Cultura

No reino de Fundanga IV: Tupinicadas | Xico Simonini

Foto de Andrey K na Unsplash

Milhões de quilômetros quadrados, montão

de milhas marítimas e uns cento e cinquenta 

milhões de almas penadas e depenadas e uns

vinte de almas não-penadas e emplumadas. 

Tudo Des-Comandado do alto daquela montanha. 

     Fundanguenses, plenos de Fundanguidade, de Respeitabilidade, Dignidade, Honestidade e um montão de outras dades e idades, valendo tanto quanto um irreal Real carcomido, furado e desvalorizado, sem eira nem beira.

 

     Imperador, Condes e Alcaides, Bruxos, Cartolas, Bate-Paus e Assemelhados, de um, de dois ou de Três Poderes. Homens de grande responsabilidade Política e que, como tais, “jamais mentem – inventam a Verdade”. Pouco importa, se importa… Incomparáveis nas artes e artimanhas de transformarem sempre o Futuro pior do que o Presente. Amanhãs, além dos piores Hojes, concebidos, gestados e paridos nas tormentas, sopradas pelo sopro das desgraças, oriundas daquelas Bandas Centrais do Reino.

 

     Do alto de Tenebrosa Montanha. Naquela elevação íngreme de terreno, terminada em cume, por sobre uns mil metros acima do também Tenebroso Planalto Central que a cerca. 

 

     Montanha horrível, desprezível, terrível, coberta pelas trevas do apagão e de caliginosa escuridão, envolta por soturno, eterno e denso nevoeiro, circundada por assustadora mata escura e densa. Para lá se chegar, caminhos tortuosos e perigosos.

 

     Ali, bem ali, no alto daquela Tenebrosa Montanha, num estranho planalto, a presença de um misterioso, tétrico e sepulcral Castelo Palácio.

 

Planalto do Alvoroço… Alvoraçado Planalto…

 

     Tomado, empalmado, usurpado e habitado por bruxomaníacos e bruxaleantes sempre brochando a Esperança, a Dignidade e a Honra da Maioria. Oficina das maquinações de Des-Encantos vis, dos maquiavelismos de Des-Encantos mis, de uma canalha retumbante de vida fácil, da vida do rodar bolsinha, nas esquinas da Vida da Outra.

 

     Armações eficientes, sem suavidade, sem brandura, sem serenidade, sem ternura. Com malvadeza. Onde, entre outras e tantas, em nome do Imperador e sua Corte, prega-se a Dignidade, a Ética e a Honestidade, violando tudo de tudo em nome da preservação da Honra do Reino. Tal-qualmente, como se o estuprador violentasse a donzela para preservar seu hímen. Ou sob a alegação de que tudo continuou no mesmo, pois o hímen era de natureza complacente. Vomitam In-Verdades para todos os quadrantes, sextantes ou oitantes, o vômito dos bofes purulentos e nauseabundos.

 

     No e do alto da Tenebrosa Montanha, a falsa Social Democracia Fundanguense, sem mais o que fazer, senão maldades e inutilidades, promove enquete para troca de seu símbolo, onde os bichinhos mais votados, até agora, para substituir o simpático, inocente e ultrajado Tucano, são a Coruja, o Morcego e o Curiango.      Notívagos por excelência, soberanos bambas das noites, das penumbras e das escuridões. Especiais para as eras dos apagões e das apagadas eras que já eram, sem terem sido… A incúria energética, como tantas outras incontáveis incúrias. Trevas se sobrepondo a tantas e tais e quais outras trevas espargidas Reino afora e Reino adentro.

 

     E, do alto da Tenebrosa Montanha, habitada por Larvas que, segundo a Civilização Helênica, viviam para atormentar os vivos, elas, as Larvas, arquitetam, seguidamente, a derrocada de cada Amanhã.

 

     Mas, porém, contudo, quiçá, todavia… Larvas da Tenebrosa Montanha, do Planalto do Alvoroço, do Alvoraçado Planalto fiquem ultra-alertas! A ameaça feita a Zaratustra, pelos Poderosos daqueles tempos do Ontem, pode ser aplicada a cada qual Larva destes tempos do Hoje.

 

     O enredo desenvolvido pelo célebre Súdito Nietzsche, em “Assim falava Zaratustra”, parodiado, livremente, por estas bem traçadas linhas, mostra a inesquecível ameaça feita ao sábio pel’Os Donos da Cocada Preta de então. A macabra intimidação vale para a Corte do Reino de Fundanga Varonil.

 

     Zaratustra, depois de longos anos de meditação, em outra montanha que não a montanha do Planalto do Alvoroço, desceu para pregar suas Verdades. Atacava os ícones de pés de barro do Império e do Imperador, defendendo a Vida, os instintos e profetizando a vitória da luz e do bem sobre as trevas e o mal.

 

     Fustigando as Estruturas vigentes, sentenciava ele para as Larvas de então, travestidas de Imperadores, Condes e Alcaides, Bruxos, Cartolas, Bate-Paus e Assemelhados:

 

— Cuidado, Larvas, inda vão comer vossas entranhas!

Fotografia de Xico Simonini

Francisco Simonini da Silva (Xico Simonini)  nasceu em Viçosa, MG, no dia 18 de novembro de 1941. Em sua cidade natal, em Belo Horizonte (MG), Florestal (MG), Pará de Minas (MG), Divinópolis (MG), Piracicaba (SP), Assis (SP), Primeiro de Maio (PR), Juiz de Fora (MG), Cataguases (MG), Ponte Nova (MG) e, recentemente em Santo Antônio de Pádua (RJ) construiu sua trajetória de professor e administrador do sistema educacional, além de marcante atuação na imprensa e na militância político-partidária. Aposentou-se como professor-adjunto na Universidade Federal de Viçosa (UFV), onde exercia suas funções no Departamento de Educação, do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Vem atuando, há mais de cinquenta anos, no sistema educacional público e privado (da educação infantil à pós-graduação), no ensino, pesquisa, extensão e administração. Por iniciativa individual ou coletiva participou da fundação de uma dezena e meia de escolas e cursos em todos os níveis. Sua trajetória é marcada por vigorosa atuação política, partidária e sindical e em campos diversos, como músico, desportista, comentarista esportivo, escritor, poeta, chargista e responsável pela publicação do semanário viçosense “Muzungu”.

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