
O CÃOZINHO, ele parece mais brando
No escuro da sombra, na sala, pescoço
Encaixado no corpo do urso de peluche
Enquanto a tarde cai
Segue os movimentos dela
Que nos cantos procura qualquer coisa
Enredo de objectos não singulares
Que se atrapalham entre si.
As sombras mais sólidas
Nos sítios mais afastados das janelas
Poças de escuro
Que guardam um fulgor frio
Ele ladra, já passou à porta
Migra com a debandada dos outros
À mesma hora, deixa o prédio
Sobe a rua, segue os passos dela.
_ Ânimo!
Diz-me a vizinha, quando passa
Por mim.
A vizinha destemporalizada
Vive dentro de uma bola de
Cristal, arrebanhada por destinos
Semi-obscuros.
Ele ladra, ursinho anão
Com corte de pelo recente
Ladra-me.
Olho-o, estúpida.
O tempo e a memória
São involuntários
O ladrar acossa-me as canelas.
_Ânimo, diz-me a vizinha.
Sim, animar a estirpe do desânimo,
O início dos números, o filme da desatenção.
O marido perdido
Nos círculos tântricos
Da taverna.
O cão ladra-me às canelas
olho-o estupidamente.
_ Vai-te lixar Lulu!
É este o sentido profundo
Dos dias,
O espaço desorientado
O tempo linear e irreversível
Que nos ladra às canelas
Olho-o estupidamente
Vai-te lixar, oh tempo !
O Lulu parece um urso de peluche,
Falta-lhe o inestimável silêncio
Da voz dos ursos de peluche.
A vizinha suspende-se
Agora para me dizer a mim,
O que quer para ela,
_ Ânimo.
O ursinho de peluche ladra-me às canelas.
_ Vai-te lixar Lulu
Ladra à vizinha
ladra ao ânimo
Aos círculos concêntricos
Da taverna
Cospe-lhe o filho imberbe
Areja-lhe a casa
Afunda-a na lide
Doméstica
Que lhe enche o cérebro de cotão.
Repetição anal dos gestos.
O Lulu ladra-me às canelas
_ Vai-te foder, Lulu
Ladra, ladra a outro Lulu,.
Ladra, cão sem mistério
Que pisa as ruas
Todos os dias
Com as mesmas
Quatro e ignóbeis
Elisa Scarpa nasceu a 7 de janeiro de 1964 e há-de morrer.











