Cultura

Existe progresso em arte? | José Eduardo Degrazia

Imagem: Europeana

Creio que a arte e a filosofia não têm progresso como o tem a ciência natural. Nesta, as formas mais complexas seguem-se as menos complexas, num encadeamento racional de causa e efeito. Uma descoberta científica, de comprovada eficácia e reprodutibilidade, nunca mais poderá ser deixada de lado. Mesmo quando um novo paradigma se apresenta, ela continuará sendo a base das novas descobertas. Toda experiência científica pode ser suplantada, no entanto, por outra que traga novas evidências. Muito diferente é na arte. Uma grande obra de arte jamais será suplantada por outra. Serão criadas obras novas, diferentes, mas não necessariamente melhores. Na arte e na filosofia, as formas que encontramos são fundamentais por si mesmas; o que se seguirá a elas não será, necessariamente, devedora delas.

 

No caso da literatura os grandes romances e os poemas clássicos têm luz própria inconfundível. Nenhuma obra suplantará outra da mesma qualidade. Serão diferentes, talvez, uma sendo negação da outra, mas ficarão lado a lado, nenhuma sendo superior. Cada uma em seu território ocupado. O tempo se encarregará de apagar diferenças, suavizar contornos. Uma obra que foi revolucionária, no seu momento, poderá tornar-se um clássico e entrar para a tradição, ficando junta com as que a antecederam e que queria suplantar, ou até mesmo destruir. Nenhuma obra substitui outra e todas se influenciam. Como queria Borges, nós criamos as nossas influências.

 

Nenhuma escola filosófica substitui o sistema antigo como uma descoberta científica acrescenta, amplia ou nega a teoria anterior. Não existe um encadeamento – como uma linha infinita –, que tenha início e se projete para o futuro numa linha evolutiva hegeliana ou telhardiniana, mas creio que os sistemas filosóficos se relacionam como as pedras de um colar. O mesmo acontece com a literatura. Os estudos das escolas literárias tendem a fazer com que pensemos que as obras contemporâneas seguiram obras menos perfeitas, como na evolução natural (o que também é discutível). Hoje escreveríamos melhor do que no passado, o que nem sempre é verdadeiro. Escrevemos o que podemos enquanto o tempo nos condena.

 

Uma obra de arte é a imagem do tempo em que foi produzida. Uma manifestação individual e social de um mundo que desaparece com seu criador e com a sociedade que lhe deu forma estética. Ela não mais pode dar aos homens contemporâneos a sua própria imagem. Por isso, a obra antiga quando imitada pelos modernos jamais será a mesma que ela foi no tempo dado, jamais atingirá o seu ápice quando copiada. A chama que a produziu se extinguiu com o mundo que a criou. Mas a obra permanece como manifestação do gênio e do tempo. A imitação dos antigos é um exercício de forma, jamais de essência. Pode-se, e é nosso dever, ler os antigos para aprendermos com eles, mas jamais seremos como eles ou faremos como eles. Isso não nos torna melhores nem piores do que os clássicos, somos diferentes. Cada geração inventa a literatura de certa forma, de novo. Não pensem, no entanto, que as obras clássicas perdem sua função diante das gerações que se seguem no tempo. Pelo contrário, só assim elas se tornam importantes para as gerações seguintes. Por serem únicas e inimitáveis. Resta aos modernos procurar também ser clássicos no seu tempo.

 

Toda a história da arte é finalista. A idéia que está por trás dela é a Verdade. Se acreditarmos numa verdade final, tudo progride para ela – Deus para os religiosos, o estado socialista para os marxistas. Para os que não acreditam num fim absoluto, pode existir o progresso para o nada?

fotografia de José Eduardo Degrazia.

José Eduardo Degrazia nasceu em Porto Alegre em 1951.  Médico oftalmologista, atualmente aposentado. Publicou 40 livros de contos, poesia, romance, teatro e infantojuvenil.  Tradutor de espanhol e do italiano, publicou 14 livros, entre eles, sete de Pablo Neruda. Colabora em jornais e revistas com crônicas e ensaios. Principais Prêmios Recebidos: prêmio Biênio da Colonização e Imigração, com Lavra Permanente, 1974; prêmio de teatro do SNT com a peça A casa dos impossíveis, 1975; finalista do Prêmio de contos Nestlé de Literatura, de 1996, com “O atleta recordista”; finalista do Prêmio Açorianos com Os Leões Selvagens de Tanganica, 2003; prêmio O Sul de Melhor Tradução com livro de Pablo Neruda, 2006; prêmio e Livro do Ano da Associação Gaúcha de Escritores com o romance O Reino de Macambira; prêmio e Livro do Ano da Associação Gaúcha de escritores com os minicontos de Deus Não Protege os Certinhos, 2021; prêmio Mihai Eminescu da Academia Internacional da Romênia para obra em Prosa, 2012; prêmio Internacional de Poesia de Trieste, 2013; prêmio de Poesia da União dos Escritores da Moldávia, 2015; prêmio de Tradução da Associação de Editores da Romênia, 2016; prêmio Karamanov da Macedônia do Norte, 2022.

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