Desde cedo Pablo Neruda (1904-1973) acostumou-se a grandes elogios, mas também a poderosas críticas. Dentre os primeiros, estão Garcia Lorca, Gabriela Mistral, Rafael Alberti e muitos outros poetas e críticos. No livro do poeta e político francês, Jean Marcenac, Pablo Neruda, Ed. Paisagem, Porto, s/d, livro de um admirador sincero de Neruda, vemos que chega a elevar a poesia do poeta chileno ao nível do sagrado, p. 115: “Solenidade, sim, “solene”… eis a palavra que eu procurava ao longo deste estudo. É com ela que eu quero concluir: a poesia não é nada mais do que a palavra humana quando o homem a usa para o culto do homem. E Pablo Neruda é um poeta sagrado.” Estranho, partindo de um marxista como Marcenac, designar Neruda como sagrado, mas é compreensível, diante da cosmogonia e da entrega do poeta Nobel de 1971 ao cosmo pré-colombiano, e ao tom referencial de suas odes aos ritmos de muitas literaturas religiosas e míticas do passado americano. Neruda não era nem um pouco sagrado, mas sua poesia, algumas vezes, sim. O próprio autor deste pequeno livro, diz na p. 85: “Onde encontrar hoje um canto mais profundo que o de Pablo Neruda? Pois que não é preciso enganarmo-nos nisso: eis-nos com este imenso volume do ‘Canto General’, perante uma poesia “total” da poesia. Não o esforço de fazer dizer ao poema isto ou aquilo; de povoar, de alentar, de explicar, de exaltar ou de auxiliar um ponto preciso ou particular; mas o bom uso do verso, o que se encontra quando a poesia é necessária, fora, afirmação da história, moral e conhecimento alternadamente, ou se preferem, cosmogonia.” Autor do livro “El lector de… Pablo Neruda”, Editorial Océano, Barcelona, 2000, Arturo Marcelo Pascual dedica algumas páginas aos detratores e inimigos de Neruda, diz, na p. 84, tradução minha: “É bem certo que a maior parte de seus adversários desaprovou sua poesia desde o ponto de vista moral ou político, ou se empenhou em converter suas virtudes em defeitos.” Neruda às vezes levava a sério estas críticas e escrevia poemas agressivos contra eles, e não os perdoou em suas memórias, como o fez com o poeta uruguaio Ricardo Paseyro (1925-2009) e com o seu compatriota Pablo de Rokha (1894-1968); já com outro grande poeta chileno Vicente Huidobro (1893-1948), foi bem mais generoso em suas memórias. Talvez, a crítica que mais tenha doído em Neruda tenha sido a do prêmio Nobel Espanhol Juan Ramón Jiménez (1881-1958): “Um grande mau poeta”. Eu, apreciador, leitor e tradutor de Neruda, fico com as palavras de Garcia Lorca: “(…) um autêntico poeta que tem os seus sentidos educados num mundo que é o nosso e que pouca gente percebe. Um poeta mais perto da morte do que da filosofia; mais perto da dor que da inteligência; mais perto do sangue do que da tinta”.
José Eduardo Degrazia nasceu em Porto Alegre em 1951. Médico oftalmologista, atualmente aposentado. Publicou 40 livros de contos, poesia, romance, teatro e infantojuvenil. Tradutor de espanhol e do italiano, publicou 14 livros, entre eles, sete de Pablo Neruda. Colabora em jornais e revistas com crônicas e ensaios. Principais Prêmios Recebidos: prêmio Biênio da Colonização e Imigração, com Lavra Permanente, 1974; prêmio de teatro do SNT com a peça A casa dos impossíveis, 1975; finalista do Prêmio de contos Nestlé de Literatura, de 1996, com “O atleta recordista”; finalista do Prêmio Açorianos com Os Leões Selvagens de Tanganica, 2003; prêmio O Sul de Melhor Tradução com livro de Pablo Neruda, 2006; prêmio e Livro do Ano da Associação Gaúcha de Escritores com o romance O Reino de Macambira; prêmio e Livro do Ano da Associação Gaúcha de escritores com os minicontos de Deus Não Protege os Certinhos, 2021; prêmio Mihai Eminescu da Academia Internacional da Romênia para obra em Prosa, 2012; prêmio Internacional de Poesia de Trieste, 2013; prêmio de Poesia da União dos Escritores da Moldávia, 2015; prêmio de Tradução da Associação de Editores da Romênia, 2016; prêmio Karamanov da Macedônia do Norte, 2022.










