Cultura

Fundanga | Xico Simonini

imagem: cocada branca

Segundo o menestrel Tim Maia, o Reino

é tão surrealista que “cafetão apaixona,

puta goza e traficante vicia”.

Pepê, Vassalo do Futebol, arremata de trivela:

“…e gorila golpista defende a Democracia.”

 

Era uma vez… Era uma vez…

Um Reino distante… Muito distante… Encravado lá pelas bandas da Infernália do Sul… Pras bandas de cima, fazia fronteira com a Infernália Central e, mais ainda, pras bandas mais de cima, com a Infernália do Norte, ali, bem ali, onde se localizava o nicho ardente e picante de doidejante Xerife. Um Reino distante… Muito distante… Gomo de uma Bola chutada infinito afora, infinito adentro… Também conhecida por Mundus Horrendus…

Terra soturna, de homens soturnos. Até o nome soava macambúzio – Reino de Fundanga! Habitado por Fundangueiros e Fundanguenses de espécies mis e vis, sempre a mil, dançado a dança da boquinha da garrafa, em frenético e pornográfico bom xibom, bumbum catiribum, na coreografia rebolativa de bumbuns flácidos e balofos, abundando celulites aos borbotões, estrias aos trambolhões e varizes aos borbulhões. Sempre vazadas num vavazá concupiscente dos diabos, diabices, bacos e baconices.

Lugar sorumbático onde o Imperador, Sua Majestade Fernando Sir Ney Itamares de Collores Verdes Oliva, e quem mais alvorar, alvoroçar e arvorar pelaí, assessorados por Bruxos, Cartolas, Bate- -Paus e Assemelhados, sempre cantados e decantados por bajulismos, bajulices e bajulações, festejados pela Corte papa-jantares, balabrega e godera. Tanto uns quanto outros, exímios detentores da capacidade mefistofélica de, num passe maligno, transformar, sistematicamente, “os amanhãs piores que os hojes”, segundo emérito Súdito Jornalista de nome Carlos Chagas.

Eram prepostos, prebostes e prebendados de Imperadores mais Poderosos, d’além-mares e d’além terras e, como tais, fiéis cumpridores das ordens, mandamentos, bulas e determinações emanadas de seus superiores da Metrópole.

Claro, lógico, evidente, a atitude submissa e entreguista era, regiamente, recompensada. No Reino de Fundanga, dirigente que era dirigente e que se prezava amealhava o seu. Troca-troca obsceno, indecente, periculoso. Nada era feito por incompetência, ignorância ou inconsequência. Tudo pesado, medido e empacotado perversa e criminosamente.

Reino de Fundanga… Reino destas Fundangas Varonis…

Rico como ele só! Terras abundantes, clima variado, boa distribuição de águas, minerais valiosos, povo miscigenado, cultura maiúscula… Contraditoriamente, pobre como ele só! Pobrezas extremas, misérias esquálidas, ignorâncias crônicas, doenças incuráveis…

Diferente de outros Reinos, o trono não era vitalício, mas a forma de governar, sim. Imperadores se alternavam no Poder por graça demoníaca, às vezes, auxiliada pela força das armas de fogo, pelo fogo mesmo e pela força dos coloridos da mídia. Em verdade, em verdade… Imperadores Títeres – capadócios do trono. Imperadores Uniformizados, Imperadores Bigodudos, Imperadores Mauricinhos, Imperadores Topetudos, Imperadores Socio-lógicos, Imperadores Reeleitos e Imperadores Metalúrgicos. Soberanos para todos os pa-ladares, indigestões, piriris e diarreias, navegando num mar de Planos Econômicos mirabolantes e escândalos espalhafatosos. Useiros e vezeiros da prática malvada da transferência de renda, rendimentos e riquezas de uns todos para uns poucos.

Os Imperadores, sempre nus, ignorando a própria peladez, enquanto úteis, defendidos a ferro e a fogo pelas Legiões Armadas do Reino – Gorilas, Xerifes e Delegas e Carabineiros empedernidos. Eméritos torturadores eletrônicos e torturadores convencionais mesmo. Torquemadas do Hoje, inspirados no Torquemada do Ontem.

Subia Imperador… Descia Imperador… Entrava Imperador…

Três Poderes dividiam a Estrutura de Poder no Reino de Fundanga: o Poder Resoluto, exercido pelo Imperador e seus Conselheiros, também conhecidos como Ministros; o Poder Legislatório, exercido, em sua maioria, pelos pares e ímpares da Minoria, uma Minoria lídima representante da escória do Reino, apelidada de Senadores, Deputados e Vereadores; e, finalmente, o Poder Procidente, exercido pelos Árbitros, Súditos, debaixo de tais e quais, acreditavam eles, subordinavam-se os próprios deuses, endeusados pelas estupefacientes crenças, reverências e mantenças. Alguns deles lalauzavam uns trocos, uns trocados e uns trocadilhos de quando em vez.

O Reino de Fundanga, também conhecido por Fundanga Varonil, adotava a Divisão Federativa com quase três dezenas de Condados, dos quais sobressaía o das Roças Gerais, com mais de cinco mil Burgos, de onde despontava o das Sapitucas Viçosas.

A Sociedade Fundanguense era dividida, basicamente, em duas Castas que, a bem da verdade, não eram duas, eram cinco:

A Minoria – Fundanguenses Dominantes, imbuídos daquela ginga e daquele rebolado singulares, próprios da malandragem juramentada. Maiores ou menores, brabos ou mansos, todos sabidos, malandros, espertalhões – os Doutor Roberto – também chamados de Os Donos da Cocada Preta.

A Maioria – Fundanguenses Dominados, salvas as exceções, plenos de ingenuidade e idiotice únicas. Rotundos ou Magérrimos, Inconscientes ou Alienados, encontravam-se subdivididos em quatro Castas – a dos Boris Borrão, a dos Zemaria, a dos Pepê e a dos Babaquino –, também denominados de Os Cocada Preta.

Era, então, uma vez… Era uma vez… A cocada desandava de vez… Para Os Cocada Preta… Sempre.

Os Cocada Preta, a partir da manipulação criminosa, salvas as exceções, é bom o repeteco, tinham-se na conta de sabidos, viam-se malandros, acreditavam-se espertalhões. Engolidos de modos e maneiras inimagináveis, cultivavam o tétrico hábito de raspar a nuca para facilitar a ação da lâmina do carrasco.

E assim, por assim dizer… A vida corria solta, Fundangueiramente, no Reino de Fundanga Varonil, no Condado das Roças Gerais, no Burgo das Sapitucas Viçosas. Imperadores, Condes, Alcaides… Acompanhados pelo séquito de Ministros, Senadores, Deputados, Vereadores e Árbitros, secundados por alienada turba de Gorilas, Xerifes, Delegas, Carabineiros, Títeres, Cafetinas e Gigolôs. Ornamentando o séquito, planos, mídia, manipulações e escândalos. Inusitada fauna de Bruxos, Cartolas, Bate-Paus e Assemelhados do Reino de Fundanga.

E muita cocada! Cocada pra dar, cocada pra vender, cocada pra comer e, sobretudo, cocada pra roubar. Muita cocada pra ser empalmada.

Os Avanços Políticos, Econômicos e Sociais apregoados, interminavelmente, pel’Os Donos da Cocada Preta – a Minoria – eram engolidos, irremediavelmente, na Inconsequência e na Inconsciência d’Os Cocada Preta – a Maioria.

Para Os Cocada Preta, tudo atolado, aparvalhado e atoleimado no Reino de Fundanga, o paraíso do Capitalismo, eufemisticamente re-batizado de Neoliberalismo, na sacanagem da Globalização. E, no bojo da Fundangagem, o desmonte criminoso e absoluto do Estado, a perda irreparável da Soberania Nacional, a volatilização da Dignidade Pátria.

O Reino de Fundanga é “a terra onde olho vê, mão tira e pé corre”. Razão da maldita proliferação e existência de tantos Bruxos, Cartolas, Bate-Paus e Assemelhados. Reino onde todos nascem, vivem e morrem torcendo Futebol, pulando Carnaval e rezando Religião. Saltitantes e atolados por todos os séculos, dos séculos, amém!

Amém?! Aleluia?!

Fotografia de Xico Simonin

Francisco Simonini da Silva (Xico Simonini)  nasceu em Viçosa, MG, no dia 18 de novembro de 1941. Em sua cidade natal, em Belo Horizonte (MG), Florestal (MG), Pará de Minas (MG), Divinópolis (MG), Piracicaba (SP), Assis (SP), Primeiro de Maio (PR), Juiz de Fora (MG), Cataguases (MG), Ponte Nova (MG) e, recentemente em Santo Antônio de Pádua (RJ) construiu sua trajetória de professor e administrador do sistema educacional, além de marcante atuação na imprensa e na militância político-partidária. Aposentou-se como professor-adjunto na Universidade Federal de Viçosa (UFV), onde exercia suas funções no Departamento de Educação, do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Vem atuando, há mais de cinquenta anos, no sistema educacional público e privado (da educação infantil à pós-graduação), no ensino, pesquisa, extensão e administração. Por iniciativa individual ou coletiva participou da fundação de uma dezena e meia de escolas e cursos em todos os níveis. Sua trajetória é marcada por vigorosa atuação política, partidária e sindical e em campos diversos, como músico, desportista, comentarista esportivo, escritor, poeta, chargista e responsável pela publicação do semanário viçosense “Muzungu”.

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