Cultura

Lã e linho: três poemas inéditos | Ema Alba Lobo

Foto de Martin King na Unsplash

LÃ E LINHO: TRÊS POEMAS INÉDITOS

 

quando eu for irei

de olhos abertos

 

e estarei como se à janela

do mais demorado poente

 

ou de cócoras 

à espera de um novo dia 

nascer das terras altas 

deitadas sobre o chão

 

vestida de lã e de linho

para o tempo sem estâncias

apenas a vulcânica sazão

do corpo

 

indo

 

 

ꟷꟷꟷꟷ

 

desenrolo-me

ao longo do dorso

de uma árvore tombada

flutuando entreaberta

pela corrente.

puxo para mim mesma

uma margem

e deito-me aos pés 

dessa alta montanha 

a que chamam poema.

e só então voo

: deito-me uma e outra vez

sobre as asas

dou-lhes a certeza do chão

sem receio da subida

do nível do mar 

ou das águas pluviais

por chover 

nos olhos cinzentos

como nuvens potáveis.

sorvo o feixe de luz

que abre e encerra 

as arestas dos dias

e acendo o voo 

com um sopro vácuo

: fora de pé 

: fora de horas 

: fora de órbita

estendo todo o corpo

sobre o estuário íntimo

e secreto do vento.

assombro o pássaro cego

que fez ninho em mim

abro a boca 

e grito os nomes latentes

das alturas que anunciam 

a foz ígnea 

do abismo mais perto

do firmamento.

 

falta-nos tanta horizontalidade

para voar.

 

ꟷꟷꟷꟷ

 

entre o pavio e a asa

entre o corpo celeste e as sílabas 

entre o orvalho e o estio

entre as entranhas e a nudez

entre os cascos e as escamas

entre o pomar e a queda do vento

entre o dragão e a lâmpada

entre o elementar e o insolúvel

entre a mesmice e a estranheza

entre a lâmina e a sombra

entre a coincidência e o mistério

entre a saudade e o instante

entre tudo e qualquer coisa

entre o sempre e o nunca mais

entre a dúvida e a reza

entre o mapa e o caminho

entre a fórmula e o enigma

 

– a fresta de silêncio

por onde nos rompem as águas

e o primeiro choro das palavras

 

–  o infímo intervalo 

por onde nos erramos

com a máxima precisão.

 

ꟷꟷꟷꟷ

 

Fotografia de Ema Alba Lobo. Autor da fotografia: Sérgio Godinho.

Ema Alba Lobo nasceu em 1973 e é natural de Lisboa, mas vive inevitavelmente junto ao mar. 

O Activismo Comunitário, a Poesia e a Dança são os seus grandes amores e labores, as suas áreas de formação académica e a matéria seminal da sua escrita. 

É na gestação poética que experimenta e atravessa as assimetrias do mundo. É no poema que se faz corpo grávido e à escuta do silencioso germinar de cada devir. 

Autora de várias obras poéticas éditas e inéditas, tem participado em várias colectâneas e revistas de poesia. Desde 2011, desenvolve Oficinas de Poética do Movimento, Expressão Poética, Escrita Auto-realizadora e Book Art.

Em 2007 fundou o Terra.Corpo, espaço geopoético e de intervenção sociocultural de Arte Participada, Educação Emocional e Ecologia Humana que privilegia o encontro entre diferentes linguagens expressivas verbais e não-verbais. 

É investigadora e professora na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal, bem como coordenadora e dinamizadora de vários projectos do Terra.Corpo.

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