
O Maranhão não é uma ilha, mas uma constelação cultural, em si mesmo e em sua projeção na inteligência brasileira. Quando do lançamento do último livro do saudoso intelectual Sálvio Dino, na Academia Maranhense de Letras, intitulado A Coluna Revolucionária Prestes a Exilar-se, honrado pelo convite para apresentá-lo desde a tribuna da Casa de Antônio Lobo, registrei um aspecto subjacente à notável pesquisa, qual seja, o da fértil multiplicidade de jornais municipais, clubes de oratória e centros culturais existentes no interior da Terra Timbira, na década de 20 do século passado. Sublinhei-o, como testemunho de que a cultura maranhense tem cabeça, corpo e membros, não ficando cingida à Ilha do Amor, por mais significativa que seja, enquanto presença e desaguadouro tradicionais de fulgurantes talentos, de que foram exemplos, quanto ao nascimento, no século XVIII, Manuel Odorico Mendes, no século XIX, Graça Aranha, Arthur Azevedo e Aluísio Azevedo e Nunes Pereira e no século XX, as figuras primaciais de Josué Montello, Ferreira Gullar, Bandeira Tribuzi, Nauro Machado, Nascimento Morais Filho e José Louzeiro.
Não pude deixar de recordar a existência de Caxias, sementeira de Gonçalves Dias e de Coelho Netto, bem como César Augusto Marques, Teófilo Dias, Raimundo Teixeira Mendes e pátria pequena de Franklin de Oliveira, Manoel Caetano Bandeira de Mello e Edson Vidigal, com suas eloquentes conquistas na poesia, na prosa, na história, na política, na doutrina e na crítica literária projetadas no Brasil e no mundo, de que o poeta Salgado Maranhão é o mais recente testemunho, ladeado pelos excepcionais talentos de Raimundo Palhano, economista, Ruy Palhano, psiquiatra e Jhonatan Almada, educador.
De mim para mim, tenho como necessário o rodopio da luneta giratória, a indicar outros indispensáveis complexos culturais, no universo em expansão da cultura maranhense, do que é testemunha Barra do Corda, no centro geodésico da Terra Timbira, na confluência fluvial do Corda e do Mearim, na fecundação de exemplares talentos, quer ali nascidos, quer ali vividos ou, por ali, sentimentalmente referenciados. José Américo Augusto Olímpio Cavalcante de Albuquerque Maranhão Sobrinho, o inolvidável poeta Maranhão Sobrinho, bem como Nonato Pinheiro, Clodoaldo Cardoso, Antônio Almeida, Isaac Ferreira, Edmo Leda, Luís Pires, Nicanor Azevedo, Raimundo Braga, Willian Figueira e Wolney Milhomem são a personificação da verossimilhança do ora alegado. Tamanha a força telúrica inspiradora de Barra do Corda, que Ignácio Rangel e Fernando Braga, nascidos na Ilha do Amor, o primeiro, por vivência e o segundo, por origem, não a retiraram jamais do seu universo afetivo, respirando-a por toda sua passagem terrena.
A prodigiosa terra de Maranhão Sobrinho jamais deixou à espera a cultura gonçalvina, ao oferecer talentos a seus vigorosos processos de tradição e de renovação. Tradição, expressa na vivência de Olímpio Martins Cruz, sertanista e indigenista, poeta e romancista, que dedicou metade da existência ativa aos povos originários, na companhia dos índios Krikati, Krahô, Kanela, Timbira, Guajajara e Gavião e, como detentor da Medalha Nacional do Mérito Indigenista, escreveu, entre outros, Cauiré Imana, o Cacique Rebelde, Lendas Indígenas, em parceria com Maria de Lourdes Reis e Vocabulário dos Quatro Dialetos Indígenas do Maranhão. Renovação constante, nas vigências qualificadas dos irmãos Lima – Antônio Carlos e Félix Alberto – especialistas na brincadeira dos quatros cantos, correndo da poesia para a prosa e da prosa para a poesia, sempre poetas.
Eis o universo de onde, joia da coroa, sobrenadou o Corda e o Mearim a figura poliédrica da Kissyan Castro, poeta, pesquisador e erudito, vocacionado à construção de uma obra literária em tópos transfigurador, desdobrada em Vau do Jaboque (2005), Bodas de Pedra (2013), Rio Conjugal (2016) e O Estreito de Éden (2017). Sem o olvido de Maranhão Sobrinho – Poesia Esparsa (2015) e Maranhão Sobrinho – O Poeta Maldito de Atenas (2019), de resto e sem embargo, impossível, por ser, Kissyan Castro o apóstolo maior, o curador por excelência, da reconstrução do itinerário criativo do inestimável bardo simbolista, que se encontra no caminho do modernismo brasileiro, da mesma maneira como Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud e Paul Verlaine descortinaram e pavimentaram o multipercurso do modernismo universal. Juntamente com Stéphane Mallarmé, celebrado por Maranhão Sobrinho:
“INTERLUNAR
Entre nuvens cruéis de púrpura e gerânio,
rubro como, de sangue, um hoplita messênio
o sol, vencido, desce o planalto de urânio
do acaso, na nudez de um recolhido essênio…
Veloz como um corcel, voando num mito hercânio,
tremente, esvai-se a luz no leve oxigênio
da tarde, que me evoca os olhos de Estefânio
Mallarmé, sob a unção da tristeza e do gênio!
O ônix das sombras cresce ao trágico declínio
do dia que, ao lembrar piratas do mar Jônio,
põe, no acaso, clarões vermelhos de assassínio…
Vem a noite e, lembrando os Montes do Infortúnio,
vara o estranho solar da Morte e do Demônio
com as sombras medievais as sombras do interlúnio…”
De uma perspectiva endógena, a esse colossal. Maranhão Sobrinho – “e vibram, vivos, no ar, ri-ri-ris de cigarras” … “cantarolas de amor ao tré-tré-tré dos bilros” – está vinculado o poeta Kissyan Castro, com similar disposição para realizar a sondagem global do humano, da realidade fraturada ao infinito dos mundos. A forma elíptica do cantar conciso de Kissyan Castro, servida por uma alta voltagem imagética, sem dúvida, dialoga com a poética de Wolney Milhomem, ao provocar as impactantes estrelas da condensação iluminada:
“#1
aprendi que Deus é um dia íngreme
com seus pássaros lacunares
que o poema é um coice no sangue
um estábulo aberto
no vocábulo.”
“#6
homens nutrem esperanças: têm falanges
fogos laminações
pisam a escritura de sua morte
cada vez que assentam um tijolo
cada vez que se sua árvore
deixam cair
um poema.”
A polaridade simbólica, permeada entre luz e sombra, às vezes mais sombra do que luz, como na pintura de Goya, aquele Francisco José de Goya e Lucientes das “Pinturas Negras”, de 1819 a 1823, perpassa o canto de Kissyan Castro, cujas intertextualidades exógenas remetem para a família composta por grandes vozes da poesia maranhense e brasileira. Dizia Hegel que pensar é pensar pensado, dentro do fluxo dialético de teses, antíteses e sínteses abertas para o quarto momento da negatividade, como postulou Júlia Kristeva. Analogamente, poetar é poetar o poetado, poetando o novo. Assim é o poetar de Kissyan Castro, neste(s) Pássaros Lacunares: é cada vez mais, e superiormente, Kissyan Castro. Ei-lo:
“NÃO SE ATA A MÃO DO POEMA
no pão dos léxicos
o poema esbraceja
acéfalo
indecisa metrópole
com suas ancas de fruta
e orfandade
prurido apenas
na zoologia gástrica
dos ventos
o poema sem burca
mija o descalço fruto
da alma em remorso.”
Esta vida do mundo a transcorrer “na zoologia gástrica/dos ventos”, em estado “acéfalo” e de “orfandade”, coloca Kissyan Castro frente a frente com as afinidades eletivas, de Johann Wolfgang Von Goethe e com a ética dialógica, de Jürgen Habermas, permitindo a sua confluência com o outro de si mesmo, o também professor de grego, Joaquim Sousândrade e a seleta legião onde respondem ‘presentes’ Augusto dos Anjos, Nauro Machado e Ferreira Gullar, aquele de Luta Corporal e de Crime na Flora. É que o poeta Kissyan Castro, pelo Verbo (Ferreira Gullar), persegue o Ser (Nauro Machado), alcançando, na escola dos Pássaros (menos) Lacunares, a sua, somente sua, posto que depurada, “pedra do existir”, ao “remover a pedra tumular”.
Cantor culto e meditativo, o poeta a si mesmo contempla, decifrando o outro no espelho do tempo: “trago o rosto perpassado de odisseias”. Oleiro de si e do outro, a perseguir o desafio e o milagre da decifração do tempo, de Martin Heidegger e do nada, de Jean-Paul Sartre, Kissyan Castro aceita a sua contenda corporal com a metafísica, de Platão, construindo para si e para o outro a saída da caverna, a vivenciar o imponderável da vida como travessia:
“MOLDES
ir desvendando o voo
antes do pássaro
repetir a semente
sem revirar a terra
resistir ainda sem dogma
ainda sem magma
um só nome
comendo comendo janeiros
para sair da casca”.
Saída “da casca” com um só propósito: “quero voltar/à ternura do barro.” O poeta é sabedor de que” nada resiste/nem o implacável osso”, entretanto, Ser e Verbo, Verbo e Ser na vida do mundo, necessita da pulsão vital da transcendência e busca, em incessante viagem, a sua Ítaca, e a entrevê na mais longa peregrinação, que é a íntima, como no verso consular de sabedoria, do poeta Manoel Caetano Bandeira de Mello. Está é a travessia de Kissyan Castro:
“POÉTICA
colher cada palavra
pedra a pedra
para me atingir.”
Não há palavra mais recorrente do que, talvez, “pedra”, em Pássaros Lacunares, sinalizando, mais do que para a imanência (pedra) e para a transcendência (pássaros), para o secreto desejo, em sonho revelado, como queria Carl Gustav Jung, da permanência: no chão e no voo. Mergulhado no jogo do jogo do jogo de espelhos, como, na vocalização de Fernando Pessoa, “o poeta é um fingidor”, Kissyan Castro aparenta acreditar em Tanatos e verseja/viceja:
“O SUICIDA
escutar palavras
para do topo
se jogar.”
Sim. Jogo do jogo do jogo sem logro. Debaixo do pano de toureiro do canto, o que Kissyan Castro carrega consigo e para o outro, como no humanismo do outro homem, de Emannuel Levinas é, com efeito, uma crença visceral em Eros, nele encontrando a sua Estrada de Damasco. Devoto da Beleza enquanto Deusa emancipadora do humano, o poeta a celebra, entre o humilde e o sublime, entregando-se e possuindo-a, delirantemente:
“ESTOICO
buscar na chaga
o que não for
sangue
buscar na cinza
o que não for
silêncio
o que não for ruína
é caco de espelho:
o rosto resiste outro
ainda na doença
se aninha o pássaro
ainda na lágrima
brota a paisagem
há uma lua no lago:
as mãos vazias
a podem colher.”
O poeta persegue a sua viagem redonda – “(este círculo/é sua única/realidade)” – consciente de – segundo o magistério de Don Miguel de Unamuno – tudo quanto perpassa o humano em Do Sentimento Trágico da Vida. O humano do homem de osso, carne, nervo, sangue e sonho, do homem, sim, que nasce, sofre, cresce, sonha e um dia morre. Ou não morre, porque “O amor no faz crer” e, nos fazendo crédulos, nos ensina, unamunianamente, a fecundar “o que o devaneio da esperança nos cria.” Na Beleza, essa Deusa, tudo é sêmen, semente, sementeira. O poeta canta:
“apalpo a abrupta respiração da noite
com minha torre de leite
e minha ogiva concêntrica.”
Em Pássaros Lacunares, de Kissyan Castro, a bandeiras despregadas, a Deusa Beleza resulta grávida, para redimir a vida do mundo, na certeza de que o melhor poeta construído é o poeta em construção. Da verdade da pedra ao mais sublime voo. Sempre pedra. Sempre pássaro. Sonhando sempre com o azul sem lacunas. Assim seja.
Rossini Corrêa: Advogado, Escritor e Filósofo do Direito, com mais de40 livros publicados, entreos quais se destacam: Saber Direito-Tratado de Filosofia Jurídica; Jusfilosofia de Deus; Crítica da Razão Legal; Bacharel, Bacharéis: Graça Aranha, discípulo de Tobias e companheiro de Nabuco; Teoria da Justiça no Antigo Testamento; José Américo, o Jurista; Política Externa Independente: contribuição crítica à história da diplomacia nacional; O Liberalismo no Brasil: José Américo em perspectiva; Brasil Essencial: para conhecer o país em cinco minutos; O Bloco Bolivariano e a Globalização da Solidariedade: bases para um contrato social universalista; e Romeu e Julieta no Brasil. É membro titular do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal – IHGDF. Pertence à Academia Brasiliense de Letras – ABrL e à Academia Maranhense de Letras – AML. É Patrono da Cátedra Gonçalves Dias, da SVT Faculdade de Ensino Superior e foi Coordenador da Cátedra Daisaku Ikeda, do Centro Universitário de Goiás-Uni-Anhanguera.










