
A árvore é uma frase com ponto de exclamação, e afirma estou viva! Nesta frase única sustentam-se ainda outras, afirmando que a árvore, fulcro de vitalidade e transformação, possui camadas de vida. Cobrem seu tronco o líquen (vida imbricada em vida) o musgo, as bromélias, as samambaias, os cactos, os cipós e as orquídeas; são negritos, itálicos, sublinhados na frase: estou viva! estou viva! estou viva! Tão viva que outras se sobrepõem à sua. Quando a água da chuva penetra pelas frestas do telhado de folhas que é o solo da floresta, as raízes em porosos diálogos com fungos e micróbios enfatizam a exclamação em elipses…
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Sou o que sou e o que não sou, e sendo eu mesma posso ser aquilo com o qual não me pareço, e assim sendo o que serei, sendo isto e aquilo, e sendo isto sou aquilo e vice-versa, e se me perguntam o que sou, investigam com seus instrumentos minhas intenções e habilidades, a resposta é a mesma do camaleão, e de quem finge ser o que não é, e ao fingir é, não sendo menos do que sou e não mais do que não sou sou além, a soma do que posso ser e ainda não fui, sendo que, quando sou, não sou, e quando não sou posso ainda ser; vos fascinam minhas possibilidades de moldar o meu ser, enquanto agarro-me a qualquer outra planta, para fugir ao que quer-me, sabendo que não sendo não serei mais querida por quem tanto me quer, e serei muito ainda se não deixar de ser, como muitos que me rodeiam e definham e dissipam-se até não ser, ou ser outra coisa, o que também serei, mas que tento retardar ao máximo, pois o que sou é o que todos são na essência, mas que são apenas no cerne, transformação, já eu sou desde a mola cheia de letras que se alteram para adequar-se ao que se altera até minhas folhas que se cambiam para ser o que serei e se não fosse assim, o que seria, e se vocês me chamam Boquila trifoliolata, por que não existência?
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Árvore na praça, vive na altitude da serra, e é trepadeira do ar. Sua copa agora está quase nua. As folhas virão em outra estação. No entanto está coberta, o tronco por uma espécie conhecida por cipó cabeludo, folhas iguais às de um feto ou samambaia, longas e esguias como lâminas, cujo verso porta esporos. Crescem em punhados ao longo da vasta rede de raízes adventícias que se alastra colada ao tronco, até cobrir todos os galhos, mesmo os mais altos. A árvore da praça também acomoda um agrupamento de monstera na metade baixa do corpo lenhoso. A monstera e o cipó que a cobrem e usam como sustentação não sugam sua seiva nem a estrangulam, como fazem a cuscuta e certas figueiras. Sobre o tronco há mais vida sobreposta: bromélias, cujos sulcos são aquários aéreos, e num encontro de galhos, orquídeas brancas com pigmentos rosa. A árvore da praça é o jardim suspenso.
in Livro das trepadeiras (Urutau, 2026).
Mauricio Vieira é poeta, e um dos membros dos Doidos Diversos, um cabaret-tertúlia que promove o riso pelo verso e vice-versa. A Entrevista é um dos quadros constantes das sessões dos Doidos, cujos membros são o já citado, Elisa Scarpa, Mariana Portela, Wladimir Vaz e Andrea Zamorano.











