Cultura

O linguista e o imperador | Raquel Naveira

Foto de Lea Kobal na Unsplash

O que é a linguagem? Essa é uma frase tão profunda quanto “O que é a vida?”. Não se pode possuir ou usar a linguagem natural sem possuir ou usar alguma língua específica, um idioma. A língua é um fenômeno social, uma instituição e, sobretudo, um grande mistério. Um mistério humano e divino.

O francês Jean-François Champollion (1790-1832) foi um extraordinário linguista, filólogo, responsável pela decifração dos hieróglifos egípcios. Escreveu inúmeros trabalhos sobre a cultura e a língua do Egito Antigo. Foi parcialmente criado por seu irmão, o estudioso Jacques e sempre demonstrou ser uma criança prodígio. Falava várias línguas como copta, grego, latim, hebraico e árabe.

A campanha de Napoleão (1769-1821) no Egito aconteceu durante a Revolução Francesa. Os franceses pretendiam ocupar o Egito para utilizarem esse território como plataforma para avançar para a Índia, de onde atacariam o domínio britânico. Vários nomes do meio acadêmico científico participaram dessa campanha. A Pedra de Roseta, um exemplar de estela para marcar a coroação do faraó Ptolomeu como “deus vivo”, foi encontrada pelo Capitão Bouchard e tornou-se a chave para a decifração dos hieróglifos. Ela continha um decreto escrito nos três sistemas: grego, copta e com hieróglifos. Champollion conseguiu comparar e alcançar a solução do enigma. Questionava-se: os sinais eram fonéticos (sons da fala) ou ideográficos (gravando conceitos com significados semânticos)? A pedra estaria ligada a ideias esotéricas? Registraria fatos históricos? Todas as suposições estavam erradas. Era, na verdade, uma rica combinação de sinais fonéticos e ideográficos.

Na célebre Batalha das Pirâmides, em junho de 1798, Napoleão pronunciou a máxima de encorajamento: “_ Soldados de França! Do alto dessas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam.” Incitou assim seus comandados a enfrentarem as tropas de mamelucos e muçulmanos. A campanha, em termos militares foi um desastre, desperdício de vidas e de dinheiro, mas, culturalmente foi um sucesso e alavancou a reputação de Napoleão e sua ascensão política.

Indico o romance histórico “O Linguista e o Imperador: Champollion, Napoleão e o Mistério da Pedra de Roseta”, de Daniel Myerson, professor de criação literária nas universidades de Columbia e Nova York. Myerson narra a verdadeira história de como as vidas desses dois gênios obcecados pelo Egito convergiram para uma conquista que revolucionou nosso entendimento do passado. A espantosa história da Pedra de Roseta que está no Museu Britânico, depois de uma disputa amaldiçoada, as maquinações para protegê-la, a corrida para desvendar seus segredos e o tormento que parecia atacar os que tocavam nela são descritos de forma fascinante. Lembrando que Champollion   viajou para o Egito novamente em 1829, onde leu vários textos e trouxe novos desenhos de inscrições. Sua saúde ficou arruinada pelas dificuldades dessa jornada pelos desertos egípcios, vindo a falecer jovem, aos quarenta e um anos, no auge de sua capacidade.

E sobre a Pedra de Roseta, escrevi:

 

Acaricio o basalto negro

Da pedra de Roseta:

Sou poeta,

Minha meta é decifrar a escrita,

A linguagem perdida,

Os símbolos,

Os pictóricos sinais.

 

As imagens formam palavras:

Leões,

Perdizes

Mais uma boca

Significam

Cleópatra.

 

Jarros,

Pães,

Rostos,

Escaravelhos,

Mistérios trançados

Em novelos de linho.

 

Há beleza

Nas caudas de crocodilo,

Nos vasos de cerveja,

Nos corações ligados à traqueia,

Em cada ideia.

 

Acaricio o basalto negro

De um claro enigma.

Fotografia de Raquel Naveira

A escritora Raquel Naveira é brasileira, nasceu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no dia 23 de setembro de 1957. Formou-se em Direito e em Letras pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo. Título de Doutor em Língua e Literatura Francesas pela Faculdade de Nancy. Deu aulas de Literaturas Brasileira, Latina e Portuguesa na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), onde se aposentou. Residiu no Rio de Janeiro e em São Paulo onde deu aulas na Universidade Santa Úrsula (RJ) e na Faculdade Anchieta (SP). Deu também aulas de Pós-Graduação na Universidade Nove de Julho (UNINOVE)  e na ANHEMBI-MORUMBI de São Paulo. Palestras e cursos em vários aparelhos culturais como Casa das Rosas, Casa Guilherme de Almeida, Casa Mário de Andrade. Publicou mais de trinta livros de poesia, ensaios, crônicas, romance e infantojuvenis. O mais recente é o livro de crônicas poéticas LEQUE ABERTO (Guaratinguetá/SP: Penalux). Escreve para várias revistas e jornais como Correio do Estado (MS), Jornal de Letras (RJ), Jornal Linguagem Viva (SP), Jornal da ANE (Brasília/DF), Jornal “O TREM” (MG). Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, à Academia Cristã de Letras de São Paulo, à Academia de Ciências e Letras de Lisboa e ao PEN Clube do Brasil.ean-françoiscampollion

 

 

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