
A saga na voz interior de um angolano comprometido com a história do seu País.
No início do ano passado, o escritor angolano John Bella lançou em Luanda, sob chancela da angolana Editora das Letras, o romance intitulado “Os Passos Decisivos da Raínha Njinga Mbande”, depois de já nos ter brindado com “Os Primeiros Passos da Raínha Njinga” e “O Regresso da Rainha Njinga”, dois livros publicados em Portugal pela mão da editora Cão Que Lê, e que retratam a vida e saga da soberana do Ndongo e Matamba (dois dos vários e antigos reinos que estavam localizados no espaço territorial da hoje República de Angola).
Numa breve resenha sobre a protagonista do romance de John Bella, importa realçar, a título introdutório, que a Rainha NJinga Mbande (1582-1663), foi, como frisámos acima, uma soberana dos Reinos de Ndongo e Matamba, entronizada em 1623, tendo reinado até ao fim da vida; numa governação que durou cerca de 40 anos, caracterizada por um histórico dedicado à luta, em defesa do seu território, do seu povo, da sua soberania e cultura.
Comandou com tenacidade a guerra contra a expansão para interior da actual Angola, das forças coloniais portuguesas, vencendo e perdendo batalhas, sem nunca ter perdido a guerra. Nunca sentiu o travo amargo da subjugação. Morreu uma mulher livre, no seio dos seus súbditos.
Destacou-se, não só como soberana carismática, mas também como estratega astuta, vencendo as adversidades que a conjuntura da época lhe impunha, usando táticas de guerra, de espionagem, ou ainda reunindo esforços, por via da mobilização de outros reinos numa luta que, ao fim e ao cabo, era comum. O exemplo dessa liderança aglutinadora ocorreu no período que vai de 1635 a 1648, onde organizou, sob sua liderança, a II coligação formada pelos Estados da Matamba e Ndongo, Kongo, Kassanje, Dembos e Kissama.
Seus ensinamentos foram abraçados, mesmo após a sua morte, como prova a reactivação da II coligação em 1680, comandada por Ngola Kanini, rei da Matamba, já após a morte natural da soberana.
Njinga Mbande se destacou também como grande negociadora e diplomata, tendo começado a evidenciar-se quando, em 1622, chefiou uma delegação na qualidade de emissária do seu irmão Ngola Mbande, que foi recebida pelo Governador português João Correia de Sousa, tendo, na sequência, aceite ser baptizada, adoptando o nome europeu de Ana de Sousa. Na circunstância, foi apadrinhada pelo próprio Governador Geral. Entretanto, anos depois, viria a redireccionar estrategicamente a sua aliança, com os holandeses, na luta contra o poderio português, quando estes, em 1641, tomaram a cidade de Luanda e encurralaram os portugueses na localidade interior de Massangano.
Após a morte de Nzinga, em 1663, ela tornou-se sem dúvida num dos grandes símbolos de resistência militar e cultural contra o domínio colonial português, sendo actualmente uma heroína orgulhosamente aclamada, não só pelos povos angolanos que descendem dos reinos em que a soberana governou, mas também por todos os angolanos de Cabinda ao Cunene, e pela África em geral.
A ESPINHOSA, PORÉM GRATIFICANTE FRONTEIRA ENTRE A CRIAÇÃO ARTÍSTICA E A PESQUISA HISTÓRICA
A criação de uma obra literária depende de um conjunto de circunstâncias que impulsionam o acto de escrita. Tratando-se de um romance histórico, John Bella apresenta-nos uma narrativa ficcional dos factos históricos na estruturação do seu enredo, onde os elementos históricos merecem destaque. Porém, como ele próprio afirma no preâmbulo do seu primeiro romance “Os Primeiros Passos de Njinga Mbande”, não se trata de um documento rigorosamente histórico e muito menos um compêndio de história. Nota-se um comprometimento de John Bella em não se afastar da literariedade, buscando estabilizar por via da aposta por um texto de fruição, provavelmente na perspectiva dos argumentos de Roland Barthes, in “O Prazer do Texto”.
Mas, é importante aqui realçar, o comprometimento do autor na “causa Njinga Mbande”, porquanto sente-se perfeitamente o seu mergulho nas profundezas apaixonantes da pesquisa desta matéria, levantado bem alto a bandeira do princípio “quem corre por gosto não se cansa”. Seu percurso radica nos finais dos anos 80 e estende-se até à presente data, destacando-se nesse interim, nas buscas intensas por fontes escritas, quer no Vaticano; nas visitas à Torre do Tombo, em Portugal; no Brasil e no Arquivo Histórico Nacional de Angola.
Ainda assim, John Bella não se coibe de beber humildemente do saber de muitas personalidades investigadoras da vida e obra de Njinga Mbande e com este manancial, fazer o cruzamento da informação.
Mas John Bella não se conformou com estas fontes que são sobretudo escritas, ele teve contacto directo com o eixo territorial Luanda, Kuanza Norte e Malange, buscando encontrar os locais por onde esteve e passou a rainha, para sorver daí e estar em contacto com as fontes materiais e sobretudo as fontes orais.
No que diz respeito à fonte oral, permitam-nos resgatar duas das classificações efectuadas pelo pesquisador, linguista e missionário protestante suiço, Heli Chatelain, sobre a literatura tradicional angolana, que são as ma-lundas, histórias consideradas segredos do Estado, que os plebeus apenas conhecem pequenos trechos, os sagrados tesouros da classe dominante ou os mi-sendu, que são crónicas da nação ou tribo, cuidadosamente guardadas e transmitidas pelos chefes ou autoridades tradicionais (Sobas) ou anciões de cada unidade política, cuja origem, constituição e vicissitudes elas relatam. Certamente, no seu percurso investigativo, John Bella ouviu as “ma-lundas” e “mi-sendu” dos sobas, de anciões e colectou as histórias passadas de gerações em gerações, pelo povo que descende da soberana.
A IMPORTÂNCIA DA FONTE ORAL NO ROMANCE DE JOHN BELLA
As fontes históricas são registos de suma importância para a realização do trabalho do historiador ou pesquisador equiparado, na medida em que a produção do conhecimento sobre o passado do homem só é possível por meio do trabalho de análise e interpretação desse passado, por via das fontes históricas. Ora, a principal fonte que que sempre constituiu a pedra angular das pesquisas sobre Njinga Mbande, foram, sem dúvidas, de natureza escrita.
No caso vertente, destacamos algumas figuras que se envidenciaram nesse processo, com destaque para as crônicas de António de Gaieta, Padre Capuchinho, originário de Itália; o Padre Giovanni Cavazzi de Montecúculo, considerado seu biógrafo, também italiano.
Note-se que grande parte das informações sobre a biografia de Njinga emanam da obra “Descrição Histórica dos Reinos do Congo, Matamba e Angola”, de Caravazzi. Por seu turno, António de Oliveira Cardonega, português, que escreveu “História Geral das Guerras Angolanas ” também faz parte desse selecto grupo de escribas da história de Njinga Mbande, bem como o próprio governador português Fernão de Sousa.
Entretanto, existe algo em comum nesses quatro cidadãos: são todos europeus e cristãos. Tinham uma visão e cultura ocidental e estavam todos imbuídos da necessidade de civilizar e cristianizar a África, independentemente da natureza dos seus seres e dos propósitos colaterais. Portanto, não houve nenhum relato escrito por africanos, no qual exprimissem os seus pontos de vista, na base da sua cosmovisão. Esta grave lacuna impõe que a fonte oral, hoje, deva ser profundamente explorada, para que se possa colmatar todas as brechas da história, tornando-a mais equilibrada, mais isenta e mais ao encontro da verdade.
John Bella, nesta obra, expressa também o lado africano, numa espinhosa missão, em razão da necessidade de adopção de uma metodologia de pesquisa, com entrevistas/depoimentos, tendo em consideração a tradição oral, que depois são cruzados com as fontes escritas. Com a introdução do lado africano, as gerações vindouras têm a possibilidade de conhecer os feitos dos nossos antepassados com a veracidade mais equilibrada.
Com efeito, o autor da obra mostra esta preocupação, abrindo alas para que mais investigadores tenham a coragem de enveredar por estes caminhos. John Bella cita no início do livro Patrice Lumumba, mártir político Congolês, que disse (…) “Um dia os africanos contarão a sua história… Julgo que John Bella está a seguir essa premonição”.
ANÁLISE À NARRATIVA DE JOHN BELLA
No caso em apreço, o autor narra-nos acontecimentos que decorrem do período que vai de 1629 a 1641, pouco mais de uma década. Este perído decorre três anos após o Exército de Njinga Mbande ter sitiado a Feira de Mpungo a Ndongo, colocando Hadi Kiluanji, líder local, vassalo da adminstração portuguesa em apuros.
Entretanto, foi em 1629, que a rainha Njinga Mbande, retira-se das Ilhas do Kuanza, seu santuário, e alia-se por via do casamento ao Jaga da Matamba. Foi nesse mesmo período que as suas irmãs são capturadas pelos portugueses. Um duro golpe, que não a fez parar de lutar. Na sequência, foi também nessa fase que Njinga Mbande consegue unir-se contra os portugueses, na grande coligação com reinos vizinhos, que acima já nos havíamos debruçado.
O final do ciclo relatado pelo autor é em 1641, coincidente com o ano que os holandeses iniciam a ocupação de Luanda, durante 7 anos, numa aliança com Njinga Mbande.
Outro elemento a ter-se em conta tem a ver com o facto de Portugal, neste período, estar sob a governação de D. Filipe I, Rei de Portugal desde 1581 e Rei de Espanha desde 1556, onde reinava como Filipe II, e assumia simultaneamente as duas coroas. Uma fase menos boa da história de Portugal, que culminou com o golpe de Estado restaurador da independência, em 1 de Dezembro de 1640, e colocou no trono o Rei D. João IV da dinastia de Bragança.
Numa perspectiva analítica técnica, o narrador, sem quebrar o tempo cronológico, descreve o ambiente não só em terras angolanas, mas também em terras portuguesas, espanholas e no Brasil, lembrando-nos a rota onde se desenvolvia o comércio triangular.
No caso das terras angolanas, apresenta o ambiente vivido não só em Luanda, mas também nas possessões de Njinga sobretudo nas várias regiões do corredor do Kuanza e Mbanza a Matamba, Kazua Ngongo, Kilombo kia Puto etc, fazendo com que as acções tenham vários momentos ou episódios, de sequências narrativas que se vão organizando entre si por encadeamento, encaixe ou alternância.
Na delimitação da acção a narrativa de ‘Os Passos Decisivos da Rainha Njinga’ é aberta, na medida em que o destino final das personagens principais não é revelado. Aliás, no início do livro, o autor promete-nos um quarto livro.
Nas sequências, encontramos momentos de avanços, de recuo e de pausa, momentos informativos de tempo e do espaço e momentos que permitem antecipar conclusões. Quanto às personagens que tomam parte da acção, destacamos a recriação de figuras da história angolana, onde Njinga Mbande centraliza as atenções, com os seus guerreiros, mas também os seus grandes antagonistas, como Fernão de Sousa, Paio de Araújo Azevedo, Bento Banha Cardoso, entre outros.
Relativamente aos modos de expressão, chama-nos a atenção o facto do narrador provocar uma ruptura do clássico texto narrativo, sobretudo em períodos de descrição, criando verdadeiros textos líricos dentro da descrição, pintando quadros poéticos no seu processo narrativo. Este processo forma verdadeiros oásis de densidade metafórica e linguagem fortemente conotativa caracterizada por processos literários de enriquecimento do texto, sem prejuízo dos versos que são encaixados ao longo da narrativa.
CONCLUSÃO: Com mais esta obra, John Bella segue a sua saga no cultivo do romance histórico e coloca-se no areópago dos pesquisadores comprometidos com a história do seu povo, a bem da Nação angolana.
Bendinho Freitas Miguel Eduardo nasceu a 25 de Maio de 1971 em Luanda. Jurista, licenciado pela Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto UAN e Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Recursos Humanos, pela Católica-Lisbon School of Business and Economics e Universidade Católica de Angola.
Foi Professor, tendo leccionado história em escolas secundárias de Luanda e Língua Portuguesa no Centro Pré-Universitário da mesma cidade. É funcionário público, quadro do Ministério da Energia e Águas, onde exerce o cargo de Director de Recursos Humanos.
É membro da União dos Escritores Angolanos (UEA). Publicou os livros “A Pitoresca Etnia das Palavras”, poesia, edição da UEA 2016 e “Silentes Vozes d’Árvores, poesia, edição da Mayamba Editora 2019.
Para além de trabalhar a poesia, dedica-se, paralelamente à produção da prosa, com colaborações ocasionais nos jornais angolanos, onde publica crónicas, contos, ensaios e artigos de opiniões.












