
Não temos outro mundo
para tornar mais humano
João Melo
Não há mudança sem sonho como não há sonho sem esperança
Paulo Freire
Tirem o Joelho do nosso pescoço é o mais recente livro de poesia publicado pelo escritor angolano João Melo. Livro que nas palavras do próprio poeta angolano foi “provocado” pela pandemia de Covid 19, tendo sido composto, à exceção dos primeiros sete poemas, de textos escritos entre Março de Dezembro de 2020, tempo em que a propagação do vírus se torna global e atinge o seu expoente suspendendo várias formas de comunicação e impondo um distanciamento físico e um isolamento em que o mundo parece ficar suspenso, “ferido de estranha irrealidade” (Martelo, 2022, p. 13) e tomado por uma interrupção abrupta de formas de comunicação e comunhão adiadas por tempo incerto. Um tempo em que a estranheza global é ao mesmo tempo a de um choque mas também de uma aprendizagem colectiva. Talvez por isso, adianta ainda João Melo na nota introdutória, a escrita deste livro “tenha correspondido a uma estratégia pessoal de sobrevivência, a fim de superar a sombria e depressiva estação que se abateu sobre a humanidade” (Melo, 2024, p 10).
A resposta a uma experiência distópica de interrupção de muitas formas de contacto humano é por isso o ponto de partida de muitos dos poemas aqui presentes1. O “Tempo invisíveis ameaças” (Melo, 2024, p 34) que “escolheu insidiosamente / alguns daqueles que em silêncio / construíam / púdica mas apaixonadamente / novos amanhãs mais claros e mais pacíficos” (Melo, 2024, p 50) é referido de uma forma continuada através de poemas que homenageiam a vida de artistas, poetas que partiram neste período tal como no poema “Mural (Poema aberto) que conclui com uma lista de nomes como um mural com a enumeração de nomes de soldados caídos numa guerra: “os mais visionários, / os mais criativos, / os mais simples e generosos // Muitos deles sempre tinham visto os seus nomes / obliterados em surdina / pela indistinta voragem do quotidiano // Por isso escrevo todos eles, os conhecidos e os desconhecidos, os que já se foram e / os que hão de ir, neste mural / poema aberto” ((Melo, 2024, pp. 51, 52). A referência à morte como experiência concreta provocada pela pandemia torna-se assim imperante no conjunto de poemas que constituem a primeira parte do livro, tais como “Lamento para Guayaquil”, “Epitáfio”, “Incómodos mortos” e “1 dia: 13 de Maio de 2020”.
Paralelamente à propagação da pandemia o ano de 2020 foi também marcado por um conjunto de ações violentas de repressão policial nos Estados Unidos da América que geraram uma onda de protestos à escala global. Entre os protestos e ativismo político gerado a ação poética, artística foi amplamente usada numa conexão com o movimento Black Lives Matter. Entre um dos casos mais impressionantes e influentes para a expansão de um movimento mais ativo de resistência encontra-se o caso de George Floyd, cujo título do livro é uma alusão directa ao momento da sua morte. “Tirem o Joelho do nosso pescoço” faz alusão à morte do jovem afroamericano George Floyd após agressão policial prolongada, sendo a causa da morte por sufocação devido à pressão do joelho do agente policial sobre o seu pescoço. A extrema violência de uma morte provocada pela impossibilidade física de respirar, imagem rapidamente propagada através de vários meios de comunicação ganha um poder simbólico não só de um momento mas de um contexto histórico de opressão racial contra a população negra e os seus direitos humanos nos Estados Unidos da América. A cidade onde ocorreu o assassinato de George Floyd, Minnesota em Minneapolis constitui urbanisticamente um reflexo de uma desigualdade racial nas condições de vida da população. Os subúrbios habitados maioritariamente pela população negra são também as áreas mais desprotegidas e mais vulneráveis onde o investimento autárquico (remodelação das ruas, escolas) é mais reduzido. Isso deve-se em grande parte à desigualdade na criação de riqueza das diferentes áreas urbanas que por várias vezes caem num esquecimento público e afastamento em relação a outras manchas urbanas. O distanciamento parece então maior, atravessando uma rua a paisagem muda abruptamente, estamos numa zona leste, um bairro negro ou densamente povoado por imigrantes legais e ilegais recém-chegados.
O contexto histórico que João Melo refere é paradoxal, diante da irrealidade que avança o poema é uma presença concreta mas também um risco – um mergulho numa realidade que se enfrenta, no “Poema de risco” a voz poética é a própria morte, anunciada no primeiro verso para no seu discurso afirmar um conjunto de imperativos positivos e negativos, máximas e concelhos que o próprio poeta – alguém em risco – deve considerar e seguir: “Não acredita nos deuses / sejam eles múltiplos / ou um só / e todo poderoso // Ama uma só mulher, / mas não esquece / as velhas paixões efémeras, intensas e únicas / que o conduziram / até esse amor definitivo” (Melo, 2024, p. p. 74). O que diz a morte enquanto conselho é da ordem da criação poética: “Recorre à ironia / como último recurso”, mas também da ordem da sobrevivência, ambas indissociáveis num poema de risco. Se escrever é também uma sobrevivência a morte, aumentada agora enquanto a voz de um médico, de um terapeuta, anuncia: “Você faz parte do grupo de risco…”, o diálogo completa-se com a resposta e afirmação de vida enquanto uma forte apologia da vitalidade que há no risco “Todos esses riscos … os surpreendentemente aleatórios, hão de prender-me à vida até à eternidade! (Melo, 2024, p. 76)”. A eternidade e a vitalidade da sua exclamação abre o diálogo com outros poemas de Tirem o joelho do nosso pescoço “como uma palavra: alvorada” (Melo, 2024, p. 76), o risco de uma palavra grande, urgente, o esforço poético de a trazer – fazer vibrar – no chão. O risco de afirmar a esperança, enquanto colectivo, toda e qualquer pessoa faz parte de um grupo de risco e de uma afirmação, mesmo na dúvida e na negação – da esperança, ainda assim, que este é um “Tempo de poesia” (Melo, 2024, p. 34), poema em crescendo, de anáforas e repetições que alimentam a sugestão de uma disforia que se tornam rotineira e automática, próximo do tempo outro de “a flor e a náusea” de Carlos Drummond de Andrade, o tempo de “fezes, maus poemas, alucinações e espera” (Andrade, 1945, p. 48), tempo afinal, outro ainda, de “invisíveis ameaças, / tempo de susto / tempo de medo espalhando-se (…) de mentiras insidiosas, / (…) de ódios, / velhos, novos / fabricados por pobres almas binárias / e infelizes, / tempo de oportunismos” ou de “rancorosas conspirações, delírios inesperados” que no entanto se transforma através do risco que há na esperança e na afirmação poética num “Tempo de luta / contra a ignorância contumaz / transformada em bandeira / tempo de coragem, tempo de sacríficio / tempo de generosidade, / tempo de criação” – radicalmente e enfaticamente afirmado um “tempo de poesia!” (Andrade, 1945, p. 34), coragem e risco de vitalidade e sabedoria feita de paradoxos e enfrentamentos em que o diálogo e a dúvida simulada e imperante em tantas partes desta unidade poética afirmam constantemente uma verdade certa e seguramente afirmada e aberta tantas vezes concluída com um ponto de exclamação, se o tempo é de poesia ele é irremediavelmente de resistência e o imperativo torna-se então plural e colectivo, diante de um grupo de risco e de riscos vários que se vê ameaçado, “é preciso não desistir” (Melo, 2024, p. 160) e o tom de urgência é traçado e imposto por um nós “necessitamos”, “precisamos”, um nós ainda maior “são os mortos que dizem é preciso não desistir” (Melo, 2024, p. 160). A esperança é um risco, passado também de mão em mão, dos mortos para os vivos, numa aprendizagem e diálogo: Se “Toda a Esperança é precisa.” A verdade poética está do lado da resistência que se opõe ao caminho aparentemente mais fácil de uma desistência causada pelo hábito de uma experiência de perda da realidade e de verdade, pela propagação de notícias falsas e pelo esvaziamento de sentidos de redes várias, de um “buraco negro do tempo e / ou / da hipocrisia da história” (Melo, João, p. 138).
O amor e a vitalidade que a poesia de João Melo apresentam são ainda de um risco maior, que não deixa de fora o humor e a ironia, mas que afirma com segurança, mesmo nas dúvidas – tão imperantes os pontos de interrogação que pontilham ou terminam os poemas – uma vida maior, porque de todos, uma vida partilhada guiada por uma resistência, são por isso várias vezes os mortos ou a morte quem fala em muitos momentos destes poemas: “Estes mortos” “incómodos mortos” que “deixam no ar uma mensagem: / é preciso respeitar a natureza / cultivar a empatia / reinventar a solidariedade” (Melo, 2024, p. 60), para isso a vida enquanto ordem é a vida enquanto começo, o que fazer, então, diante do fim:
Quando o fim assomar
à tua frente
como um monstro
de sete cabeças, catorze línguas
e milhões de braços pavorosos
quando o fim ameaçar
levar-te na sua bocarra
escancarada e sem fundo
quando o fim te convencer
que o outro lado do espelho
é menos assustador do que aquilo que vês,
– Resiste!
Não temos outro mundo
Para tornar mais humano…
(Melo, 2024, p. 72)
A esperança, o risco e a coragem que há neste livro é então de uma inevitabilidade extrema, de uma outra forma, não há outro caminho senão o risco de nos tornarmos mais humanos, empáticos, sinceros, e criativos, num tempo desequilibrado em que os riscos e grupos de risco são maiores e englobam raças, géneros e condições sociais, ameaçadas por um sistema que apela à homogeneização e a um controlo maior da população e daí a repetição, imperante, obsessiva e gritante do verso isolado “Tirem o joelho do nosso pescoço” (p. 78) que anuncia cada nova estrofe num poema em que a voz poética é não só colectiva mas amplificadora de um mundo que se quer maior e mais humanamente diverso em que todas as estruturas de superioridade “ilusória” com que “tentam apagar-nos da história da humanidade / que nós próprios criamos” (Melo, 2024, p. 82) será derrubado afirmativamente.
“Tirem o joelho do nosso pescoço” é então um grito justo, verdadeiro e expansão contra a opressão e todo o opressor causador de injustiça e violência racial, contra qualquer processo de desumanização e de ver um outro ser humano enquanto um ser inferior. Talvez por isso mesmo nos afirme sobre “Tirem o joelho do nosso pescoço” o próprio poeta: “Este livro constitui uma tentativa pessoal de descrever e, sobretudo, de posicionar-me, ao mesmo tempo como poeta e indivíduo, perante tais dramáticos acontecimentos, o que – vou dizê-lo – confirma aquilo que a humanidade sempre soube, desde os seus primórdios: a poesia é salvadora.” (Melo, 2024, p. 10), o risco é então desde logo a única saída e a certeza segura e criativa que a poesia é salvadora, necessária e urgente enquanto caminho, interioridade e empatia, quebra de estruturas, muros imaginários e reais, contra a estagnação e toda e qualquer divisão instituída, armada, artificial e falsa: “Precisamos de abrir / frechas / em todos / os muros / que foram erguidos / no nosso caminho / ódio, divisão, / ausência de empatia…”, contra a falsidade de muros ilusórios a certeza imperante da necessidade de uma esperança criadora e criativa que se oponha à fuga do real e à ocultação da verdade. Caminho criativo, poético, imperante: “se eu fosse uma fogueira na Palestina, seria livre como uma árvore que cai” transforma-se poeticamente através da criação de unidade e empatia inerente à leitura e escrita poética em “eu sou uma fogueira na Palestina – Serei e sou livre como uma árvore que cai”, “Sou o que cai, sou todas as árvores que caem”. Talvez apenas isso a poesia nos queira lembrar, ainda que muitas vezes fragmentariamente como estilhaços de vidro numa gasolineira, sabemos o nosso caminho, por dentro, como uma cerejeira sabe madeira e seguramente por dentro o seu caminho forte, como uma estrada sabe o seu caminho, encontrar-se a qualquer instante como uma outra estrada, visível ou invisível, um caminho maior, “todos os caminhos vão dar aqui”, lembrará Juan Rulfo sobre a aldeia de Comala, espaço geográfico da sua novela Pedro Páramo.
Resta seguir então intuitivamente, resistir, criar unidade, diferença e vitalidade, imagens novas caminhos de criação e resistência num mundo em que a poesia deve servir, conjuntamente com tantos outros saberes, artes, ofícios e qualquer outra atividade humana para ser também um motor de união. Sabemos o nosso caminho quer então dizer todos. O outro só existe enquanto ficção e fracção cujos limites as estruturas de poder autoritárias procuram marcar e acentuar. A poesia de João Melo desarma e destrutura, equilibra, com diferentes polos aquilo que somos e mostra-nos plurais, sobreviventes e criadores em que a esperança é uma força física criadora e vital inerente ao humano e à sua resistência face ao desumanizador, a esperança enquanto afirmação vital e material de vida, tão material como o aço conecta física e quimicamente com todas as outras matérias e tecidos da nossa realidade, a esperança como uma força imperante, intuitiva e corajosa cujo exercício é desde logo poético e urgente contra a desvitalização e o parcial, o humano inteiro, lembrará Paulo Freire no seu livro Pedagogia da Esperança: “Sonhar não é apenas um acto político necessário mas também uma conotação histórica-social de estar sendo de mulheres e homens. Faz parte da natureza humana que dentro da história se acha em permanente processo de tornar-se” (Paulo Freire, p. 126), a esperança torna-se então o acto mais humano porque criador e revitalizante, ele é inerentemente poético e sempre integrante de um processo artístico, colectivo e maior, uma arte sem obra, uma arte continua e em contínuo construtivo, em conjunto, um pensar e criar com, desse processo faz parte o nosso pensar criativo, digamos o nosso melhor ou aquilo que é de todos. Se “Não há mudança sem sonho como não há sonho sem esperança” não há também esperança sem risco e sem coragem, não há ordem sem a total desordem, desarmamento e perda de tudo, não o significado estático mas o sentido dançante, por uma desordem maior e por um sentido maior. Um caminho seguro, que se sabe de cor. Como num poema, um caminho, em todos os sentidos, encontra-se sempre com outros, caminhos de um caminho maior, os poemas encontram-se e trocam, água, espuma, sol e sal, ondulantemente tocando e contagiando uma força criativa em cada um de nós.
Nuno Brito
Nota
1 João Melo dedica o livro à memória de Luís Sepúlveda e a todos os artistas falecidos de Covid 19, bem como às vítimas de violência policial e política no mundo.
Bibliografia:
Andrade, Carlos Drummond de. Obra Completa. Editora Aguilar, Rio de Janeiro, 2004,
Freire, Paulo. Pedagogia da Esperança, um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.
Martelo, Rosa Maria. Devagar, a Poesia. Lisboa: Documenta, ILCML, 2022.
Melo, João. Tirem joelho do nosso pescoço. Porto, Exclamação, 2024.
Nuno Brito nasceu no Porto em 1981. É Professor Visitante no Departamento de Línguas e Culturas Românicas da Universidade de Buffalo em Nova York e autor dos livros: Delírio Húngaro (2009), Antologia (2011), Crème de la Crème (2011), Duplo-Poço (2012), As abelhas produzem sol (2015), Estação de serviço em Mercúrio (2015), O Desenhador de Sóis (2017), Ode menina (2021), Escrever um Poema sobre a Liberdade e vê-lo arder (2022), e Olá Liberdade! (2025)










