
LÃ E LINHO: TRÊS POEMAS INÉDITOS
quando eu for irei
de olhos abertos
e estarei como se à janela
do mais demorado poente
ou de cócoras
à espera de um novo dia
nascer das terras altas
deitadas sobre o chão
vestida de lã e de linho
para o tempo sem estâncias
apenas a vulcânica sazão
do corpo
indo
ꟷꟷꟷꟷ
desenrolo-me
ao longo do dorso
de uma árvore tombada
flutuando entreaberta
pela corrente.
puxo para mim mesma
uma margem
e deito-me aos pés
dessa alta montanha
a que chamam poema.
e só então voo
: deito-me uma e outra vez
sobre as asas
dou-lhes a certeza do chão
sem receio da subida
do nível do mar
ou das águas pluviais
por chover
nos olhos cinzentos
como nuvens potáveis.
sorvo o feixe de luz
que abre e encerra
as arestas dos dias
e acendo o voo
com um sopro vácuo
: fora de pé
: fora de horas
: fora de órbita
estendo todo o corpo
sobre o estuário íntimo
e secreto do vento.
assombro o pássaro cego
que fez ninho em mim
abro a boca
e grito os nomes latentes
das alturas que anunciam
a foz ígnea
do abismo mais perto
do firmamento.
falta-nos tanta horizontalidade
para voar.
ꟷꟷꟷꟷ
entre o pavio e a asa
entre o corpo celeste e as sílabas
entre o orvalho e o estio
entre as entranhas e a nudez
entre os cascos e as escamas
entre o pomar e a queda do vento
entre o dragão e a lâmpada
entre o elementar e o insolúvel
entre a mesmice e a estranheza
entre a lâmina e a sombra
entre a coincidência e o mistério
entre a saudade e o instante
entre tudo e qualquer coisa
entre o sempre e o nunca mais
entre a dúvida e a reza
entre o mapa e o caminho
entre a fórmula e o enigma
– a fresta de silêncio
por onde nos rompem as águas
e o primeiro choro das palavras
– o infímo intervalo
por onde nos erramos
com a máxima precisão.
ꟷꟷꟷꟷ
Ema Alba Lobo nasceu em 1973 e é natural de Lisboa, mas vive inevitavelmente junto ao mar.
O Activismo Comunitário, a Poesia e a Dança são os seus grandes amores e labores, as suas áreas de formação académica e a matéria seminal da sua escrita.
É na gestação poética que experimenta e atravessa as assimetrias do mundo. É no poema que se faz corpo grávido e à escuta do silencioso germinar de cada devir.
Autora de várias obras poéticas éditas e inéditas, tem participado em várias colectâneas e revistas de poesia. Desde 2011, desenvolve Oficinas de Poética do Movimento, Expressão Poética, Escrita Auto-realizadora e Book Art.
Em 2007 fundou o Terra.Corpo, espaço geopoético e de intervenção sociocultural de Arte Participada, Educação Emocional e Ecologia Humana que privilegia o encontro entre diferentes linguagens expressivas verbais e não-verbais.
É investigadora e professora na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal, bem como coordenadora e dinamizadora de vários projectos do Terra.Corpo.










