Cultura

O menino, a garça e o caracol | Morgado Mbalate

Foto de Chelaxy Designs na Unsplash

Nota do Autor: Este texto constitui o segundo conto escrito por Morgado Mbalate, datado de 2014, representando um marco inicial na sua jornada de exploração da prosa poética e da sensibilidade humanista.

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Era uma vez um menino que habitava um mundo feito de silêncio absoluto. Para ele, o silêncio não era o vazio, mas uma parede invisível que o separava do pulsar das coisas. Certo dia, decidiu recolher os seus sonhos e partir de mãos dadas com a coragem, abandonou o conforto de casa e lançou-se ao caminho, sem destino marcado. Sentia uma sede antiga e estranha: o anseio de escutar a voz de água de um caracol.

 

Enquanto caminhava, os seus olhos — embriagados de luz e de busca — tropeçaram em andorinhas que adejavam no coração do céu. Ao sentirem o olhar profundo daquele pequeno sonhador, as aves cantaram e gritaram com alegria, celebrando a sua passagem. O menino, porém, permanecia do outro lado do vidro, embora visse o movimento rítmico das gargantas e o bater das asas, os seus ouvidos permaneciam trancados. Sentiu, pela primeira vez, que a mudez do ar era um deserto que ele não sabia como atravessar.

 

Continuou a sua jornada até encontrar uma garça anciã, à beira de um rio de águas lentas. Era uma criatura singular, com olhos que pareciam raízes de árvores e penas que lembravam folhas de outono. Ali, na margem, ambos inventaram uma língua sem som. Quando o menino queria falar de liberdade, ondulava os braços como o curso de um rio, quando a garça queria falar de paciência, desenhava com o bico círculos perfeitos no pó fino que cobria as pedras. O menino passava os dedos sobre esses sulcos na terra, sentindo a rugosidade das palavras que não podia ouvir.

 

Tornaram-se companheiros de alma, até que o céu decidiu abrir-se em chuva. Era uma precipitação ténue, tão delicada que parecia lavar não o corpo, mas o espírito. Sob as gotas cristalinas, o menino fechou os olhos. Sentiu o impacto rítmico da água na pele e percebeu que a chuva tinha a sua própria pulsação. A ansiedade da busca dissolveu-se na terra húmida, o ruído interno da sua frustração calou-se, deixando o seu peito vasto e limpo.

 

Procuraram abrigo sob o capim alto, onde, camuflado na frescura do orvalho, morava um caracol. Foi então que o pequeno viajante, mergulhado naquela serenidade absoluta, sentiu uma vibração que não vinha de fora, mas que ecoava dentro de si. O caracol, com a calma de quem domina o tempo, pareceu sussurrar-lhe diretamente no pensamento:

 

— Ser surdo não é ser inferior, nem mesmo ser diferente. É possuir um dom raro: o de não se distrair com o barulho inútil do mundo para poder escutar com os ouvidos do coração. Quem aprende a ouvir com a alma, como tu, consegue decifrar o segredo das garças e a voz de água dos caracóis.

 

Naquele momento, o menino percebeu que o seu sonho se tinha realizado. Não porque o mundo se tivesse tornado barulhento, mas porque ele aprendera a música que nasce do silêncio. E assim, os três tornaram-se amigos para sempre.

 

Morgado Mbalate

fotografia de Morgado Mbalate.

Morgado Henrique Mbalate, amplamente reconhecido no meio literário como Morgado Mbalate ou através dos seus diversos pseudónimos — O Anjo das Palavras, O Poeta dos Pássaros, O Poeta Morto e O Anunciador de Prodígios —, é um destacado escritor e poeta moçambicano.

Nascido em Maputo a 6 de Setembro de 1993, é Licenciado em Filosofia pela Universidade São Tomás de Moçambique (USTM). A sua trajectória é marcada por um profundo compromisso com a promoção da literatura e da língua, sendo actualmente membro do American Center da Embaixada dos Estados Unidos em Moçambique.

Mbalate desempenha um papel fundamental na preservação cultural como co-idealizador e curador da Biblioteca Azagaia. É também o fundador do centro de línguas Speak Global MZ, demonstrando a sua faceta empreendedora na educação. No seu historial de associativismo, destaca-se como:

  • Membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO).
  • Cofundador do Círculo Académico de Letras e Artes de Moçambique (CALAM).
  • Ex-membro fundador da DELICA (Associação para o Desenvolvimento Literário de Crianças e Adolescentes).

Autor de uma obra que transcende fronteiras, publicou os livros Odisseia da Alma (2016) e A Arte Suave da Palavra (2020), sendo ainda coautor do CD de Literatura Negra O que nos a Bala (2018). O seu poema “Africanizando” é uma referência académica, integrando diversos livros didáticos do ensino básico no Brasil.

Os seus textos encontram-se traduzidos para inglês, francês, espanhol e italiano, sendo Objeto de estudo em escolas e universidades em Moçambique e no Brasil.

A excelência da sua escrita foi reconhecida com diversas distinções internacionais, entre as quais:

  • Prémio Bicentenário de Dostoiévski (2021).
  • Menção Honrosa no Prémio Mundial de Poesia Nósside, Itália (2014).
  • Menção Honrosa no Prémio Fernanda de Castro (IV Concurso Internacional de Poesia e Prosa, 2017).
  • Participação na 4.ª edição do Festival Internacional Earthquake Terramoto (2021).

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