
Algumas partes da nossa história só a nós pertencem e devem permanecer num recôndito zeloso, pois, revelá-las, seria torná-las banais. Ninguém compreenderia o tanto de amor que damos em troca de muito sofrimento, ninguém poderia tocar essas emoções com a devida delicadeza e isenção de julgamento.
Envelhecer é um caminho, uma conquista, não uma maldição ou um castigo. Não passamos impunemente pela vida ou não a teríamos. Como uma névoa que cria espessura, imaginamos um aprendizado que nem sempre se completa porque não temos a eternidade para tal, senão os anos a nos fazerem, pouco a pouco, estátuas que chegarão, inevitavelmente, ao pó. Estamos obrigados a morrer, mas incumbidos a obter alguma sabedoria. Nem tudo cabe dentro do silêncio.
As lições jamais se findam. O tempo, essa convenção humana impossível de mensurar, se pincela nos sulcos indizíveis dos seus olhos iniciados. Sente-se como um cogumelo tóxico, um círculo que gira e muda de forma constantemente. Refletir sobre si fatalmente acontece quando está só: “Do que, afinal, são feitos os diários? Quantos mistérios flutuam na espontaneidade com que são escritos? A sorte não favorece a quem hesita. Ser o que se é, amar e amar-se evitaria muitos sofrimentos. O que foi não torna a ser, nem o tempo, nem ninguém. É imprescindível dar-se ao luxo de viver no amor. Exaltar o sonho que é continuar sonhando apesar das crises e tudo o que há de incerteza. No meio do caminho há meio caminho andado e, depois de meio caminho andado, há outros que serão cavados, obrigatoriamente, ao agir. Há que confirmar a vida todos os dias. O café, o chá, os livros, são cúmplices”.
Devolveu-lhe. “Curiosidade e desejo são molas propulsoras da vida. Viver fora da experiência é viver superficialmente. A flor não é perene, nem por isso a lembrança do seu perfume se perde. No centro de não ficar, quando emitias o som e nele te embrulhavas desvencilhando-te de tudo mais, eras aquele ritmo alegre e ininterrupto, com pausa leve, persistente. Eras no teu não ser perto e nisso te assemelhavas ao músico Mendelssonhn, ao maestro, à composição intacta à tua volta no teu ir e no teu regressar, outro amor que poderia nascer. Entre o provável e o impossível há que escolher o que melhor doura as esperanças. Percebo tua fulgência e tua fugacidade ao ler-te em alguma página solta e solfejante. Como se fugisses entre as notas, as de música, as de cadernos e as de algoritmos. Que, para o que é tanto, não há palavras? Acredita na alma que, antes do tempo e de ti, te confirma e te conduz. Dessas coisas pequeninas que são caminhos imensos. O destino é uma forma de justificar a vida ou uma fuga da realidade, talvez, a própria escrita”.
Disse-lhe mais: “Se as rochas forem insuficientes para conter o mar, remaremos à margem das águas mais claras, com as areias à espera dos nossos corações. Porque o verdadeiro amor vive fora do tempo. Nos lembra do que somos e nos faz silenciar”
“Eu te soube com outro nome. Ao abandono das migalhas. Ao ousar ler-te em voz alta”.
(no livro Luz. Edição de autor: 2024)
Nota biográfica: Tere Tavares, escritora e artista visual, residente em Cascavel, PR, Brasil, autora dos livros Flor Essência (2004), Meus Outros (2007), Entre as Águas (2011), A linguagem dos Pássaros (Ed Patuá 2014), Vozes & Recortes (Ed Litteralux 2015), A licitude dos olhos (Ed. Litteralux 2016), Na ternura das horas (Ed. Assoeste 2017) Campos errantes (Ed.Litteralux 2018), Folhas dos dias (Selo Ser MulherArte Editorial, 2020), Destinos desdobrados (Ed.Litteralux, 2021), Diário dos inícios (Meatanoia Editora, Selo Mundo Contemporâneo Edições, 2021), Luz (Edição da autora, 2024). Conta com publicações em antologias, jornais e sites literários nacionais e internacionais. Integra a Academia Cascavelense de Letras, e o FotoClube Cascavel.
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