomposição molda núpcias de carnagens ancestrais, costuradas com restos de tarrafas apodrecidas. Há um brilho aurífero e cruel que emudece as dissonâncias do esquecimento enciclopédico. A história das ANCIÃS por vezes é apagada, restando apenas a veracidade do lodo e da podridão. Noutras, o mangue-Siriúba sangra e ergue-se uma ANCIÃ com o magnetismo atroz de um nome suspenso nos cascos selados das bestas. Os seus tilomas estão fundeados na pedra cálcica, esculpida pelo jorro contínuo de uma chaga que nunca fecha ao redor das habenas de um rosário. Com dedos arcaicos, ELA manipula a corda lilás de kevlar-aramida, arrancada do pescoço milagroso de um enforcado; tenta tecer fios de lã, tensiona os ligames do próprio tempo e jura vingança contra o firmamento revolvido. Aqui-agora: o lodaçal exsurge. Uma ANCIÃ, sob o arco fervente de uma oferenda geológica, banha-se no próprio expurgo para ocultar os restos da carniça primordial. Um nome coagulado flutua na superfície da caça de chifres suspensos: bestas hermafroditas emergem do fundo da prece para cravar sulcos de linfa no charco filiforme de uma visão terrífica. Cadelas expatriadas, com as barrigas abertas e cosidas a chelpa, uivam nas margens esgrouviadas. É o andamento do sacrifício cheio de leveduras granuladas. Sobeja lacrar as feridas com cinza, farpas e bagaço, repicar o pão azedo com unhas arrancadas e mastigá-lo com a mandíbula voltada para a mestria das crias ainda lamacentas. Nas patas, minúsculos turbilhões de arpoadas começam a arder, queimando a pele em chagas assimétricas. Um gesto inconsciente da primeira ANCIÃ, com tenazes de ferro álgido, irrompe das comportas escancaradas da morte, resvalando muito além da grácil prece cardíaca: há um sabugo buliçoso pelos atropelos da desova. A dupla serpe, estocada consecutivamente por centelhas de um magnetismo adverso e feita de escamas calcificadas e bílis aguda, jaz extasiada ao lado das pás com borras de um tom heráldico e mijo de vaca. O repouso da besta é fendido por unhas corrompidas por abortos de formas improváveis: as ferramentas de sepultura ainda brandem no ar encorpado, açuladas e visceralmente possuídas pelas pulsações coligidas dos tambores litúrgicos que ressoam nos mausoléus, a exigir, desde o início da prece sem súplica, mais carne fresca engasgada entre espátulas de gusa para alimentar o fundo da vasa em contracção perpétua. As fendas verticais dos olhos da ANCIÃ vazam um limo lúteo, e a sua boca hiante chupa o ar compacto da cana-rosa-carangola-cabocla-preta-pitu-manteiga-crioula-carrete-caiana junto aos silvos sibilantes das víboras recém-nascidas. Cai de joelhos, contrai-se e escama-se diante de um vulto calcificado. Ao cimo do fosso, indolente ante a heresia que começa a ganhar concupiscência, ergue-se a silhueta do Hierofante Cerúleo. As suas mãos, tarimbadas pelo manejo das espátulas sacras, seguram as baquetas feitas de tíbias enrubescidas. Há uma tremenda lide; a sua face, oculta sob um capelo de estopa sangrenta, não move um único músculo quando o couro dos tambores volta a vibrar, impulsionando a argila a tragar os despojos mais chocalhados e prepare o berço-marsupial para a próxima ninhada. Eis que o Hierofante Cerúleo, elevando as varetas ósseas com a mão destra contra o zimbório, desprende da garganta um canto rascante, moldado nas destilarias da Língua Antiga, onde os homens sabedores há muito riscaram dos códices permitidos. Verbos enrolados por taraguiras entre pingos dos archotes ecoam à volta de paredes de pedra, vertem suor e fel, suspendendo-se pelo restolho intruso dos salmos.
Há uma pulsação derradeira a reverberar nas diáfises e nas epífises dos ossos longos. Um baque surdo e ancestral faz tremer as fundações do lodo. Irrompe pelas fendas das preces mortiças o som há muito estancado dos tambores de mão: dedos tensos, calejados e gementes, ao lado de palmas suadas a golpear o couro, dançam arrebatadamente sobre as peles esticadas numa cadência hipnótica, febril e cruel. A prece encardida e sussurrada desfaz-se em esputo e cólera; converte-se em carne e ritmo puro, escalando labutações de sarrafos e barrotes. O ar torna-se espesso, saturado pelo fumo de ervas pisadas e pelo suor sacrifical que escorre pelos corpos dos batedores de maturidades. Há um lamento agudo e cortante do djembê a abrir o lacre da trilha mais ínfima, ecoando em sincronia com o tropel grave, subterrâneo e estomacal das tumbadoras. Logo atrás, o peso fúnebre e imperioso das alfaias dita a marcha do despenhadeiro, enquanto o eco xamânico e cavo dos lakotas convoca as forças ocultas do charco. Há uma secura metálica, cortante e frenética dos octobans a estilhaçar o que resiste da tanatopraxia, delirando. Os polirritmos sobrepõem-se como ondas de uma tempestade de preces, criando uma massa sonora que atravessa os ouvidos, estremece os nefrónios, dilata as midríases e rasga cabeças com impactos coronários. Os instrumentos campeiam mãos num transe sem retorno. Inesperadamente o tambor bate duas vezes, encavalga o próprio eco nas entranhas mais obscuras e crava-se como uma farpa na escuta empalada de uma lanterninha coberta de penugem viscosa. Sob a luz baça, trêmula de uma mariposa, o milagre insectívoro consome-se.
Nas medulas de lama voraz que sustentam os alicerces decrépitos e semi-afundados daquela casa, a própria matéria orgânica não abdica do seu processo descontínuo e ininterrupto. Aqui-agora: o sangue menstrual estagna, coagula e putrefaz-se numa fertilidade amaldiçada, outras crias, há muito esquecidas e renegadas por Deus, rompem com violência as suas membranas de placenta gris. O fluido amniótico é uma massa acinzentada, espessa e de um fétido insuportável, com a consistência sepulcral de banha bovina corrompida pelo tempo. Esta linfa maldita transborda em golfadas ritmadas, invadindo o pequeno manguezal asfixiante que embate, como uma charco intertida na soleira carcomida da casas das ANCIÃS. Nas trevas do subsolo, os sacos vitelinos esticam-se até ao limite e rasgam-se. Emitem um som aquoso de desgarro visceral, um eco sibilante que replica o sussurro de mortalhas antigas a romperem-se num jazigo. Deles emergem as criaturas, cegas, moldadas exclusivamente para a linhagem perpétua da penumbra. Não parece existir vestígio de córneas naquelas órbitas cavadas e escuras: despontam películas de tecido translúcido, quase gelatinoso, que tremem convulsamente sob um vislumbre. São impelidas para fora pela pressão oculta de fluidos internos: um espessamento mucoso, esbranquiçado e lácteo, a pulsar ao ritmo de um coração destreinado e imaturo. Há braços atróficos terminados em unhas cartilaginosas, que arranham a lama num esforço alucinado de tracção. A pele DELAS tem a trama coloide de um anfíbio que acabou de sofrer uma mutação incoercível, fazendo aparecer por transparência, uma rede densa de veias sombrias que arquejam como vermes sob a derme. As bocas, fendas horizontais quase-desprovidas de lábios, abrem-se para sugar o ar malcheiroso do mangue, emitindo um estalido sibilante, um pranto silente que apenas atrai a devassidão. No umbral gasto pela água salobra, as ANCIÃS ressaltam com suas silhuetas, encurvadas e fundidas com o crepúsculo do postigo, mantêm-se inactivas, mas os seus peitos ramificados arfam em consonância com os sacrilégios. As ANCIÃS estendem as mãos esqueléticas e trémulas pelo manguezal. Os seus dedos, difusos e nodosos, afundam-se na lama para refugiar as crias cegas. Há uma mistura de horror com devoções ancestrais e famintas. Quando a primeira criatura rasteja sobre os nós dos seus dedos, uma das ANCIÃS solta um sussurro gutural: uma prece numa língua esquecida a envolver o soalho. Com as palmas cobertas de banha adúltera, ela ergue a massa de carne demente à altura das escápulas, batizando-a em torno de uma candeia de galho. A estirpe da incerteza encontrou o seu lugar de origem. A ANCIÃ desanda para a sombra do átrio, aconchegando contra o pomo sôfrego os apêndices moles das crias.
Na carne aberrante, misturam-se grumos leitentos e matizes flavescentes. Mais ao fundo, na escuridão do reboco, a cria mais fustigada debate-se sob o peso de um líquido amarelo-mostarda que lhe coroa a cabeça em inexaurível sofrimento. Sobre as pedras seculares, a verdoúna e os lóquios escarlates espalham-se como um sacrifício profano, acendendo uma existência que teima em florescer no ventre da própria morte. Do limiar daquela soleira carcomida, as ANCIÃS mergulham no tremendo prodígio. ELAS fundem-se com a arquitectura caduca da casa, figuras quase-inertes esculpidas em panos velhos e couro velho de caprino a mimetizar a contextura do pergaminho empapado. Os seus olhos, baços e velados por cataratas ancestrais, guiam-se pelo cheiro a barro e a gordura rançosa que emana do mangrove, e pelo som daqueles pequenos corpos a debaterem-se na lama. Devagar, uma das ANCIÃS estende uma mão esquelética e tremente em direcção ao pedaço de chão por mapear. Os dedos, longos como raízes ressecadas, enterram-se na massa cinzenta do fluido amniótico até reencontrarem a primeira cria. Ao toque da matriarca, a criatura cega cessa as suas convulsões. A película translúcida que lhe cobre as órbitas oscila, impulsionada pelo aperto dos líquidos ventrais. A ANCIÃ puxa-a para o insulamento crepuscular da coiceira, ignorando os grumos cróceos e a verdoúna que lhe nomeiam os pulsos. Com a outra mão, recolhe ritualisticamente a cria do fundo, ainda com a cabeça ocre, que chora sem voz numa agonia muda e sempiterna. O sangue dos lóquios ruborizados tinge as pedras seculares, desenhando um anel obscuro entre a carniça em vida e as abominações a rebentar da podridão. As ANCIÃS abrigam as crias do lodo como descendências malditas capazes de alicerçar os baldrames da casa. As ANCIÃS retrocedem para o interior bolorento da casa, arrastando as crias para alguns restos de luz pela obscureza. Das vigas de madeira decomposta pendem longos fiapos de poeira e teias de aranha densas como tecidos de linho a flutuar ao sabor da respiração asmática das ANCIÃS. A matéria concreta das dores e dos esquecimentos escorrem em veios nublados pelas fendas do estuque. No centro da bifurcação, o chão de tábuas corridas cedeu, abrindo espaço para uma fossa de limo estancado. É para ali que as ANCIÃS conduzem a ninhada. Com uma ênfase tenebrosa e delicada, assentam os corpos viscosos no bispote de argila. A cria na parte posterior, com a cabeça ainda manchada pelo líquido âmbar escuro, submerge lentamente até às espaldas, misturando os seus lóquios avermelhados com a cerração do alagadiço. Mal tocam o lodo da fossa central, o sofrimento das crias transmuta-se num fleuma quase-letárgico. A cacimba dá-lhes respiros e folga, adota-as, gotejando seus gemidos pela oxidação do sobrado. A lama espessa e estagnada sobe-lhes pelos membros como sanguessugas invisíveis, colando-se à carne diáfana e preenchendo as órbitas cegas onde começam a irromper olhos purpúreos. A cria mais atormentada, e com a cabeça ainda a brilhar com o óleo fulvo-carijó, afunda-se até à boca, deixando que a matéria abrumada lhe invada as entranhas numa ablução de solo e mangue. A pele das repulsões perde a sua distinção e se torna batedora de ecos das hastes ósseas da casa: as membranas grisalhas dissolvem-se e os lóquios enrubescidos fundem-se nos tremores da negrura líquida, demudando os seus pequenos corpos em bússolas vivas daquele assoalho desmoronado. No topo da vasilha escamosa, as ANCIÃS cinzelam as vigílias com línguas saborosas e coros taciturnos. ELAS alinham-se à beira do báratro mais interior como gárgulas rúbidas de carnações, com as saias de pano velho a absorverem a humidade venenosa que emana do calor da poça de maré. Palavras desapareceram, há cânticos a invadir brônquios, orações audíveis pelos relicários e escrínios cheios de vitualhas; a sua prece é um silêncio denso, uma comunhão mental pelo charco que faz o ar vibrar contra entalhes ancestrais entre crustáceos, ostras, sururus, fósseis de aves migratórias, répteis e mamíferos. Os seus peitos sobem e descem, ritmadamente pelas alvenarias, aspirando as metamorfoses sanguíneas em redor de sextantes de latão e vidro.
Ainda assim, os focinhos visguentos e estranhamente gretados das crias, voltam-se de imediato, numa precisão magnética, para a ANCIÃ, imitando a sua austeridade de escultura fundeada na angulação quase-inacessível do jirau. Com as patas atochadas e membranosas, a agonia do crescimento acelerado manifesta-se em tempo crónico: a derme estica até ao limite, torna-se descorada e rebenta de dentro para fora num esgar purulento de linfa e sangue venoso. Pequenos ganchos de osso descorado, poroso e aguçado como agulhas brotam espontaneamente das articulações desvendadas a girar sobre si mesmas com a vibração mecânica de brocas biológicas, perfurando a própria carne das crias antes de escavacarem o chão de pedra e lama fétida. ELAS ancoram aqueles corpos rudimentares, fixando-os como estacas vivas contra a torrencial e violenta correnteza de sangue a irrigar o tremedal. Cada fibra muscular arde desabaladamente, numa imergência de dor crua, febre espasmódica e escuridão eterna. Diante do coro de guinchos estridentes e arroubos fisiológicos, a ANCIÃ permanece entorpecida, uma presença monolítica esculpida no insulamento. O sangue do charco lambe-lhe os pés de pedra, mas ELA não acua, esfrega o corpo de cima a baixo. Lentamente, a rigidez da sua bochecha esculpida cede a um estremecimento imperceptível. Quando o último gancho ósseo se crava no chão, ELA abre as suas próprias mandíbulas estiadas, libertando um sopro de poeira torácica e vegetal a descer sobre a filharada. As crias calam-se instantaneamente, entrosadas com o silêncio sepulcral da progenitora. O transe dos tambores atinge o seu ápice pela golpeadura das cabeças das ANCIÃS e das crias entre o bolor e a herança a partilharem a eternidade do abate.
O fogo que emana das ulcerações é anil e cheira a gordura animal queimada. O fluxograma dos tambores dita a regurgitação. Quando a ANCIÃ esmigalha o pão e o verte sobre o tijuco, as crias absorvem a seiva ácida diretamente pelos poros das patas enlaçadas. Alimentam-se do trauma herdado da terra, sintonizadas pela pulsação mecânica a ascender pelos plectros cruciantes e contumazes, prontos para cavar a próxima cabeça do precipício. O veneno escorre das presas enredadas da dupla serpe: uma mistura macilenta de fel e fósforo a incendiar a ferrugem dos instrumentos. A vibração do metal pelos fluidos da fome esculpe uma névoa espessa, que ascende pela substância química e sagrada de um nome coagulado entre as crias. Estas arremessam-se, velozes e lentas, contra as tenazes de uma ANCIÃ que se liberta da corda suicidária, rés às batidas de um tambor de carne, mutilando-se levemente com os utensílios das próprias crias.
Primeira ANCIÃ: Oh Deus! A prece não descreve os vedores da minha cabeça: ela os soterra e recria, decantando uma sonoridade autotrófica que precede a divulsão da fala, convertendo-a no grito de um excesso incomunicável pelo testemunho do vazio. Oh Deus, a minha prece é um hospedeiro micelial a exercitar as súmulas das atonias; extrai reperfusões dos traumas, expele a dor com acédia sismonástica entre resíduos de medusas e uma espera inominável diante da morte, onde elevo os vincos de mãos que nunca procuram saída, assomam-se como gestos purgadores do impensável num tempo anômalo, arrancado à carnagem verbal. Aqui-agora: uma voz indefinível irrompe enquanto abandono o próprio nome pelo corte da deserção. Entrego-te a minha prece dissecada pela tatuagem do inacessível: um intaglio em ponto de anástrofe, punção sacrificial pelas topografias de suturas, detrito do vácuo com tensões cranianas acumuladas pela vidência proporcional à falha que meteoriza as fístulas viscosas. A lama da voz e o solo gretado coexistem, camadas de uma pele incicatrizável e quase-irremissível. Oh Deus, escuta o remir da minha voz que se levanta pela borda da pele lancinada! Dizem ser esta a única verdade possível pelas mechas sebáceas da fome: a transdução do desespero que só se pronuncia através do próprio colapso. É o lugar inexpiável onde a dor e o vazio ganham uma materialidade acrômica, anêmica, à volta das escamas da náusea. A segunda ANCIÃ: a minha prece, oh Deus, não procura explicar-me, mas tocar o sentido do sentido de uma sinistra criatura, a fronteira da palavra falhada com a vibração untuosa do que foi arrancado aos mortos. A mão múltipla, que insiste no desmanche, torce-se em fragmentos animalizantes, recusando qualquer rebote da forma humana. A prece, oh Deus, sucede na garganta quase insonora a dançar pelo abstrato espélhico diante da punição, buscando uma música vocal sem palavras para colher feixes vasculares, recusar um rosto e permanecer purgada no vórtice da matéria errante. Escarifico-me com preces-parasitas onde o dentro tricota ossários e resvala para a astúcia do fora, despigmentando-me em turbulências alucinantes que trituram a nefanda memória e forçam o olho a abdicar do reconhecimento. A prece cinzela microscópicas abas de uma úlcera na miscelânia da visão; transmuta-se em diplopia com cisuras de palavras que geraram luzências mercuriais em sumiço, vazando cronologias com restolhos de insônias. Oh Deus, não deixes que a minha voz anterior à girândola e ao pirotecnismo do humano seja capturada pela raflésia e evapore na geometria hematófaga! Faz de mim uma paramnésia perambulante, sufusão fiandeira de um idioma, derrame pela forja carnal, infestação fúngica a devorar o debrum do tempo pelo fosfeno. A lâmina da prece é apenas outra forma de incisura pesteada; uma gênese ígnea onde a exegese da ferida se transverte em filaça de voz. Por vezes, meu Deus, um simulacro tumente hibridiza-se em aquarela de cólera até à estuação das sombras das palavras, que se reabrem à feracidade de um quebra-cabeça de silêncios pelas infâmias. Tu sabes, Deus, que só há prece verdadeiramente quando a pele perde a sua gradação histórica, o seu resgate matizado por escórias, o seu rechaço ocioso, retomando o traço do zelo mais imprevisto para inscrever a última voltagem da cura já dentro da eternidade da chaga. Quer queiras ou não, o meu cântico avançará como atrito gorduroso diante do fogo de Santelmo: o som da pele da cabeça a raspar na fímbria do infinito, transformando o ricochete da desmesura num crivo de remições onde apenas o impossível sobrevive. A prece, oh Deus, emancipa a tremura impronunciável, aceita a nuance ofídica, o rigor labiríntico e o talhe da vocação da morte. Aqui, a dor hospeda o esgotamento e o rigor do corpo, espiritualizando-o pelo espasmo do crime à volta da FATA MORGANA. Contra a poeira fúlgida do tempo, nós, ANCIÃS, erguemos a opacidade afinada pelo puro rastro de um encontro manobrado pelo bisturi da loucura, entre a exatidão do impraticável e a matéria abissal. Oh Deus, vejo-te como uma reologia de bolhas flutuadoras, onde lanhos da minha voz, despojados de arquitectura e de nome, tornam-se o próprio vácuo que suga os fios nodulares do teu desvio. Mastigamos carvão oblíquo e sal matricial e as prestezas das palavras recuperem os indutores da animalidade. É com as carstificações da alma que encontramos o silêncio dizente de quem sobrevive pelas contrações das ruínas das AFTERIMAGES.
A terceira ANCIÃ: oh Deus, não és mais do que um celenterado primitivo: uma massa amorfa, vurmosa e visceral flutuando nos gumes da escuridão, um filamento urticante carregado de nematocistos a disparar fisgadas sem sentido sobre instrumentos do nada. És o estômato obscuro, um buraco negro a engolir a podadura da própria substância; uma lenticela em vernação apodrecida pelas preflorações de um devir que não conduz a lugar nenhum. Oh Deus dos bestiários poligástricos, que te alimentas das naifas do vazio e digeres a tua nulidade em estômagos concêntricos, senhor das línguas veneníferas a cuspir os ganchos da consciência sobre a matéria: devolve-me aos lacraus de venábulo erguido, às aranhas caranguejeiras, aos nematódeos a corroer a carcaça do mundo, às anisópteras a expirar no dia em que nascem e ao molosso de cálcio por meio de zoopsias, porque ver o monstro é a única forma de suportar a antecipação do delito. Paralisa o meu ritmo cardíaco, essa pulsação blasfematória a insistir em adiar o repouso do pó, e arrefece-me a relha do sangue até que ele perca as valvas da memória. Extingue-me o sopro vital, de baixo para cima, apagando as células da glia do sistema nervoso como quem apaga uma vela de instintos numa sala deserta. Cobre-me a derme de bolhas, desfaça a minha individualidade em gangrena, mas antes… antes da dissolução total no lixo cósmico, deixa-me escutar os frenesis dos gagos. Deixa-me ouvir na sua fala trôpega a falência mandibular da palavra, a prova de que a incubação da linguagem é um desvio de sintaxe no silêncio incisivo da casa. Deixa-me ser o voyeur das cópulas dos percevejos-de-cama para contemplar a verdade nua e ancestral da existência: a adaga genital afiada a perfurar o abdômen da fêmea, a violência pura e mecânica a vincular a carne apenas para perpetuar as escamas da dor. O esperma em alvoroço, voraz e alucinado na corrente sanguínea, correndo freneticamente em direcção à proeminência aguerrida dos ovários para acender mais uma fogueira de consciência numa cabeça condenada à extinção. Olha, Deus, a esgrima grotesca dos hermafroditas, onde o perdedor, trespassado pelo pênis do outro, é condenado a carregar o fardo sacrílego das ovulações no dorso da repreensão: um escalador fisiológico compelido a parir a continuidade do próprio carrasco, um ciclo infinito de sobrevivência sem finalidade, copulando com os pés. Olha o coito suicida dos marsupiais Antechinus, que se desintegram em febre, úlceras e sangue no altar de um instinto de exoneração, provando que a vida coaxial destrói o indivíduo para alimentar a farsa da espécie. Deixa-me ver o louva-a-deus fêmea a arrancar a cabeça do macho, enquanto o tronco decapitado, um autômato de carne sem cérebro, sem alma e sem dor, continua a copular na sua grande arte mecânica e coalescente. Olha o pequeníssimo e confrangedor macho da aranha viúva-negra, entregando-se desarmado às presas da fêmea, trocando a sua existência insignificante por um arrebatamento de segundos antes de virar estrume. Sim, Deus, o que quero ouvir na falha, no lapso, na interrupção e no escoamento entre síncopes e dispneias verbais é o ruído da engrenagem do horror a partir-se. Quero ouvir a paragem feraz, o momento em que a ilusão existencial cede ao peso de coisa nenhuma. Oh Deus, por que nunca abandonas o teu receptáculo amorfo, bazófio e traiçoeiro? Porque nunca passaste de um túmulo de tufos, de uma memória fóssil impressa na pedra ignívora. Devolve-me ao silêncio das bandejas sedimentares, à apatia do basalto. Quero o colapso sem baque, a entropia pura onde o hidrogénio e o esterco se equivalem na tua musculatura tensa. Oh Deus dos ossários mudos, engole o fogaréu desta consciência que as minhas irmãs ergueram! Assimila a roçadura adiposa das nossas peles contra o teu falso infinito e deixa apenas o traço cego de um grafite. A nossa prece ruiu para dentro da sofreguidão gretada. O anfiteatro carnaz fechou as suas valvas. Agora, Deus… agora, mastiga os silêncios das coivaras e das piras que te sobraram diante das nossas bocas esmagadas. Tu nunca estiveste lá, nem com o velho dardo de caçador. Que miséria! És apenas o silêncio mineral da carniça que nos acaçapa, a prova arqueológica de que o universo começou no acaso e ao acaso regressará, indiferente ao nosso grito de consolo e asco. Oh Deus, a prece até poderá ser uma Ré-existência intemperística e ilegível. O marco zero da entropia verbal, gerada pela insurgência fragmentária de uma linguagem que já só sabe testemunhar a autópsia das suas próprias jugulares. Nela, o sentido último da histeria faz-se sangramento obscuro do rosto pela crueldade: uma ulceração semiótica a esponjar, sôfrega, um atractor iliofágico que devora implacavelmente o nexo das punções da febre, a excomunhão das palavras e a própria possibilidade do remorso de uma verdade à volta de um sacramento mudo. Diz a primeira ANCIÃ: a prece ocorre na perfusão herética do entre-dizer de uma graça. Um hiato sombrio da doação, uma turbulência intuitiva a implodir as falas do pesar, uma escuta agonizante de vocalidades desprovidas de referente diante do excídio. ELA ergue-se como uma in-verbalização espessa, uma afasia radical, um jorro de autotomias gramaticais pelo desterro irreversível do sentido dos flagelos quase-fora do mundo. Advém uma decifração desumanizadora esculpida por emaranhos nérveos de um pensamento em ruínas, a transportar palavras distorcidas, exaustas e transmudadas em flabelo constelar sobre a estranha sobriedade do silêncio absoluto. Mas diz-me, tu que és o cúmplice taciturno desta ritualização carnaz, oh Deus: se o estoma colossal da prece, para finalmente advir e rasgar a utopia do inteligível, terá que misturar terrificamente a meteorização de gritos inarticulados com os esbarros de incisuras do impossível? Terá ELA que recriar o esbulho total do vazio diante de uma catástrofe que aniquilou a própria faculdade de nomear as orfandades das coisas? Já não sei, oh Deus, se a minha prece cadavérica ainda pertence ao oculto do dizível ou ao cemitério das pugnas dos conceitos baptismais; contudo, há no meu rosto em desaparição uma fenda convulsiva de alguma solenidade. Uma ameaça ensarilhada a arrastar uma enunciação para o abismo do assignificante absoluto, deixando-a estéril e cheia de rasuras de nébulas pelo abandono-germinal da legibilidade. A prece, oh Senhor: tu que habitas a indiferença desse vazio em cauterização e que ignoras as tuas próprias esputações corporais e a falência erosiva do teu verbo; tu que desconheces as derrocadas violentas, as escassezes, as inocências entre os sentidos mortos e estranhos dos dicionários mais caóticos, nesses labirintos miscigenados por uma golfada de falas fosforescentes, mas perfeitamente vãs. Escuta, escuta! És uma deambulação de oblações inermes, um ruído de fundo no vácuo velado pela sordidez e pela desesperança. Sei que é difícil, mas aceita esta minha prece mutante, barroca, gótica, ondulatória, anorgânica, criptorreica, hifálica, esfomeada, acósmica e…morrente. Assimila o desarrimo do nosso enlace não como partilha de sentido da fidúcia e do desmazelo, mas como um respiro de incisões aporéticas face à morte peremptória do logos e ao azorrague terminal da linguagem pelo estribo do equívoco. Assim, a prece será impelida até ao limite extremo da saturação tautológica, vomitando desenganos contra cernes do ininteligível mais puro: ela é uma imagem de vertigens da fome onde o espelho do código se partiu, revolvido por rejeições e abjuramentos; uma resvaladura tectónica de signos irrefreáveis e caotizadores que nos atravessam a consciência sem nada endentar, que nos emaranham as obstinações das frases penitentes e nos fecundam pelas zonas de escarificação da pura arbitrariedade, onde nenhuma mensagem será guardada, traduzida e redimida, mas sim expulsa como um resíduo absurdo da oratória através de espiráculos e de araduras à volta da carcaça de um nome. A prece emerge de um movimento balístico para fora da zumbaia e da adulação, um desterro extático do compreensível; exsurge um animal desamparado a bater furiosamente contra a pertinácia das definições até rescindir, num estalo de entrosamentos, o osso meticuloso do sentido. A prece excreta a ilusão das modelagens dos ajuizados, indetermina-se no escombro do discurso, desliza no vácuo filológico, repete a eternidade no caos de um alfabeto morto, prismatiza-se em lascas de opacidade, coexiste com o monstruoso indecifrável, alucina-se no exercício da cegueira conceptual, dobra-se sobre os arrojos dos paradoxos calados, labirinta-se omnivoramente no crepúsculo niilista do espírito. ELA esguelha-se entre sombras respiratórias e propágulos devoradores de úlceras imutáveis; renasce com reincidências coléricas, caldeando a carniça da gramática com cãibras arteriais: a prece dá-se na anastomose cintilante, molecular, ádvena, exuvial entre o ressumbrar refractivo e o arroubo metálico da vocalização pela pia lentíssima da decantação. E através dela, o espírito, purificado pela destruição de todo o sentido, trespassará com trépanos da impiedade e da impureza o eixo-badeixo da fenomenologia. Diz a segunda ANCIÃ: a minha prece, oh Deus, deriva de silêncios calcificados da azulejaria pela voz estancada por ganchos coincidentes. Provém do bafo baço no epicentro do vidro como uma lâmina de sobrevivência a espelhar a imposição da glote, um hálito de apostemas que condensa, desbasta e corta pela cisma mais legítima. Há um ponto cego de alucinação pura, um delírio botânico à volta de um nódulo micorrízico, de filamentos subterrâneos e de hifas famintas que ligam o inconsciente carnal às fracturas candentes e tenebrosas da casa. Há um brilho absoluto, cruel e mineral da coisa em si, onde a têmpera da voz outrora sarcástica e fluida se cristaliza em ângulos retos, tornando-se uma morfogénese imóvel, uma petrificação do sopro e um abandono acerado e esculpido forçosamente pela geometria implacável do invisível. Oh Deus, quantas cinzas residuais, quantos detritos de combustão venial e quantos bacilos tegumentares proliferam nas tuas abóbadas em chamas, nessa atmosfera incapturável e esfinctérica a conflagrar em febre purulenta. Porquê tantas dores agudas pelo embaço, tantas cólicas isquêmicas salteadas pelo íleo, essa torção de acicates viscerais que drenam e retorcem o ventre? A prece por vezes acontece na tanatose encrespada a ressoar pelas facas do requinte. A prece desponta na agripínia mística e insone, onde as meninges fervem em líquido cefalorraquidiano infectado e os olhos lardos se tornam básculas pesadas de carne-viva, pesando a inclinação da dobradeira do nada. Outras vezes, a prece irrompe da aluição ensimesmada com um intermezzo violento e atonal do disforme pelo limiar da desambição do sono. Aqui-agora, a barreira ontológica entre o humano, o animal e o mineral colapsa, liquefaz-se e desaparece, gerando visões espessas de larvas, cracas e insectos rastejando pela abjecção da retina. Oh Deus, é com a negociata e o desfalque da prece pela abrasadura convectiva que as mãos se retorcem vinculadas à inobediência, ganham garras insanáveis e se cravam contra a acidez do solo, absorvendo o fogo arbuscular para sobreviver à secura crónica e desértica do espírito. O cigalho da prece alimenta-se do próprio arrasamento, cifrando-se com os testemunhos das bastardias: artifício digestivo, secreção entérica e carnífice sobre si mesma. Sacrifica-se na sua gambiarra traqueal, consome a baba gástrica do próprio cadáver em putrescência, deforma-me o rastro da língua e atrofia a vocação calcinante da gorja. Necrosa o ajuramento das gengivas e o rosto já entresilhado, transformando as esponjas da exageração numa peneira de arame farpado onde apenas o nó de carrasco do impossível sobrevive. Oh deus! O cadafalso da prece e a laringe embaraçada desferem uma incisão cirúrgica, sem anestesia, nos esporros refractivos do real. Elegem um grito amniótico amputado, o esgar dos magnetos uterinos e um refreio soberbo e pré-verbal a entregar a minha cabeça decapitada à clareza morta, asséptica e linear do teu léxico, sempre manejado por cavilhas da zoofagia. A prece mastiga carvão ativado, óleo occipital, gânglios de artesãos, sal grosso de chocalhos e os exsudados serosos de feridas abertas por pontadas de renúncia e desarrimo pelo ancho da ignomínia. Ao devorar-se ritualisticamente, a prece esculpe uma ecdise anorgânica: abandona a casca humana, a queratina da cavilação e a epiderme encobertada das palavras para renascer como pura ruína soberana: uma crisálida de estilhaços pelo rebolo dos despojadores, entre oximoros em acrisolamento. A extremidade da prece sofre o impacto mecânico e balístico do choque verbal, reverberando as suas esquírolas. É zurzida por voltagens eléctricas, forçada a uma dança pavorosa e espasmódica sobre um alfabeto de engrenagens celibatárias que giram em falso pelos êmbolos da cabeça das ANCIÃS. Dizem: a prece passa-se no campo de batalha absoluto, na paridura molecular e violenta onde o carnivorismo da linguagem e os assombros do corpo sofrem uma mutação terminal, um esgalgamento da sintaxe. É uma lâmina impetuosa pela traçadura do insonoro, um sulco de silêncio em contrição que desvia a sânie do rosto e a cabeça da ANCIÃ do alvo do cutelo divino. A prece dimana de uma forja de carne incandescente e metalúrgica, feita para expor as veias do vácuo anatómico pelo arrebatamento dos galhos dos golpes, onde o gaguejo do nada pneumático e pneumatológico, existente por trás das palavras ocas, absorve o simulacro intransigente dos bichos mortos. A prece descende de um germe de nervos revelados no asserto dos desvarios da cegueira e nas rilhas das gárgulas. É um feixe nervoso pelas córneas mais obsoletas, um ciático a sofrer torções de áscuas, fendas de escoras e descargas de alta tensão, onde o próprio rosto das ANCIÃS se desmancha em matéria disforme e polpa biológica. A substância física da voz abrolha como uma captura de volutas blasfémicas e roubos das brânquias do tempo, vibrando desesperadamente com síncopes ilegítimas antes que o signo dos artífices aborde, destroce e aprese o sentido na impuridade dos encéfalos dicionáricos. Há uma velocidade ínfima, quase imóvel, e um sobressalto do imperceptível pelo acaso da prece a atravessar as falanges turbulentas das ANCIÃS, gerando fragmentações estocásticas, lascas de probabilidade imaculada e o ruído alvejado de uma inflorescência em devastação. A percussão do erro rigoroso e a falha monádica tornam-se roçaduras criadoras, incisões de pele, onde as guelras da prece emergem pela exsudação do intolerável e pelas lajes do infactível. Oh deus, a minha prece perante a tua soberba hulha tubulosa, pelo alumbramento da amaurose, cresce como fungo em decomposição sacrílega, bolor da asseidade numa parede de apêndices de masmorra. A correnteza das salmouras fétidas da prece desfigura a ANCIÃ até que não restem angulações das emboscadas rezadeiras, nem nome metalúrgico, nem xilemas identitários, nem fidúcias de registos civis; sobra o ritmo terrífico, maquinal, dos rascunhos da crueldade a extrair o som das mesuras verbais pelo espelhamento inverso da pele arrancada à sua própria insolência. A prece impulsiona as envolvências jazzísticas, os delíquios ímpios, as polirritmias da vanglória e as improvisatas rapinadoras até ao limite irreconhecível de uma fenda sináptica esgotada, demudando cada grito pela encruzilhada palustre, aquela que se cria e se destrói num ápice de estragos através de parataxes desejantes, vergastadas sem conjunção e puras pulsações de carne em transe. Recebe a minha prece axiológica, oh deus, feita de restos genéticos, de lixo hospitalar, de secreções infeciosas, de assolações já sagradas e de esfoladuras vivas pelo envilecimento dos justiçosos. Há uma cabeça etológica rés ao lenho da carnificina, um instinto animal ancestral e raivoso com diademas de comiseração, e fluidos gástricos corrosivos entre os destroços do teu tira-teimas em queimação litúrgica, fazendo das autarcias da prece uma peleja brutal de peristalses sangrentas a vomitar os pesares pertinazes do verbo. A prece tenta, ironicamente, pinçar o cingel da agiotagem, o levedar das fúrias e o esbulho do alógico pleno da acosmicidade, mas as palavras abortam com contumácia no útero da boca. Estancam-se em torno de uma úlcera-do-inescrito, uma ferida punctória, avulsionada, incisa e apodrecida, onde a perfídia do sentido se esvazia e a matéria bruta da voz da ANCIÃ aparece com todo o saque e truculência, como um eco devastador do avesso: um grito projectado no espaço das sombras calcinadas e dos esgotos a ostentar guirlandas igniscentes. A carne, enquanto forma humana e simétrica, é completamente renunciada contra o ferino influxo das limalhas de qualquer desígnio. O útero abíssico e canibal abriga o benzido terrível dos excessos a dimanar inscrições de aporias feitas por escrópulos masturbados pela primeira ANCIÃ. A prece advém de uma suspensão radical do juízo; a abastança vocabular e a riqueza esbraseada dos glossários acontecem imoladas pelos lastros das inferências aleives. Aqui-agora: uma ANCIÃ tenta afirmar a soberania do anónimo, do inominável e do animalizante contra o teu poder panóptico, oh deus das edacidades, da torpeza e da rendição. A prece é uma transmutação metabólica, uma glicólise anaeróbica, uma lucidez imaterial que se torna esponjosa, propensa, absorvendo o horror das obediências e dos ultrajes sem os filtrar por qualquer crivo teológico, transformando a enunciação da queda da cabeça mais absorta em fluido gástrico e seiva vegetal deletéria. É uma aleturgia crua da abjuração manifestada como uma golfada micelial, falqueando venerações e acaçás dos oragos. É a aceitação final de que a fala humana rebenta de um artefacto fúngico e de um parasita de oblações a infectar o balanço defectivo da razão, decompondo a minha própria cabeça, oh deus, para alimentar a criatura cega a coexistir no fundo gérmico e proditório da ferida. A prece levanta-se de uma escuta sobalçada e atenta do enrolamento fascinado das gavinhas pelas tenacidades e derruimentos dos caules, entre autofagias acústicas e ruídos surdos de soterramento das palavras. Há um impacto fervoroso, duro, metálico e oclusivo entre a traqueia dissidente a colapsar e o basalto impenetrável do teu silêncio de ídolo de pedra, a esquivar-se covardamente perante o ressumar do extermínio. Oh deus, entrego-te a prece perseguida e arrancada fora dos hinos do jubilado, desviada das liturgias da serventia, afastada dos compassos das sentenças e dos cânticos jugulados. Aufere o líbito, o ardor, a luxúria e escuta este estalo pulmonar com repúdio: o som do alvéolo da persecução e da ofensa que se quebra e implode sob o peso esmagador dos aferros da expiação.
Recebe a fricção abrasiva pelo esquecimento das carrancas latejantes a lançar água fervente em torno de uma catedral de vidro, fissurando de alto a baixo todas as objurações e rogatórias pelos víveres do medo e do pavor. Por vezes, a prece abrolha de uma hesitação altiva e infraocular profunda, uma voltagem directa no nervo severo de onde brotam as voracidades da dor, enquanto a saliva espessa dissolve a mordaça química do visgo, simulando, na falsa abastança, um escombro respiratório: um sufoco mecânico na garganta perfurada por uma agulha magnética oculta. A prece advém sugada pelos rudimentos do vácuo antes mesmo de se conseguir tornar voz pelo deslustre; ela é o exacto ponto de purga e de vómito do sentido pelo embaraço da vergonha no acolhimento de uma insana impugnação da anciã, entre a bajulação infida e os percalços de uma possível complacência diante de um surgidouro de resgates apócrifos. sobrevive a atenuação cruel da vassalagem pela trajectória do desarranjo géstico de uma anciã ainda com labéus a gotejar sobre o desprezo de Deus! Oh prece execranda e funérea, escava os ofícios do chão sob a impenitência dos meus pés, exila-me da tua língua materna, deixa-me desterrada e coloca-me, viuvinha sem remissão, pelas entranhas escuras de um hospedeiro traidor: um verme acintado pela pirraça implícita que se alimenta da minha fiança e bonação, a drenar colheitas arteriais com precisões reincidentes da negligência. A prece emana de uma vala profunda e maldita escavada no chão rugoso, camuflando-se com folhagem podre e preenchida com estacas empeçonhadas no fundo para aceirar a capitulação; é o precipício do esquecimento absoluto projectado para empalar a ineptidão do futuro, triturar os torneios das perspectivas e travar o riso impassível do tempo. A prece descende de um ponto de saída anatómico obstruído pela acumulação de detritos, de coágulos exclusos e pela beleza espadada do horror, forçando o som da temeridade a ranger, a rasgar por entre as anorexias dos palatos duros e cruentos. A prece decorre de um atractor acústico, de um antro sombrio da língua a desabar para cima, em direção ao firmamento do descaso, pululando justamente em imagens puramente escarradas pelas genealogias do verdugo a destilar com aceitações da sandice e da toleima. A prece insurge das uvalas, dos poljés e das dolinas mais escarpadas. Dizem: invasão dos vasos e dos nervos num órgão-palavra hipertrofiado e tumoral, onde o esgotamento luteínico absoluto impede a oxigenação dos gestos mais simples, induzindo o restalho do corpo, o esmero da alma, a cacimba tortuosa da sintaxe e a anciã à catatonia final, ao rigor mortis da linguagem perante um trono de cinzas e de um deus com treponematose. A prece fere a placa córnea da prefacção inassimilável através da ponta-seca do acirramento demoníaco. A prece dá lugar à suspensão do sarrafo do ilegível sem nunca se deixar capturar pelas incertezas do abrigo do sagrado; ELA recusa o acervo da transcendência para se fixar na devoração da carne. A prece incide de uma engrenagem dos dentes a exonerar mercancias com hieróglifos bebedores da desumanização; é uma moagem aforística pelas extremidades das palavras em zonas de falha gnóstica até perderem a sua sanidade inédita, reduzindo a memória histórica a um pó brilhante, a uma poeira hialina da escatologia que flutua entre os gestos das anciãs. A prece calha no ritmo espasmódico de uma língua quase trancada que se move, retrai e explode por urgência genética em resposta ao toque cego dos insectos na epiderme luciferina do pensamento. A prece sobrevém de um instrumento de ultimato e omnipotência pelos buris do escândalo à volta das microfísicas das fendas silábicas, pinçando o indizível nas suturas delicadas do esquecimento para fixar a imagem exacta da ANCIÃ antes do seu deslizamento lamoso.
A terceira ANCIÃ tenta desmantelar Deus, pensando em Kazimir Malevich, aceitando o fracasso pela ressurreição parietal. Outras vezes, a prece torna-se uma ferramenta de hemostase a travar o último suspiro do animal com asas de anjo, estancando os refrulhos melismáticos pela gravitação furibunda de um espelho, onde cabeças das ANCIÃS atingem a voltagem salífera por meio de uma fala vagarosa a traduzir o limbo gutural da desolação. A prece acontece na regurgitação fúngica pela feitiçaria vortilhonada; é um fluxo violento da matéria verbal submetida a tensões termodinâmicas e abalos de madrepérolas dentro da boca descarnada. A primeira ANCIÃ, com todo o desprezo, quebra deliberadamente as concordâncias lógicas e as submissões da gramática, empilhando desafios movediços nas preces enquanto mastiga restos de manjeronas. Eventualmente, a prece irrompe como um grão estéril roçando no osso carcomido e desvendado diante de uma farândola em desidratação. A prece advém na voz fingindo-se de arcabouço entre a loucura furiosa, a demência cínica e o delírio engenhoso, conjuntura na qual a pele emaranhada da língua se torna uma substância resinosa, colante, asfáltica, utilizada como mordaça química para colar o grito às tonsilas da anciã, interrompendo o sopro originário e sabotando a transmissão oral como um cometa da intimidade carregado de lápides. A prece assoma-se na voz granulosa, rés à tisana dos dentes, sem vibração das cordas vocais, nascida do atrito das cartilagens dos mortos. É a pressão máxima de ar expelida com secura cortante; é a projecção limite, voz ríspida, violenta, metálica e estéril; é o silêncio irrestrito que se segue ao travamento muscular involuntário; é a luz que começa baça, lilás-carbono, focando exclusivamente na oferenda oculta da laringe a atalhar, estrangular e proteger o eco do grito de evaporar-se no vácuo. A prece sucede de uma boca atómica carregada de fluxos viscosos, detritos psíquicos e estilhaços anatómicos a enterrar os dedos agarrados das anciãs ao cinzel dos desaparecidos: dedos a imitar, no seu esclerosado rigor, as quelíceras de um escorpião-amarelo-do-Nordeste em agonia. A prece insurge no som da roldana de um tear a girar ao longe, na obscuridade de um sobrolho abandonado; há uma topografia de suturas cardadas pela sagacidade, onde cada poro é uma contraversão energética a esmagar as bordas de um grito em brotação dérmica. A prece desponta no ponto de luz focado na cal viva da anomalia, onde o indecifrável exsurge na única claridade suportável entre tambores dos massacres e a mordaça dos coveiros diante da putrefacção. A prece constitui uma desconstrução neurológica a sangrar empoeirada pelas espumas das purgações. Uma lobotomia fonética a falar com os mortos. A prece acontece na fronteira patológica a autodevorar-se e a apagar-se por meio do contacto exacto entre o pensamento animal e uma tiflose espontânea, exercida para ver com a ponta dos dedos as rugosidades e as arestas de uma omnisciência em interrupção. A prece desponta de um exercício de crueldade atilada, uma delicadeza déspota que se sacrifica para uma voz ganhar rigidez granítica na mutação e na aceitação do sofrimento, transformando a bafagem da ferida, a dor crua em estilo e gravitação dérmica pelas órbitas da vergonha. A prece arrebenta de um falhanço em processo pelos cantos cortantes e espélhicos dos achaques dos sepulcros a transbordar sangue em torno dos açaimes da cronografia, mantendo o enigma intacto sob a pele petrificada a ceder à coagulação dos manuscritos de quem morreu. A prece não espera que a dádiva morra para se empedernir: ela costura, grampeia, drena e encharca a tremura da língua, transformando o fluxo verbal numa incubadora parasitária para larvas arregaladas do sentido da ira. A prece torna-se uma denteação disfórica a rasgar as membranas cuticulares da consciência, forçando a mente em decomposição a uma plasticidade traumática; ELA advém do cozimento distorcido e da metabolização abjecta das ruínas de uma cultura logocêntrica. A prece lasca-se, racha e rendilha-se como vidro temperado e cheio de ódio. Cada vocábulo expulsa fragmentos de sentido e detritos do córtex cerebral, reduzindo o pensamento a um estado de elasticidade saprófaga. A prece masca a ossada das palavras ritualizadas para libertar as forças abruptas do inconsciente pelo silêncio da carne do enunciador. ELA cinzela uma úlcera suada na visão e passa a ver com as falanges das ANCIÃS ocultadas por apuros arreganhados da infâmia, esticando até ao limite o fundeadouro do grito entre falhas intermitentes e curtos-circuitos das sinapses. A prece desabrocha da remoção axadrezada de uma parte do corpo, transformando a excrescência das bastardias em migrações de renúncias absolutas diante de uma língua órfã. A prece germina de uma histerização intrusa dos lapsos pela falha de pronúncia, do gaguejo, do hiato e do esquecimento a sangrar indiferente dos deuses. A prece desponta de uma paridura-lodo pelo redemoinho de uma existência que se fez puro escoamento, detrito e secreção como uma rede descentrada, molecular, rizomática e em constante estado de mudança, sabotagem e fuga a instaurar um território de encontros monstruosos e imprevisíveis. Oh deus não te entrego o meu ego fragmentado e meu EU-esforço de causa-incausada; mas a prece que vem desabaladamente dos poros e das fendas da mão esfolada, agindo como uma eclosão verbal anónima, um esporo de sangue a rebentar na minha cabeça, o grito mineral da própria matéria. Há algo que jamais te entregarei, oh deus! A loucura que estaca meu estado solitário, a minha rosácea respiratória, a minha briNcolage e o meu suicídio pelas tracerias góticas. Faz um contralto e um mezzo-soprano com colapsos bioquímicos por baixo de cúpulas invertidas e de arcos colossais e nunca te esqueças que na linha de produção da morte, toda presença estranha é desfeita. Sob os ganchos do abatedouro, a carne perde o nome e o rosto, tudo vira carne carmesim, todos os cadáveres são isomorfos. Oh deus! O corte final desfaz qualquer traço diferenciador, as adjacências e os arrebaldes, desaparecem, o único é completamente excluido.
Repercutem as ANCIÃS já roufenhas: Oh deus! Para o cutelo carcaça é carcaça, não existe carteirinha; somos todos o mesmo naco, a mercadoria homogênea no renque da sangria. Sim, a lâmina no matadouro desfaz qualquer traço que nos distinguia. Oh deus, desce como um anjo enviesado, mas antes, expele toda a repugnância sobre a tua imagem fraudulenta. Silêncio…oh Deus!
In: Obra Poética , Luís Serguilha
Luís Serguilha, poeta, ensaísta
Luís Serguilha nasceu em Portugal e nos últimos anos percorreu algumas geografias da América do Sul. É poeta, ensaísta e curador de arte ibero afro americana. Publicou 17 livros de poesia e ensaio: Kalahari, Plantar rosas na barbárie, Falar é morder uma epidemia, os esgrimistas de Á-peiron, Hamartía e ACTRIZ ACTRIZ – o Palco do Esquecimento e do Vazio são os títulos de alguns dos seus livros. Em 2022 publicou o 1 volume da sua obra poética no Brasil. Em 2024 e 2025, publicou os volumes 1 e 2 da obra poética em Portugal pelas Edições Húmus. Radicado no Recife, criou a estética batizada como Laharsismo, estudada em Universidades. Recebeu os prêmios Hermilo Borba Filho e Júlio Brandão ambos da área de Literatura. Tem sido convidado por institudos e várias universidades ibero-americanas para conversar e ministrar conferências sobre os seus ensaios-criativos, envolvidos por atractores estranhos, que atravessam corpo-arte-pensamento-poesia.










