Cultura

O ombro | Raquel Naveira

Foto de Andrea Farao na Unsplash

Estávamos reunidos na livraria para lermos poemas de Hilda Hilst (1930-2004). São poemas densos, que celebram o risco da própria poesia, que nos fazem mergulhar num clima de religião terrena, selvagem, nos limites da loucura e da lucidez, povoada de fantasmas do amor. Alguém começa a leitura: “Tateio. A fronte. O braço. O ombro./ O fundo sortilégio da omoplata.” Deliro no comentário: “_ A parte mais linda do homem é o ombro.” Os olhares de todos caíram sobre mim, exigindo explicação.

 

_ Sim, o ombro, essa articulação complexa, cheia de ligamentos, tendões, músculos, segurando os ossos desde a escápula. O ombro é lugar de refúgio, segurança. Como um pai carrega uma criança em seus ombros. Como a mulher busca proteção recostando a cabeça no ombro do homem, rendida de ternura e confiança. Ombros fortes e largos. Descanso nos ombros de quem me ama. Há duas pedras de ônix em suas ombreiras de amante e sacerdote.

 

Quanta dimensão espiritual nos ombros. Quantas jornadas. Sobre os ombros são depositados os desafios, as cargas emocionais, os fardos, as responsabilidades, as adversidades. Pela posição curvada dos ombros, percebemos quando uma pessoa está sobrecarregada, escondendo algo, mascarando situações difíceis. Jesus carregou nos ombros a cruz em direção ao calvário e ela perfurou sua clavícula até o sangue. Também carregou a ovelha perdida que era eu.

 

Que vasos de força os seus ombros, amado meu! Nunca me faltaram em todos esses anos o seu apoio, a sua amizade mais profunda. Quando nada tinha a me oferecer, você me confortou como um príncipe. Levantou-me, abraçou-me e o momento de necessidade passou. Seus braços sempre foram a minha armadura.

 

E agora, caminhando meio trôpegos na velhice, ouvimos a voz de Drummond (1902-1987): “Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?/ Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança.” Guerras, assaltos, terremotos, dores, desgraças, discussões e a vida sempre seguindo em frente, sempre se renovando, atropelando tudo.

 

Mais uma vez colocarei as mãos nos seus ombros e você beijará meu rosto. Ao redor de nós, ruínas. Mas há resignação, leveza e mal sentimos o peso.”

 

Diante dessas palavras, os homens da sala riram para disfarçar a descoberta, disseram que começariam a fazer ginástica, exercícios para desenvolver o bíceps com halteres. As mulheres ficaram silenciosas, com os olhos brilhantes de quem pede ajuda. A poesia de Hilda reverberou num sonho de companheirismo e intimidade dos que dormem nos ombros do divino.

Fotografia de Raquel Naveira

A escritora Raquel Naveira é brasileira, nasceu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no dia 23 de setembro de 1957. Formou-se em Direito e em Letras pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo. Título de Doutor em Língua e Literatura Francesas pela Faculdade de Nancy. Deu aulas de Literaturas Brasileira, Latina e Portuguesa na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), onde se aposentou. Residiu no Rio de Janeiro e em São Paulo onde deu aulas na Universidade Santa Úrsula (RJ) e na Faculdade Anchieta (SP). Deu também aulas de Pós-Graduação na Universidade Nove de Julho (UNINOVE)  e na ANHEMBI-MORUMBI de São Paulo. Palestras e cursos em vários aparelhos culturais como Casa das Rosas, Casa Guilherme de Almeida, Casa Mário de Andrade. Publicou mais de trinta livros de poesia, ensaios, crônicas, romance e infantojuvenis. O mais recente é o romance URSA MAIOR (São Paulo: Scortecci). Escreve para várias revistas e jornais como Correio do Estado (MS), Jornal de Letras (RJ), Jornal Linguagem Viva (SP), Jornal da ANE (Brasília/DF), Jornal “O TREM” (MG). Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, à Academia Cristã de Letras de São Paulo, à Academia de Ciências e Letras de Lisboa e ao PEN Clube do Brasil.

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