Poesia & Conto

Nove poemas | Nic Cardeal

Pesquisadores descobriram que os ossos dos camaleões brilham no escuro através da pele. Os peixes têm ossos finos chamados espinhas. As borboletas são revestidas por uma espécie de armadura que segura suas asas. Os ossos dos homens quebram fácil com o passar dos anos. Camaleões mudam de cor. Peixes mudam de águas. Borboletas mudam de flor. Homens mudam de ideia. Os camaleões fazem coisas absurdas com os olhos. Os peixes fazem coisas absurdas com as brânquias. As borboletas fazem coisas absurdas com as asas. Os homens fazem coisas absurdas com os homens. Camaleões são solitários. Peixes morrem pela boca. Borboletas são lagartas a caminho do céu. Pesquisadores não sabem por que os homens  demoram tanto para ver com o coração.

ANATOMIA

Pesquisadores descobriram que os ossos dos camaleões brilham no escuro através da pele.
Os peixes têm ossos finos chamados espinhas.
As borboletas são revestidas por uma espécie de armadura que segura suas asas.
Os ossos dos homens quebram fácil com o passar dos anos.
Camaleões mudam de cor.
Peixes mudam de águas.
Borboletas mudam de flor.
Homens mudam de ideia.
Os camaleões fazem coisas absurdas com os olhos.
Os peixes fazem coisas absurdas com as brânquias.
As borboletas fazem coisas absurdas com as asas.
Os homens fazem coisas absurdas com os homens.
Camaleões são solitários.
Peixes morrem pela boca.
Borboletas são lagartas a caminho do céu.
Pesquisadores não sabem por que os homens
demoram tanto para ver com o coração.

DESTINAÇÃO 

 

Poetas são sujeitos estranhos
com ventosas nos sonhos
captam estrelas num piscar de olhos
usam estrelas para iluminar os dias
fazem de estrelas palavras-guias

– sem vírgulas desnecessárias ou reticências longínquas –

Poetas são pescadores exímios
colhem folhas secas pelos trilhos
em contato profundo com todo encanto
abarrotam esquinas com seus perdimentos
sempre em busca – à procura de sentido –
solitários, esquisitos, silenciosos, tão constritos
fazem dos dedos prolongamentos perfeitos
das estranhas entranhas de que são esculpidos ao tempo

Poetas são quase inteiros
esmiuçam-se bem ligeiro
sabem de cor das cores do espelho
gostam de tranqueiras
amam as beiras
jardineiros de esperanças
perdem o tino
encontram o timo
expandem a pineal
– nada atraídos pelo real –

 

Poetas – tão exilados da razão –
esses sujeitos estranhos
alados
desolados
que sonham acordados
por uma questão de destinação

 

EPÍLOGO

Quando esta casa for desocupada:
este corpo – minha casa de guardar a alma,
quando perdido o ‘habite-se’,
despejo previamente marcado,
hora e data no calendário,
não me queiram mal depois do final,
nem bem,
não terei mais a quem,
nem ninguém,
nem me convém
honrada lápide ou epitáfio,
só quero uma labareda a cremar os ossos
desta casa de guardar a alma.
As cinzas?
Um sopro basta:
estarei distante, longe,
na vastidão do fundo ou alto,
um tudo de novas argamassas,
ou nada.
– No céu da minha boca
um planeta em extinção –

 

HABITAT

 

“As pessoas da pessoa são múltiplas na pessoa”

                               (ditado da etnia africana Bambara)

Há um mundo
outro mundo
vários mundos
dentro do mundo 

 

Se eu sonhar com o Sol
à janela dos meus olhos,
todos se acenderão?

 

Há um mundo
outro mundo
vários mundos
dentro de mim

 

Se eu apagar a Lua
do meu mundo,
todos anoitecerão?

 

As múltiplas pessoas em mim
não desconfiam
(nem eu)
que a Alma não se apaga
ainda que lhe sustentem
tantas metáforas 

 

Há um mundo
em minhas entranhas
onde as estrelas não são fixas
balançam na ciranda revolta
dentro do peito
bem no centro
desta casa
em movimento:
extensão da pele
vestígios vagos
miragens
paradoxos
do meu mais íntimo
silêncio

 

Eis a melhor linguagem
do voo na imensidão:
o Divino de todas as coisas,
ainda que nem me ouça,
sabe, antes de mim,
que o amor não tem opostos,
                  apenas dispostos

 

– tu ouves? –

 

 

INÚTIL

Se me disseres que é inútil a poesia,
direi contigo – (me) é inútil a poesia
da inutilidade de todos os ímpetos
o mais inútil é a poesia
às vezes de gosto indigesto
às vezes de último suspiro
o movimento laríngeo
quase sempre asfixia
é inesperada noite a poesia
provoca insônias
perambula pelas calçadas
perde palavras
obstrui a razão
– ai de mim, se não for a inútil poesia!
No chão da garganta
irrespirável ar no vão da insígnia
eu quero a palavra
ainda que sobrevivente no atraso da vida
depois desses tempos voláteis
em que pese a escuridão do abismo
há de semear esperanças
para que a queda seja em asas
essa inútil poesia!

 

 

ITINERÁRIO 

 

Como um jardineiro,
tomar as dores da alma e fazê-las semente:
depois do plantio, a colheita.

 

Como um poeta,
fazer sulcos profundos na alma:
depois da palavra, a sangria.

 

Como um estrangeiro,
escorrer em lágrimas os olhos da alma:
depois da partida, a casa vazia.

 

Como um tecelão,
tecer em tênues fios a esperança na alma:
depois do agora, a utopia.

 

Como um discípulo,
erguer os olhos aos céus à procura da Alma:
depois dos mistérios, enfim,
                                            o Grande Coração do Vazio!

 

 

MISTÉRIO

Não se sabe como surgem as palavras,
depois que se nasce:

 

se chegam aos poucos,
nos sonhos,
ou abruptamente
pelos ouvidos,
na vida desperta
repleta de espantos.

 

Não se sabe como se formam as palavras,
depois que se percebe:

 

se atraem letra a letra,
verbo a verbo,
ou, de repente,
se inquietam
e pulam páginas do dicionário,
à procura de sentido.

 

Só o que se sabe
é que, sem elas, não são nada
os humanos:

 

quase ilusões desconhecidas,
à deriva em mar revolto,
antes que se tornem
incompreensões.

 

Não se sabe como se desenham as palavras
sobre o papel,
depois que se pronunciam
em sons
(ou em qualquer outra superfície possível,
passível de suportá-las,
mesmo às avessas):

 

se são milagres das mãos,
se são seres autônomos
sobreviventes de outros mundos,
aportados nessas terras por imaginação,
ou se apenas se fazem descalças,
à espera da estrada
em linha reta,
em curvas densas,
ou precipícios
que as despenquem
aos pedaços,
aos percalços,
sem arrependimentos.

 

Só o que se sabe
é que, sem palavras,
outra espécie rara
não sobreviveria
a salvo das intempéries do coração:

 

os poetas 

 

– epígrafes ambulantes
no inacabado livro das tantas vidas –

 

POETA

 

Não me iludo:
sou apenas atalho,
peça ínfima do mosaico,
rasgo fundo de feridas antigas,
semente vingada, crescida, destituída,
vento perdido entre montanhas esparsas,
gota d’água d’alguma torneira vazada,
nuvem espessa, tempestade tardia.

 

Não me engano:
sou pedaços,
pena que um dia foi asa,
ásana imperfeito de corpos exaustos,
borboleta liberta,
cão na sarjeta,
moeda de troca,
um grito, a revolta,
o sussurro, a gorjeta,
um pecado, o perdão,
o sorriso, a saliva,
o suor, a canção.

 

Não me espanto se me engano,
se te procuro e não me encontro,
se esfolo os dedos entre as paredes do teu peito,
e não te reconheço quando escreves certo
por minhas linhas tão tortas,
e não me desaponto,
se não me concedes os sonhos prediletos,
nem me ouves quando rezo em prantos,
suplicando outra chance de seguir adiante,
                                               mais adiante,
                                        outra vez adiante,
depois da pedra do caminho,
da outra pedra no caminho,
                               no outro lado da rua,
                               no centro,
                               na beira,
o precipício, a queda, o joelho sangrando,
a terra vermelha vertendo suor,
                            vendendo cansaço
                               a preço de custo.

 

[Te conto em segredo: sou poeta – um grão de poeira
soprado do olho d’algum deus transgressor,
esmigalhando palavras,
na tentativa insana de silenciar a alma inquieta –]

 

TÃO INÚTIL QUANTO AS DISTÂNCIAS

 

Estender os dedos para tocar os céus, sonhar que se está tocando os céus,
como uma oração sem planejamentos, sem palavras.

 

Tocar os céus com a alma, em súbito desejo de esperança,
como a criança que sonha um sonho intensamente vívido,
porque vívida é a saudade que se alonga entre os olhos de quem fica.

 

Não adianta dizer que isso também passa, que tudo passa,
se você ainda não percebeu, apenas nós somos os passantes:
você sabe por que passamos?

 

Porque vivemos fora do tempo
– ou no passado, escancarando baús de recordações cortantes,
ou no futuro, angustiando pretensos subjuntivos inexperientes –

 

Os pássaros não se importam em passar pela vida,
apenas vivem cada dia
como se fora um único e constante voo em direção ao Maior.

 

As abelhas colhem o néctar para o mel e,
enquanto exercem seu ofício, não há que se “pré-ocupar” com o mel
– por que se afligir com o que não existe? –

 

As estrelas que cintilam no céu já partiram
– somente sua luz ainda está a nos tocar os olhos –
colhemos lembranças tardias de sua imensidão. 

 

Os gafanhotos vivem cerca de míseros oito meses,
e, por não o saberem,
nada os incomoda além do momento contido no instante.

 

– Por que te preocupas com a distância entre teus dedos e a esperança? –

 

fotografia de Nic Cardeal

Nic Cardeal (Eunice Maria Cardeal), catarinense radicada em Curitiba/PR, graduada em Direito, é autora dos livros “Sede de céu – poemas” (Penalux, 2019); “Costurando ventanias – uns contos e outras crônicas” (Penalux, 2021) e “A menina que queria entender das águas” (infantojuvenil, Caravana Grupo Editorial, 2023). Já publicou textos em 50 antologias e coletâneas, no Brasil, na Alemanha e em Portugal. Faz parte do movimento “Mulherio das Letras” desde a sua criação, em 2017. Seus escritos estão compilados na página do Facebook, “Escrevo porque sou rascunho”. Possui textos publicados em diversas revistas e blogs eletrônicos. Também publica, como autora e Editora Adjunta, na revista eletrônica “Revista Feminina de Arte Contemporânea Ser MulherArte”.

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