Cultura

O triste fim dos vampiros | Hermínio Prates

imagem: sebo nova floresta

Amigo leitor, já não é necessário proteger portas e janelas com réstias de alho e nem o pescoço com cruzes, bentas ou não. Os vampiros estão extintos pela desmoralização cinematográfica. Da Transilvânia, região de montanhas, castelos e vilas medievais, residência de Vlad III, o empalador (1431-1476) e líder romeno que inspirou o surgimento dos temíveis sugadores de sangue, até à apropriação do terror por Hollywood, a mística foi desfeita.  Os seculares vampiros estão mortos, sepultados e com o peito atravessado por uma estaca de madeira. E, como nos ensinaram os filmes de Hollywood, de Londres e a literatura de sustos sob encomenda, se ele sequer ousar abrir a tampa do caixão será fulminado pelos raios de sol de uma manhã radiante. Todos sabem que a luz do dia incandesce os sugadores de pescoços e os transforma em montículos de cinza. E babau para a eternidade renovável com o sangue dos outros, quase sempre de donzelas em flor.

 

O bem pensante Zé da Guga, filósofo das misérias humanas, advoga a tese de que há vampiros e vampiros. Ele lembra que em era remota, quando os antigos contavam e recontavam lendas, os vampiros dominavam as trevas, não respeitavam barreiras físicas e nem refletiam a imagem nos espelhos. E tome crucifixo, hóstia consagrada, água benta, réstia de alho e estaca fincada no peito deles, única forma de exterminá-los. Assim nos ensinaram Peter Cushing (1913-1994), Christopher Lee (1922-2015) e John Carradine (1906-1988). O primeiro vampiro teria sido Nosferatu, um grande caçador na era do gelo, que foi morto e transformado em vampiro pela filha do amaldiçoado Caim. A bobagem é bíblica e a verdade é que ele mudou de nome e visual pra disfarçar o plágio à obra de Abraham “Bram” Stoker (1847-1912).

 

Na Mesopotâmia e Suméria temeu-se o filho de Lilith, confundido com Incubus. E como o Egito tem história antiga, dois eram os senhores das trevas: Sekhmet e Khonsu. Mas o pai da vampirada, com respaldo da cultura do terror, é mesmo o Conde Drácula, aliás Vlad III, príncipe da Transilvânia no século XV, que estranhamente só viveu de 1431 a 1476, o que nos faz duvidar de seu status de vampiro. Ou então não há imortalidade, nem mesmo para eles.

 

No cinema Nosferatu, no filme de 1922, obra de Friedrich Wilhelm Murnau (1888-1931), mais conhecido como F. W. Murnau, foi um vampiro feio, esquálido, mas sedento de sangue; história refilmada em 1979, com o título “Nosferatu, o vampiro da noite”, direção de Werner Herzog (1942-). Na descendência das telas surgiram chupadores elegantes, bem vestidos, senhores de castelos e possuidores de inexplicáveis riquezas. Eram nobres ou quase, mas sempre cruéis e hipnóticos.

 

O modelo cansou, perdeu fôlego na indústria do entretenimento e os debochados Rajmund Roman Thierry Polanski (1933-) autor de “A dança dos vampiros”, de 1967, Mel Brooks, nome artístico de Melvin James Kaminski (1926-), com “O jovem Frankenstein”, de 1974, estrelado por Gene Wilder – batizado Jerome Silberman (1933-2016) – subverteram todo o imaginário do medo. Até o gaiato Leslie William Nielsen (1926-2010) foi escalado para desmoralizar de vez a saga dos tenebrosos, com o filme “Drácula – Morto, mas feliz”, de 1995. Os filmes de terror se tornaram filmes de “terrir”. A reviravolta para recuperar o prestígio dos dentuços começou com o filme “Entrevista com o Vampiro”, de 1994, onde desfilaram demônios da noite que mais seduziram que espantaram. As mocinhas, então, suspiraram ansiosas por uma mordidinha nos tenros pescoços pelos charmosos Tom Cruise, Brad Pitt e Antonio Banderas. E os demônios da meia noite ganharam até versos safados na música “Doce Vampiro”, criação de Rita Lee (1947-2023) e Roberto Carvalho (1952 -), composta pelo casal em 1977, quando ela, mesmo grávida, foi presa pela ditadura.

 

 E agora, na frenética corrida pelo domínio da virtualidade, com as crenças modernizadas, os vampiros são adolescentes, bonitos, amam e transam e nem se preocupam com os raios do sol, pois o sangue artificial que corre em suas veias lhes permite muito mais, inclusive vida diurna. O novo filão, explorado pela escritora americana Stephenie Meyer (1973) – acusada de plágio por Jordan Watson Scott (1977 -), filha do diretor Ridley Scott (1932 -) autora de “The Nocturne” -; e os filmes nela baseados tem até lobisomem apaixonado. A indústria das telas gerou bons e maus vampiros; os bons amam e protegem as belas, os maus guerreiam os bons e estupram as bonitinhas indefesas.

 

John William Polidori (1795-1821), escritor e médico, criador de Drácula, em 1897, autor do conto “O Vampiro”, um dos primeiros publicados em inglês, é considerado o pai da literatura com vampiros e muito influenciou o irlandês Abraham “Bram” Stoker.

 

Os morcegões das trevas existem mesmo? No seu “Dicionário Filosófico” Voltaire – François-Marie Arouet (1694-1778), historiador, filósofo iluminista, crítico mordaz do cristianismo e da escravidão, escreveu que “os vampiros eram corpos que saem das suas campas de noite para sugar o sangue dos vivos…” E Jean-Jacques Rousseau (1712-1773), em carta ao arcebispo de Paris, garantiu que “se alguma vez existiu no mundo uma história provada e digna de crédito, é a dos vampiros”.

 

Em bom argumento, o filósofo, economista, historiador e sociólogo Karl Marx (1818-1883) comparou o capitalista com o vampiro: “o capital é trabalho morto que, como um vampiro, vive somente de sugar o trabalho vivo e, quanto mais vive, mais trabalho suga”. E concluiu, citando texto de 1845 do teórico revolucionário, criador do socialismo científico/marxismo, coautor de diversas obras com Marx, Friedrich Engels (1820-1895): “o vampiro não largará a presa enquanto houver um músculo, um nervo, uma gota de sangue a ser explorada.”

 

Que heresia, há de pensar o bilionário bem postado no andar superior da escada social. Ainda bem que a elite da extrema direita não leu isso. Ou se leu, não entendeu e esqueceu.

 

Os vampiros de hoje não assustam, conquistam as mocinhas. Da mesma forma que os artistas da voz não cantam nada, não têm potência vocal, apenas se esgoelam berrando versos de pé quebrado. Mas são bonitinhos e incensados pela mídia, atraem as indóceis moçoilas, antes chamadas de “macacas de auditório”, jeito discriminatório de se referir às barulhentas fãs na era do rádio e princípio da televisão.

“Os ladrões de frases_1”: fotografia de Hermínio Prates

Hermínio Prates é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros. Autor dos livros Família Miranda – Vidas e Histórias ( ensaio historiográfico), A Amante de Drummond (contos), Mulheres e predadores (romance) e A noite do tatu (crônicas).

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