Cultura

História das ideias | Rossini Corrêa

Imagem: https://visitbrasil.com/

Em uma perspectiva genética, a história das ideias no Maranhão, enquanto formulação complexa de cosmopercepções, começa no período pré-cabralino, com a simbologia ancestral, ainda por decifrar, dos conjuntos tribais Tupinambás e Sambaquieiros, no litoral e na baixada e Timbiras, no interior e no sertão. Registrou-se, em seguida, a projeção oceânica da Europa, produtora do encontro desigual de civilizações, com o advento da história escrita pelo colonizador português e metropolitano, a dilatar, segundo o verso de Luís de Camões em Os Lusíadas, a Fé e o Império, trazendo consigo uma mundividência ora genocida ora subordinante do outro, isto é, do indigenato, despojado senhor multimilenar da terra. 

 

Dividiram-se fazendeiros e religiosos, naquela que João Francisco Lisboa classificou como a questão mais abrasada do Brasil Colonial. Agostinianos, franciscanos, mercedários e jesuítas, em particular, desembarcaram no Maranhão a visão de mundo eclesiástica condensada na vida europeia, quer fundassem quer não tivessem províncias missionárias, a disseminar os eloquentes signos da patrística, da escolástica e do barroco, deixando após si os ecos memoráveis das vozes de Claude d’Abbeville, Yves d’Évreux, Padre Antônio Vieira, Padre João Felipe Bettendorff e Padre Gabriel Malagrida. Como houve mais eficácia no genocídio do que na escravização do indigenato, a transumância africana, no chamado escravismo moderno, trouxe os povos do carvão queimado, também e fortemente, para o Maranhão, destino de nações étnicas advindas da Costa da Guiné e de Angola, bantos, jejes, iorubás e fanti-ashantis, que desaguaram mitologias poderosas, no sentido emprestado por Claude Lévi-Strauss e Roland Barthes, bem como por Sérgio Buarque de Holanda, na formação miscigenada da cultura da terra do rio e do mar correntes. Macumba, umbanda e terecô fermentam em São Luís, Codó, Alcântara, Caxias, Coroatá, Pedreiras, Açailândia, Imperatriz e Timon. O tambor de mina e o bumba-meu-boi são testemunhos culturais desta visão de mundo.

 

Grávida de ideias foi a Revolta de Beckman, vinculada à aurora do Movimento Iluminista em sua vertente radical, mas contraditória, nascida na Holanda, contemplando em si as perspectivas anticolonialistas e escravistas… Posteriormente, restaria visível a antinomia, já na França do Século das Luzes, expressa na afirmação europeia do Estado Nacional, advindo do absolutismo para o liberalismo, contraposto ao violentado estatuto colonial, a funcionar sob o escravismo, com o embargo a toda e qualquer vontade de autonomia. Era a reprodução do Pacto Colonial, contra o qual voltou-se a Junta Geral de Governo, a congregar, desde a Câmara Municipal de São Luís, latifundiários, comerciantes e eclesiásticos, demandando em favor da autonomia independentista, sonegada pela repressão portuguesa, que tudo desconstituiu, enforcando Manoel Beckmann. 

 

Mudaram-se os tempos, emergiram robustas vontades e, ainda que atípica, foi elaborada a Independência Nacional, para a história de cujas ideias a presença maranhense foi inafastável. A começar por José Cândido de Morais e Silva, antepassado do filósofo, jurista e escritor Graça Aranha, o qual, formado no Partido Brasileiro, combateu o Partido Português, em sintonia com o humanista, parlamentar, tradutor, poeta e publicista Odorico Mendes, o qual propiciou, para a sociedade nacional em emergência, como gênio da tradução criativa, o conhecimento das épicas da Antiguidade Clássica, vertendo para o vernáculo A Ilíada, A Odisseia, de Homero, e A Eneida, de Virgílio.

 

Era a origem do Grupo Maranhense, que cumpriu um papel indisputável na ontológica construção de uma alma, de uma subjetividade, enfim, de um espírito nacional. Gonçalves Dias — como corifeu de uma grei em que formavam Odorico Mendes, Sotero dos Reis, Gomes de Sousa, João Francisco Lisboa, Antônio Henriques Leal, César Augusto Marques e, para ser minimalista, Luís Antônio Vieira da Silva, antecedidos, em muito, pelo mártir da verdade da autonomia nacional—, com a ressignificação do indianismo, sob a americana poesia do ameríndio brasílico, colocou o afluente homem, a aflorante mulher, nos patamares dignificantes da exemplaridade já alcançada pela condição humana. Neste sentido, Antônio Gonçalves Dias, mestiço de europeu, ameríndio e africano, foi o fundador espiritual, no sentido conjunto, do homem nacional brasileiro.

 

Assim como o poeta, romancista, teatrólogo, historiador e etnólogo Gonçalves Dias foi a culminância do romantismo, em paralelo, tiveram os maranhenses papel fundacional, protagônico, relevante ou emblemático, na esfera nacional, com a moralidade na Esfera Pública, de João Francisco Lisboa e seu Jornal de Timon; com o pioneirismo no estudo científico do folclore, de Celso de Magalhães e seu ensaio A Poesia Popular Brasileira; com a presença consular na literatura realista e naturalista, haja vista a concessão de voz aos escravizados em Úrsula, de autoria de Maria Firmina dos Reis, fundadora do romance nacional feminino, bem como de mulher negra no Brasil; com a denúncia dos preconceitos étnicos da sociedade aristocrática, que não suportava conviver com a sua obra violentadora, qual seja, a miscigenação, expostos em O Mulato, de Aluísio Azevedo; e com a crítica de costumes visível no conto e no teatro de Arthur Azevedo, abolicionista convicto e escritor interessado na realidade envolvente, como o demonstra o texto de O Escravocrata.

 

Somente? Não, nunca, jamais. Joaquim Nabuco, ao escrever a multibiografia do Segundo Reinado e refletir sobre a sua jornada de lutador social, registrou a participação cotidiana, incessante e existencial de Joaquim Serra na causa da abolição, em uma pregação jornalística que está por ser inventariada, resgatada e perpetuada em livro.

 

Figura esplendente foi a de Graça Aranha, autor do romance filosófico Canaã, integrante da Escola do Recife, discípulo de Tobias Barreto, partícipe da renovação dos ideais jusfilosóficas no Brasil, companheiro de Joaquim Nabuco na política nacional e internacional, retratado pelo artista visual Cícero Dias, que dividiu ateliê com Pablo Picasso em Paris, como um conhecedor sem paralelo da ideias estéticas no país, quando dos embates da Semana de Arte Moderna, que não existiria sem o seu concurso e a sua presença, sobrevivendo às campanhas subreptícias de desconstrução, típicas do conflito de gerações, promovidas por Oswald e Mário de Andrade. Assim como Maranhão Sobrinho foi um corifeu singular do simbolismo, em dialogia com aqueles semeadores de poesia moderna — Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud, Paul Verlaine e Stéphane Mallarmé—, Sousandrade, que estudou na França e foi referenciado pelos Estados Unidos, contribuiu para a modernidade literária no Brasil, do que O Guesa é testemunho. O poeta em questão, siderado pelos Estados Unidos, tornou-se um apóstolo do seu republicanismo, Intendente de São Luís após o 15 de novembro de 1889 e criador da bandeira do Estado do Maranhão, inspirada na flâmula estadunidense.

 

A bandeira do Brasil foi concebida, por Teixeira Mendes, o qual, filósofo, matemático e doutrinador, autor de Benjamin Constant, aquele que realmente proclamou a República, conferiu-lhe estrelas, esfera azul e a adaptação — Ordem e Progresso— do dístico de Augusto Comte, pai do positivismo e criador da sociologia: ‘O amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim’. Não merece o olvido a condição de precursor de Nina Rodrigues, destacado criador da medicina legal brasileira, tanto quanto das pesquisas empíricas em antropologia, do que são exemplificação Os Africanos no Brasil, ainda que portadoras da marcação racialista, crença entremeada na suposta e equivocada ciência do século XIX, bebida na fonte antecedente e preconceituosa da taxonomia de Carlo Lineu, a tipificar e a hierarquizar as raças em superiores e inferiores.

 

O século XX confirmou a vocação maranhense para a história nacional das ideias, em nítida demonstração da continuidade de uma cultura, em que a dialética entre tradição e renovação não esbarrou na renúncia de si mesma para ser outra, sob o salto no trapézio sem rede, para ser nada. Ao contrário, o substrato de permanência da cultura gonçalvina e sua projeção na civilização brasileira em formação, reside na sua capacidade renovada e renovadora de ser outra de si mesma, ressignificando a tradição egrégia de que é portadora. Nomeadamente intertextual foi a antropologia etnológica de Nunes Pereira, libertado das contingências eugenistas de Nina Rodrigues e do espírito eurocêntrico de sua época, que permitiu a elaboração dos clássicos A Casa das Minas: Culto dos Voduns Jeje no Maranhão e Moronguêtá: Um Decameron Indígena, festejando as poderosas vertentes africana e ameríndia da cultura maranhense, miscigenada, em sua elaboração temporal e espacial, com a tradição ibérica.

 

Desta maneira, a crônica política, crítica e/ou doutrinária de José Cândido de Morais e Silva, Odorico Mendes, João Francisco Lisboa e Joaquim Serra, com efeito, sobreviveu transfigurada em Odylo Costa, filho, Neiva Moreira e José Sarney. Neiva Moreira exceleu como partícipe e enquanto testemunha das refregas nacionalistas e dos embates anticolonialistas, pregando o socialismo democrático. Franklin de Oliveira, por sua vez, notabilizou-se como um pensador político, com a publicação de Que é a Revolução Brasileira? e Revolução e Contra-Revolução no Brasil, posicionando-se em favor de um socialismo ético e projetando-se enquanto filosofo da cultura. Aliás, o instante épico da Academia Brasileira de Letras, em 19 de junho de 1924, foi uma condensação das duas pilastras da cultura maranhense: a da tradição clássica, com Coelho Neto (‘Serei o último heleno’) e a da abertura à renovação (‘Se a Academia não se renova, morra a Academia’). 

 

Refinado pensador da estética foi Oswaldino Marques (Ensaios Escolhidos), e poderoso filósofo da cultura foi Ferreira Gullar (Vanguarda e Subdesenvolvimento). Para que, todavia, ninguém proteste, arguindo que os maranhenses só refletiram sobre as coisas do espírito, recorde-se Ignácio Rangel (Obras Reunidas), pensador econômico sem paralelo no Brasil, em se tratando de originalidade criativa, formulador de lei científica, qual seja, a curva de Rangel, festejada por Bresser Pereira. Mas a glória maior da cultura maranhense e sua incessante projeção nacional, reside na circunstância de que, não podendo este verbete ser a novela das mil e uma noites, termina com quase tudo a consignar quanto à história das ideias, por mais que tenha trazido à superfície uma presença de densidade e de qualidade dificilmente contrastáveis na história da cultura brasileira. 

fotografia de Rossini Corrêa

Rossini Corrêa: Escritor, Advogado e Professor, membro da Academia Brasiliense de Letras, da Academia Maranhense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, da Academia Maranhense de Cultura Jurídica, Social e Política, da Associação Nacional de Escritores e da Sereníssma Academia Agostiniana.

Qual é a sua reação?

Gostei
0
Adorei
0
Sem certezas
0

You may also like

Comments are closed.

More in:Cultura