CulturaPoesia & Conto

O cãozinho | Elisa Scarpa

O cãozinho: colagem de Elisa Scarpa.

O cãozinho: colagem de Elisa Scarpa.

 

O CÃOZINHO, ele parece mais brando

No escuro da sombra, na sala, pescoço

Encaixado no corpo do urso de peluche

Enquanto a tarde cai

 

Segue os movimentos dela

Que nos cantos procura qualquer coisa

Enredo de objectos não singulares

Que se atrapalham entre si.

 

As sombras mais sólidas

Nos sítios mais afastados das janelas

Poças de escuro

Que guardam um fulgor frio

 

Ele ladra,  já passou à porta

Migra com a debandada dos outros

À mesma hora, deixa o prédio

Sobe a rua, segue os passos dela.

 

_ Ânimo!

Diz-me a vizinha, quando passa

Por mim. 

 

A vizinha destemporalizada

Vive dentro de uma bola de

Cristal, arrebanhada por destinos

Semi-obscuros. 

 

Ele ladra, ursinho anão 

Com corte de pelo recente

Ladra-me.

Olho-o, estúpida.

O tempo e a memória

São involuntários

O ladrar acossa-me as canelas.

 

_Ânimo, diz-me a vizinha.

Sim, animar a estirpe do desânimo,

O início dos números, o filme da desatenção.

O marido perdido

Nos círculos tântricos

Da taverna.

 

O cão ladra-me às canelas

olho-o estupidamente.

 

_ Vai-te lixar Lulu!

É este o sentido profundo

Dos dias,

O espaço desorientado

O tempo linear e irreversível

Que nos ladra às canelas

Olho-o estupidamente

Vai-te lixar, oh tempo !

 

O Lulu parece um urso de peluche,

Falta-lhe o inestimável silêncio

Da voz dos ursos de peluche.

 

A vizinha suspende-se

Agora para me dizer a mim,

O que quer para ela,

_ Ânimo.

O ursinho de peluche ladra-me às canelas.

 

_ Vai-te lixar Lulu

Ladra à vizinha

ladra ao ânimo

Aos círculos concêntricos 

Da taverna

Cospe-lhe o filho imberbe

Areja-lhe a casa

Afunda-a na lide

Doméstica

Que lhe enche o cérebro de cotão.

Repetição anal dos gestos.

 

O Lulu ladra-me às canelas

_ Vai-te foder, Lulu

Ladra, ladra a outro Lulu,.

Ladra, cão sem mistério

Que pisa as ruas

Todos os dias

Com as mesmas

Quatro e ignóbeis

O cãozinho_2

Elisa Scarpa nasceu a 7 de janeiro de 1964 e há-de morrer.

Qual é a sua reação?

Gostei
1
Adorei
0
Sem certezas
0

You may also like

Comments are closed.

More in:Cultura