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José Sarney e a arte poética: terra, mundo e ser na construção do equilíbrio alado: posfácio | Rossini Corrêa

Imagem: www.tcepi.tc.br

“José Sarney e a arte poética: terra, mundo e ser na construção do equilíbrio alado: posfácio_1”.

A publicação da Poesia reunida de José Sarney, pela Livraria Resistência Cultural Editora, capitaneada, desde São Luís do Maranhão, pelo notável humanista José Lorêdo Filho, a bem da verdade, constitui uma festa do espírito para as culturas maranhense e brasileira. Consuma-se uma singular confluência, repleta de significados e de significantes, entre o ilustre editado e o valoroso editor, enquanto testemunho de serviço recíproco aos valores mais elevados da sensibilidade e de sua irrevogável, insubstituível e imorredoura difusão em forma de livro, o mínimo objeto máximo civilizatório.

 

Em sã consciência, quem ousará defender a tese de que a poética maranhense não é uma presença estruturante e decisiva nos destinos da poesia brasileira? À margem de qualquer ânimo polêmico, só alguém submerso e consumido pela cegueira do espírito, a desconhecer a fundação da alma nacional brasileira por Gonçalves Dias, que, do épico indigenista, chegou ao altiplano da poesia lírica em língua portuguesa. Só alguém trôpego e desencontrado com a constatação de que, se Trajano Galvão realizou a ampliação temática da poesia brasileira, nela incluindo, na esteira de Gonçalves Dias, o negro, outramente, Joaquim de Sousândrade revolucionou a forma de cantar, ao preparar as rupturas desembocadas no modernismo já tardio de 1922. Como se não bastasse, foi Ferreira Gullar o artista responsável pela desarticulação e pela reestruturação do verbo, até que chegasse a reinventar a linguagem da beleza, interferindo, como Gonçalves Dias, nos destinos da poesia brasileira.

 

A presença seminal do Maranhão na poética nacional, se foi testemunhada, de maneira participativa, no parnasianismo, por Raimundo Corrêa, e no simbolismo, por Maranhão Sobrinho, não encontrou no modernismo a digital de si mesma na contemporaneidade do cosmos estético. Perdera a terra de Gonçalves Dias a substância material que a economia escravista do arroz e do algodão lhe conferira, tirando, quanto a este, proveito finalíssimo da desorganização do mercado internacional com a Guerra da Secessão, que retirou, momentaneamente, os Estados Unidos da América do comércio da fibra vegetal em questão. As reservas advindas do canto do cisne algodoeiro permitiram o desembarque de um pacote tecnológico fechado e completo, proveniente do Reino Unido, qual seja, o do parque têxtil destituído de renovação e sem capacidade de concorrência setorial com os centros dinâmicos da economia brasileira, já deslocados para o sudeste e o sul do país assimétrico.

 

Completava-se, em 1922 o primeiro século da Independência do Brasil, que, periférico e retardatário, mas irrequieto, buscava alguma atualização histórica por meio do universo estético, sonhando, talvez, como fonte matricial das demais mudanças, da econômica à política, passando pela social. Por paradoxal que pareça, o Maranhão estava excluído do roteiro presencial e consequente da Semana de Arte Moderna, porém os maranhenses, não, haja vista a polaridade registrada na Academia Brasileira de Letras, entre o “grecista” Coelho Netto e o “modernista” Graça Aranha, disruptivo embate entre a permanência e a transformação. Realmente, ali Graça Aranha foi o homem essencial — descrito pelo jovem Sérgio Buarque de Holanda —, condição para o acontecimento da Semana de Arte Moderna, da concepção à efetivação. Mais tarde, depois da rumorosa repercussão dos episódios registrados no Theatro Municipal de São Paulo, entre 13 e 17 de fevereiro de 1922, em típico conflito geracional, a jovem guarda comandada por Mário de Andrade reivindicou o seu protagonismo, ao articular o esmaecimento do papel de Graça Aranha, retratado, em sentido contrário, pelo pintor Cícero Dias, como o intelectual brasileiro melhor equipado em matéria de moderno conhecimento e debate estéticos.

 

A Geração de 30, que poderia ter perseguido a atualização histórica do Maranhão, na antemanhã de si mesma, foi em busca da visibilidade permitida pelo Rio de Janeiro, onde pontificaram Arthur e Aluízio Azevedo, Graça Aranha, Coelho Netto, Dunshee de Abranches, Humberto de Campos, Raimundo Lopes e Nunes Pereira. Bem como Raimundo Corrêa, Teixeira Mendes e Viriato Corrêa, antecedidos, sem ordem necessária, por Gomes de Sousa, Odorico Mendes, Cândido Mendes, Joaquim Serra e Gonçalves Dias, o inolvidável. Aspirando a semelhantes conquistas no sistema reinante de reconhecimento, madrugaram no Rio de Janeiro Celso Antônio de Menezes, Odylo Costa filho, Josué Montello, Antônio de Oliveira, Manoel Caetano Bandeira de Mello, Neiva Moreira, Paulo Nascimento Moraes, Franklin de Oliveira, Oswaldino Marques, Conceição Neves Aboud, Ignácio de Mourão Rangel e Dilu Mello.

 

O hiato foi acrescentado ao retardo e o cristal da tradição consolidou o seu cânone, consagrando-se, a despeito desta ou daquela fugaz notícia e/ou tentativa de renovação, como o império estético a ser reproduzido ao infinito. Desta maneira começou a história da Geração de 45 no Maranhão, sob a égide organizacional primorosa do Centro Cultural Gonçalves Dias, presidido pelo poeta e folclorista Nascimento Morais Filho, que, no futuro, enquanto intérprete da literatura, seria um dos pioneiros no resgate da primeira romancista do Brasil, Maria Firmina dos Reis, biografando-a. A estática prevalecera sobre a dinâmica, sob a inabalável certeza, em todas as artes e em todas as letras, de que as manifestações artísticas pré-históricas, antigas, medievais, renascentistas, maneiristas, barrocas, rococós, neoclássicas, românticas e realistas constituíam a vanguarda da inquietação estética. Eis a convicção inamovível quando do retorno ao Maranhão, vindo de Portugal e carregando vivências eclesiais e coimbrãs, de Bandeira Tribuzzi, pseudônimo de José Tribuzzi Pinheiro Gomes, simplificado, com um zê a menos, para Bandeira Tribuzi. A publicação do livro de estreia do quase exilado poeta, Alguma existência, em 1948, evidenciou ser possível o código renovador na dicção poética, permitindo a Ferreira Gullar, décadas passadas, declarar que foram os poemas tribuzianos que lhe revelaram haver outra e oxigenada forma de ser poeta e de fazer poesia, não os de Manuel Bandeira, Murilo Mendes e Carlos Drummond de Andrade, valendo o raciocínio para Mário de Andrade, Raul Bopp e Oswald de Andrade.

 

Chegara a hora de guarnicê. A cidadela do tradicionalismo estético estava confrontada pela bagagem existencial de Bandeira Tribuzi, que trouxera consigo o conhecimento de Pablo Picasso, Joan Miró e Salvador Dali e a dialogia com Vladimir Maiakovski, Paul Éluard, Antônio Machado, Rafael Alberti, Federico Garcia Lorca, Mário de Sá-Carneiro e, sobretudo, Fernando Pessoa, falecido no Hospital de São Luís dos Franceses, em 30 de novembro de 1935, então um ilustre desconhecido, ou quase, no Brasil. Conjugaram-se, no Maranhão, o neomodernismo e o modernismo, passando o efeito Tribuzi a produzir as duas magnas consequências para a vida literária nacional: José Sarney e Ferreira Gullar, que chegaram à Academia Brasileira de Letras, augusta Casa de Machado de Assis e de Joaquim Nabuco. Gullar, deslocado do Centro Cultural Gonçalves Dias, fundando com Lago Burnett a revista Afluente e preparando o mutante caminho para vencer o Concurso Nacional de Poesia do Jornal de Letras e, Meca das maranhenses, se transferir para o Rio de Janeiro. Sarney, por sua vez, por uma goetheana afinidade eletiva, que levará o retornado poeta e o poeta em mutação a fundarem a revista Ilha, de literatura e arte, com redação à Rua Siqueira Campos, nº 196, sob a responsabilidade dos diretores José Sarney Costa e Bandeira Tribuzi e assistida por um Conselho de Redação formado por Lucy Teixeira, Luís Carlos Belo Parga, Erasmo Dias, Domingos Vieira Filho e Murilo Ferreira. Ali estavam os pintores Figueredo, Cadmo e Floriano Teixeira e a ponte levantada para os diálogos colaborativos com Hélio Pelegrino, Edson Régis, Sílvio de Macedo, Aluízio Medeiros, Clóvis Assumpção, Antônio Girão Barroso, Guerra de Holanda, Jairo Martins e outros mais, a exemplo de Hindemburgo Sobral e de Eliardo Farias. Bandeira Tribuzi cantava, nas anunciações quiliásticas e paradisíacas provenientes do seu cristianismo primitivo:

 

A pequena cédula

 

A pequena cédula

Que nos condiciona

Custou tantas horas

De suor humano.

Vai de mão em mão

Quase já, informe

Excessivo uso

De necessidade.

Apertada entre

A palma e os dedos

Pequena bandeira

de pouca esperança.

Foi trocada por

Certos alimentos

Ou urgentes drogas.

Momentaneamente

O calor humano

Da morte adiada,

Do vazio estomago,

Um tanto saciado,

A ilusão frágil da

Posse transitório,

A lembrança doce

Ao coração da amada

Nela se concentra.

Cédula comprada

Pelo rude esforço

De membros e ideia

Quanto tempo dura

Sua fértil vida?

Breve se recolhe

Ao túmulo frio

Do pesado cofre:

Viagem suspensa

Entre invioláveis

Rígidos segredos,

Donde sai já suja

De sombrias tramas.

A pequena cédula —

Colação de vida —

Quem terá o gesto

Para destruir

Seu destino torpe

E em definitivo

Convertê-la em lixo?

 

Como Ferreira Gullar, José Sarney preparava o seu terremoto clandestino, expressando uma consciência do processo, pois ora estava no Congresso de Poesia do Ceará, em companhia de Bandeira Tribuzi, ora despontava em Recife, a conceder entrevista ao Diário de Pernambuco, esclarecendo: “O reflexo do movimento de 22 no Maranhão foi muito pequeno. Os homens maranhenses, que nele tomaram parte, fixaram residência na metrópole, deixando o Estado entregue ao academicismo, coisa que até hoje impera, e contra a qual, o nosso grupo ‘novíssimos’ pretende oferecer séria resistência, batalhando pelo sentido social e renovador da arte moderna’’. Os “novíssimos”, reportados por Sarney, outros não eram senão aqueles frequentadores da Movelaria Guanabara, de titularidade do pintor e desenhista Pedro Paiva, congregando Tribuzi, Belo Parga, Murilo Ferreira, Carlos Madeira, quando em São Luís, Evandro Sarney, Domingos Vieira Filho, Antônio Luís e as aquisições de Gullar e de Burnett, sem o olvido da legião de pintores, melhor chamados artistas visuais, que iluminavam o grupo intelectual. O poeta José Sarney não apenas anunciava a publicação do seu livro de estreia, Poemas, depois postergada para não queimar a largada, mas também da antologia por si organizada, Cancioneiro da Ilha, reunindo a novíssima poesia ludovicense, acrescida de um esboço histórico da literatura maranhense, igualmente não aditada. O entretecer do canto personalíssimo era real. Eis dois exemplos:

 

O rio

 

Desliza.

Ninguém é tão triste quanto ele pensa ser.

O dia de seis a seis, a noite de seis a seis.

Vai, vai, vai. As que foram não voltam.

E as que vêm seguem o itinerário das outras.

 

O rio, é a própria condição da gente.

Quem o turva são as barreiras

E só quem o limpa é o mar.

 

Extrema elegia

 

Meu corpo é teu, ó noite eterna de desprezo.

Minha alma carregada de sonhos, dormirá na

Inconstância de tuas sombras poliformas, e

Eu serei apenas o que desejei ser: teu.

 

Ó noite eterna do sofrimento que me seduz

Tragicamente. A inocência roubaram-me aos doze anos.

E há de vir o deslocamento dos montes e a voz,

Para que eu entre puro na tua solidão.

 

Eu serei teu, ó noite. Meu sexo entrará em ti

Para redenção dos meus pecados. Isabel perdoará

Esperar-me em seu leito na hora em que me quiseres.

 

Lágrima, vem lavar a minha máscara múltipla

Fixada espectralmente sobre meu temperamento triste

Tombado na melancolia de uma esperança da noite.

 

Algumas das principais estruturas simbólicas da literatura de José Sarney ali já estavam presentes, a começar pela água, a fonte vital de Tales de Mileto e elemento primordial celebrando nas mais diferentes manifestações religiosas, a significar fecundidade, nascimento, fertilidade, passagem, transformação, renascimento, força e purificação, rediviva nos títulos dos seus livros de prosa de ficção: Norte das águas e O dono do mar. De outro ângulo, a dualidade corpórea e espiritual, consubstanciada nos mistérios de sonhos, sombras, desejos, tragédias, sofrimentos, posses, pecados, solidão, máscaras, tristezas, melancolia e esperança, dentro da noite do Ser, em uma ontopoética georreferenciada e aeroreferenciada, situada pelas expectativas espectrais da transcendência, em busca da redenção. Em síntese, canto sob o signo do Amor, a poética de José Sarney o entoa de maneira sitiada, coma sombra da angústia, de Soren Kierkegaard, da tragédia, de Martin Heidegger, e do nada, de Jean-Paul Sartre, perseguindo, entretanto, a divina consolação, de Mestre Eckhart, e a aposta, de Blaise Pascal. Elementos, estes, visíveis em A canção inicial, três vezes comprovados:

 

Meditação sobre o Bacanga

 

(…)

Ele vivia além e tinha fome, mas pensava. 

Comeu os pensamentos devorando os dias 

o nome e a noite.

 

Doce rio que vem e bóia

na enseada.

 

Águas barrentas, sujas,

liberdade que morreu

e se afoga

no Mar.

 

Medito sobre mim que já sou morto: 

as canções fúnebres que me pesam

como pedras no vazio do

lembrar.

 

— Barquinho de vela

que vai sobre o mar.

Boneca amarela

que me vem roubar.

 

Meus olhos fenecem e o presságio dorme 

no espelho das águas que 

escorrem.

 

Canto de saudade

 

Tua presença é clara: fugidia e ansiosa 

esvai-se na vaporosa noite de gases e sonhos. 

Tuas formas perdidas recompõem a rosa 

arrebatada rude do jardim tristonho.

 

Vagas em mim. Nas veias navegando

relaxas os sentidos e adormeces a angústia

julgada eterna, na infinita viagem

na perdida noite estranha e fria.

 

Rosa que a morte desfolhou na morte, 

partiu fantasma, persistindo em mim 

na abstrata indecisão de vida e cores.

 

Tua presença é clara. Vagas nas veias

qual o barco da noite em ondas vazias

carcaças quebrando de encontro à lembrança.

 

O beco

 

(…)

Ânsia de sons que enchiam o tempo.

O corpo frio e rígido do velho avô

guardado na sombra do guardanapo.

 

Morto o brilho dos olhos de esperança

de minha irmã rompendo o véu dos sonhos. 

As pedras caídas friamente no mar, 

e perder os caminhos que amava.

 

Meus olhos estão cobertos de noite

para olhar o tempo, o casario e o muro

envelhecerem.

 

Estranha presença de lembranças mortas: 

eu, o beco, minha irmã e o mar.

 

Rua e casa. Casa e rua.

O silêncio. As pedras.

 

Paredes fendidas pela trágica ternura. 

Musgos e o tempo escondido nos escombros.

 

“Rosa que a morte desfolhou na morte” — perante o verso paradigmático de José Sarney, com efeito, é pertinente perguntar: por que o poeta, cuja estrela ascendia no céu do canto, como se avaro fosse, demorou mais de um quarto de século para retornar ao oceano mágico do verso, com as velas pandas de A canção inicial, de 1954, navegando até a praia de Os maribondos de fogo, em 1978? O vértice da existência, aberto o leque, conduziu o existente, como diria Emmanuel Lévinas, para uma amplitude de experiências que configuram um misto de somatório e de divisão entre a literatura e a política, com esta levando o jovem poeta José Sarney a ser, sucessivamente, Deputado Federal, Governador de Estado, Senador da República, Presidente Nacional de Partido, Vice-Presidente da República, Presidente da República e Presidente do Senado Federal. Segundo outro ilustre maranhense, o Ministro Renato Archer, do depoimento Diálogo com o tempo, na Carteira de Trabalho e Previdência Social de José Sarney está escrito: “Profissão: Poeta’’. Mito ou verdade, a mitologia, se o for, conquistou veracidade, posto que o acendrado amor de Sarney pela literatura a justifica de forma soberana. Se, contudo, se tratar de pura verossimilhança, será aquela espécie de verdade que, de tão verossímil, desfrutará da capacidade fundadora de uma mitologia. Veraz é a consideração de que, mergulhado na política, a palavra foi um dos distintivos do literato maranhense, o qual pronunciou mais de mil e duzentos discursos, notabilizando-se como um dos principais oradores da vida pública brasileira do século XX. Criador do Ministério da Cultura e o promulgador da Lei Sarney, de incentivo às artes e às letras, o homem de espírito, em José Sarney, não desertou do homem público.

 

Os maribondos de fogo, com ilustrações de Péricles Rocha, ao ser lançado no auge das paixões políticas, foi livro recebido em brasas cruzadas, em que muitos, que nunca viram ou abriram o volume, na tradição pícara de Oswald de Andrade, a quem também desconhecem, não leram e não gostaram. Quem subscreve este ensaio, em Atenas Brasileira: a cultura maranhense na civilização nacional, madrugou na compreensão, à margem quer do aulicismo, quer do preconceito, do autêntico significado do vigoroso livro de poemas, de singular temática, domínio do verso e consciência rítmica, ao escrever: “A poesia, na urdidura sarneysista, foi também uma maneira, ora de relacionar, ora de festejar Portugal e Maranhão:

 

LEMBRO-ME do Infante Henrique e

Volto a subir a ladeira do Desterro.

— SAUDADES de Portugal

— Cantares do Maranhão.

 

E mais, em complemento: “De certa perspectiva, o que o poeta José Sarney realizou foi a construção, às avessas, da ‘Canção do exílio’”. A saudade e as excelências passaram a ser lusitanas, entre frutas, destino, riachos, ventos e oceanos, não obstante os testemunhos de sua presença aqui. A seguinte colação de fragmentos talvez permita a constatação dos primores com que o cantor, perseguindo formas ibéricas, levantou brindes a Portugal:

 

Saudades do cais do Tejo

 

Alcobaça, Aveiro, Açores

Nas teias da eternidade

Estre musgos e beirais

Na sombra das horas todas.

 

Mas as águas que escorrem

Navegando em velhas tábuas

Por noites, luas e tempos

São frutos do meu destino:

Saudades de Portugal.

 

Eu vou morrer tu jamais

Eu vou jamais tu somente

Porque as águas que correm

São meus eternos riachos

Das serras de Portugal.

 

É sombra daquele dia

Beja, Varzim e Leiria,

Estremadura e Funchal,

Cavalos dos oceanos

Bons ventos de Portugal.

 

São vagidos escondidos

Deixando o choro incessante

Do navegante da morte

Em pedra de cantaria:

Rossio, Alfama, Lisboa.

 

Venho chorar sem chorar

Para beber dessa água

O gosto de claridades

Nas horas dos oceanos.

Saudades de Portugal.

 

O canto ecológico de José Sarney, tecendo a intertextualidade entre o Maranhão e Portugal e prestigiando a cultura ibérica, encontrou ancoragem na interpretação contida em Raízes do Brasil, do jovem e atemporal Sérgio Buarque de Holanda. A este ou àquele causou estranheza o tópico “Romanceiro”, em Os maribondos de fogo, com os poemas “Carrancas do Ribeirão”, “Romance do Amor Viúvo ou de Gabriel, o que Perdeu a Mulher na Flor dos Anos” e “História de Marizita e a Missa de S. Bonifácio”. Ora, as cantigas medievais galego-portuguesas, o trovadorismo e os romances, a exemplo do “Romance da Nau Catarineta”, e do “Romance da Bela Infanta”, continham narrativas em verso muitas vezes, mas nem sempre por meio da rima assonante na redondilha maior. Os Romances Viejos, da poesia espanhola, talvez a mais bela expressão da poesia universal, estão no fundamento do canto sarneysista, conhecedor do “Romance de Abenámar”, “Romance de Rosa Fresca”, “Romance de Blanca-Niña”, “Romance del Conde Arnaldos”, “Romance de la Hija del Rei de Francia” e “Romance de Doña Alda”, desembocados nas Cantares, de António Machado, e no Romanceiro Gitano, de Federico García Lorca. Também elíptico, não somente rítmico e narrativo, o poeta Sarney esculpiu em alto relevo o seu camafeu, na artesania do maçarico estrelado:

 

Homilia do Juízo Final

 

TENHO um encontro com Deus:

—José!

onde estão tuas mãos que eu enchi

de estrelas?

— Estão aqui, neste balde de juçaras 

e sofrimentos.

 

Quando o sucesso da prosa de ficção — com O dono do mar, em 1995; Saraminda, em 2000; e A duquesa vale uma Missa, em 2007 —, parecia tê-lo afastado da poesia, de entremeio, em 2002, foi lançado o livro Saudades mortas, cujos papéis amarelados, vidas sombreadas e o retorno uterino à terra recolocaram o cantor frente ao espelho de si mesmo, na fronteira do efêmero e da eternidade. Ei-lo, a meditar sobre a condição humana, de bicho da terra, mas estrangeiro no mundo. Tudo a passar, ou quase tudo, menos aqueles cheiros de delírios, lembranças de um mundo em evasão cortante dentro de si, navegando a psique do poeta maduro e sofrido, a contemplar o passado e a perscrutar o futuro, em modelagem do seu equilíbrio alado: mais que a secura racional, de João Cabral de Melo Neto e menos do que o dilúvio bíblico de J. G. de Araújo Jorge. Exemplo:

 

A varanda

 

(…)

Varandão, varanda, chuva,

verde alegria molhada.

Só o silêncio vazio

habita no varandão.

Águas conversam e murmuram,

falam de invernos passados,

contam contos de besouros,

pedem perdão das goteiras.

Remoem como moendas,

em voltas que não acabam

as chuvas dos verdes campos.

Enterrados vivem os olhos

que olhavam ventanias,

sacudindo os galhos verdes,

onde pousado cantava

o pássaro do meu destino.

 

Do verde da vida ao vazio da morte, o poeta existente a revolver a existência, o cantor José Sarney, perdido aquele tempo irresgatável, mas dolorosamente pulsante, passou a caber todo em um único verso. Qual? Este: “Ai que saudades de mim!”. Não por acaso, o primeiro poema do livro é intitulado “Revisitando a casa da infância, no outono”, enquanto o último deles é designado “O inverno”, convindo, em busca da necessária síntese, realizar o seu chamamento à colação:

 

Revisitando a casa da infância, no outono

 

(…)

Volto ao batente da despedida.

Olho para trás.

O que viveu vive

e está morto

e foge dos meus olhos

e de minhas mãos.

As candeias de azeite

não iluminam mais

porque o escuro clareia.

A luz não existe mais.

Toda memória está cega

na saudade morta.

Eu mesmo não estou em mim,

liberto para sempre da felicidade.

 

O inverno

 

(…)

Há promessas de trigo

e milho.

Flores se abrem no peito

e se levantam sombras.

Até quando esta miragem floresce

e o inverno permanecerá dormindo

à espera da volta?

Quantos ventos e chuvas passarão

escondidos nessa espera?

Eu permaneço na ânsia de chegar

em meio dessa tempestade fria,

gélida, branca e cortante

que me congela a espera.

 

Ensinou-nos Johann Wolfgang von Goethe, no Fausto, uma desafiante verdade: “Toda teoria é cinza e só é verde a árvore de dourados frutos, que é vida”. Eis o motivo pelo qual o poeta José Sarney espera de maneira proativa, filtrando o sulco das sementes em meio a dores, sombras e saudades, para reinventar a esperança no advento de luz, mais luz. De onde o antecedente canto de “O inverno”: “Passa a borrasca, — a torpe travessia — esvai-se na onda dissipada. — Renasce a luz, — e de novo esperamos viver. — Canta-se o canto, — e a natureza é outra. — Há promessas de trigo — e milho”. Vida, Luz, Promessas, Esperança, Canto, Trigo e Milho, a ponderar, na madurez, o verso do artista quando jovem: “Agora sou apenas carne, puramente carne”… Sim, carne, que todos têm e espírito a lapidar, por muitos indescoberto para sempre. Nisto reside o diferencial de José Sarney: ter alma. E alma de poeta.

Fotografia de Rossini Corrêa

Rossini Corrêa: Advogado, Escritor e Filósofo do Direito, com mais de40 livros publicados, entre os quais se destacam: Saber Direito-Tratado de Filosofia Jurídica; Jusfilosofia de Deus; Crítica da Razão Legal; Bacharel, Bacharéis: Graça Aranha, discípulo de Tobias e companheiro de Nabuco; Teoria da Justiça no Antigo Testamento; José Américo, o Jurista; Política Externa Independente: contribuição crítica à história da diplomacia nacional; O Liberalismo no Brasil: José Américo em perspectiva; Brasil Essencial: para conhecer o país em cinco minutos; O Bloco Bolivariano e a Globalização da Solidariedade: bases para um contrato social universalista; e Romeu e Julieta no Brasil. É membro titular do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal – IHGDF. Pertence à Academia Brasiliense de Letras – ABrL e à Academia Maranhense de Letras – AML. É Patrono da Cátedra Gonçalves Dias, da SVT Faculdade de Ensino Superior e foi Coordenador da Cátedra Daisaku Ikeda, do Centro Universitário de Goiás-Uni-Anhanguera.

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