
Com um antigo selim e um antigo guidon de bicicleta, Picasso construiu o “Bucrânio” que transcende aos touros da arena. Ó ruminante de imortalidade!
Epigrama de procedência metalinguística extraído do tridimensional “Cabeça de Touro”, um simulacro de bucrânio criado por Pablo Picasso, através da apropriação de arcabouços industriais, ou seja, da fusão de duas peças de um ready-made: um guidon e um selim de bicicleta que se encontravam exonerados de suas funções primordiais e foram reutilizados e ressignificados pelo criador malaguenho, que operou esta síntese mediante uma dupla metamorfose, original e significante, reunindo dois conceitos fundamentais das Artes Visuais Contemporâneas, a saber: ready-made, objeto de origem industrial, exonerado de sua funcionalidade original e de seu contexto visual, pelo artista que livremente o seleciona como obra de arte para ser pensada, enquanto o outro conceito desta reunião chama-se objet trouvé, isto é objeto encontrado. Acredito que esta foi a sobremaneira junção destes conceitos numa mesma obra e, neste caso, para criar um objeto artístico tridimensional não escultórico. Que mesmo sem comportar ilusão cinética, guarda sutil remissão à mesma, causada pelo guidon de bicicleta alusivo aos chifres do animal, que remete ao movimento do veículo. Aí, também se evidencia a existência de um contraste formal entre a rigidez mecânica da parte superior do constructo, provocada pela colocação do guidon e sua parte inferior, composta pelo selim cuja forma é dotada de aparente sinuosidade. Esta parte de cima, formada pelo guidon, remete ao poder político espanhol de então cuja direção era extremamente dura, enquanto a sinuosidade do selim remonta a uma saída de tal situação.
Apesar do título que ostenta, este tridimensional não procede da reprodutividade técnica da cabeça taurina, tanto que não é representativo mas alusivo e, ao contrário, trata-se de um artefato artístico inventado, que possui sua própria lógica construtiva, minimalista, justificando sua frontalidade ao impor-se como símbolo da cultura nacional espanhola e da resistência antifascista, ainda que, em 1942, ano de sua produção, os fascistas já tivessemtomadoopoderpolíticonaEspanha.
Convém ter em mente que esta obra, materialmente extraída da precariedade e faturada com economia de meios, a partir de objetos encontrados e empregando o mínimo de recursos técnicos, daí ser minimalista, foi criada pelo gênio espanhol que se opôs com suapossemaissublime,istoé,suaarte,aoNazifascismoesuaexpansãona Europa.
Portanto, trata-se de um autêntico marco artístico e histórico que permanece exposto no Museu Picasso, em Paris, para ser visto e pensado como uma expressão da resistência política e cultural espanhola; um signo de advertência contra o terror político e social que assolou a Espanha durante quase trinta e seis anos, no século XX.
Ao batizar meu epigrama rebatizei o objeto artístico e estético picassiano ressignificando-o como um “Grande Tratado Da Imortalidade”, ressignificação que, entretanto, guarda referência dúbia, porque a imortalidade cantada no poema em prosa que justifica esta exegese pode corresponder tanto para o autor do mural “Guernica”, quanto ao próprio constructo que foi o estímulo material para que eu escrevesse o presente texto, porquanto ambos, neste caso, o criador e a criatura, tornaram-se, filosóficaepoeticamente,”ruminantesdeimortalidade!”
CoutoCorrêaFilho
IlhadeSãoLuís,Julhode2026
NoventenáriodaGuerraCivilEspanhola

PabloPicasso,Têtedetaureau[CabeçadeTouro],primaverade1942.Selime guidãodebicicleta,couroemetal,33,5×43,5×19cm.Musée NationalPicasso-Paris,MP330.©SuccessionPicasso.
Couto Corrêa Filho é poeta, ensaísta, crítico de artes visuais e ator de cinema. Doutor em Filosofia, é autor, entre outros, de Por Espanha, livro de poemas vencedor do quase centenário Prêmio Literário Cidade do Recife.










