Cultura

Dona Luísa, a memoriosa | André Caramuru Aubert

Foto de Kim Ui Jin na Unsplash

Durante muito tempo eu pensei que a capacidade de se lembrar de Dona Luísa, ainda que curiosa, não passasse de anedota de família, divertida, repleta de histórias curiosas,  nada além disso. Até que um dia, por acaso, me caiu em mãos o conto “Funes, o memorioso”, de Borges. E então nesse dia, surpreso, me dei conta de que Dona Luísa tinha uma história digna de relato literário. O qual talvez algum dia alguém escreva, mas que não é meu propósito aqui, e nem competência eu teria para tanto.

 

No conto que escreveu, Borges conta a história de um jovem peão do pampa uruguaio de meados do século XIX, um certo Ereneo Funes, que, a partir da estranhíssima capacidade inata de saber com exatidão as horas do dia sem olhar para um relógio, desenvolveu, a partir de um acidente com um cavalo, uma memória absoluta. Funes se lembrava de tudo o que via, lia e vivia, de quaisquer números, dos sonhos, de tudo, de línguas que aprendia, como português, francês e latim, embora não conseguisse articular, com muita inteligência, tudo o que armazenava na memória. Não sei se o escritor argentino se inspirou em algum caso real de hipertimesia, a síndrome psiquiátrica que faz com que a pessoa se lembre de praticamente tudo o que viveu, ou se pensava em criar uma metáfora para a falta de memória das sociedades contemporâneas, ou se simplesmente fez literatura inventando uma história, o fato é que no meu caso, ou, melhor dizendo, no caso de Dona Luísa, tudo o que vou contar é verdade. Ainda que Dona Luísa tenha uma série de peculiaridades que a diferenciam bastante da história de Ereneo Funes.

 

Dona Luísa era a mãe de uma moça, cujo nome me absterei de registrar, em vez disso chamando-a de Jararaca, de quem fui namorado e noivo – confesso, apaixonado – e que me trocou, quando já havíamos marcado a data para o casamento, por um Boçal que eu mesmo apresentara a ela e que, até então, se dizia meu amigo. Foi um evento que me causou indescritível sofrimento, mas para o qual Dona Luísa em nada contribuiu; muito pelo contrário, ela, um doce de pessoa, sempre ficou do meu lado, e não se cansava de dizer, a quem quisesse ouvir, que preferia a mim, como genro, do que o Boçal que acabou se casando com a filha dela.

 

Dona Luísa não se lembrava de tudo, mas de sonhos. Até aí, nada de mais. Funes também, entre outras coisas. E muita gente se lembra de sonhos, sendo até capaz de contar, com minúcias e detalhes, o que sonhou. Pessoas assim são gemas preciosas para os psicoanalistas e, em geral, verdadeiros pesadelos para os parentes próximos, porque não se pode negar que há pouca coisa mais entediante do que ouvir longos e complexos sonhos alheios, narrativas cuja lógica, se é que lógica houver – pois a coisa normalmente tende para o surrealismo puro e simples – só fará sentido para quem sonhou e está a contar o sonho, e, talvez, também para o psicanalista.

 

Mas me expressei mal. Não é que Dona Luísa se lembrasse dos sonhos, apenas; ela se lembrava do contexto, do evento ocorrido no dia em que o sonho foi sonhado e, portanto, da data. Por exemplo, ela podia, num determinado almoço de família, quando alguém mencionasse que o pneu do carro furou a caminho dali, dizer: “Ah, esse negócio de pneu furar é terrível! Isso me lembra do sonho que tive na noite anterior ao dia 12 de junho de 1997, data do batizado da Carminha, em que estávamos todos em São José do Rio Preto, e eu sonhei que estávamos na estrada, na altura de São Carlos, o pneu do carro estourou e, de repente, começamos a voar, mas era um voo controlado, bonito, como o de um avião, ou de uma garça, vocês se lembram de eu já ter contado esse sonho? Não? E aí o pai de vocês, que na época ainda estava não só vivo, mas muito bem de saúde, olhava para fora, apontando com os dedos para as fazendas lá embaixo, dizendo, olha, ali é a fazenda Paraíso, ali é a divisa com a Cruz Alta, onde termina o canavial e começa a área do café…”, e aí logo alguém a interrompia, muitas vezes a Jararaca com quem não me casei, dizendo, “mamãe, este sonho você já contou, todos aqui já conhecemos a história”, mas Dona Luísa não se mostrava abalada, e continuava, até que, logo depois, sem  mais ninguém ouvindo, apenas eu, se lá estivesse, por respeito a ela, até porque naquela altura eu também já conhecia quase todos os sonhos, ela acabava por apressar o desfecho e mudava de assunto.

Ou seja, mais do que lembrar dos sonhos, eles eram, para Dona Luísa, uma espécie de marcador de calendário, de eventos, fatos e situações, os mais diversos, tanto importantes (como o batizado da Carminha) como triviais, como o dia em que a grande figueira da calçada caiu sobre o muro da Clara, a vizinha divorciada do professor Teixeira, causando um considerável estrago. Nesse dia, eu me lembro bem, no sonho ela viajava num trenó, perto do polo Norte, seguindo a trilha deixada pelo monstro de Frankenstein, entre excitada por estar quase alcançando o dito cujo, curiosa para conhecer pessoalmente aquela horrorosa e lendária figura, e ao mesmo tempo com medo de alcançar o monstro, ter que enfrentá-lo e saber que inevitavelmente fracassaria e morreria.

 

Pois não foi naquele dia, ou noite, não foi naquele sonho de perseguição ao monstro de Frankenstein – que ela graças a deus não alcançou –, mas eis que eu soube, há poucos dias, que Dona Luísa morreu.

 

Fiquei na dúvida. Ir ou não ir ao velório, ao enterro. Eu gostava de Dona Luísa, era um amor de pessoa, comigo, então, nem se fala, e em não poucas vezes eu era o único que se mostrava disposto a ouvir as memórias oníricas e contextuais que ela contava. Mas, sabendo que a Jararaca estaria no velório, e seguramente o Boçal, até o último instante hesitei, sem saber o que fazer. No fim, fui. Chegando ao cemitério, entrei um pouco sem jeito na sala 3, onde o corpo estava sendo velado. Embora eu conhecesse muitas das pessoas que estavam ali, elas não eram parentes minhas, e eu não tinha visto mais a maior parte delas desde que, havia já uns bons anos, a Jararaca me trocou pelo Boçal. Procurei não olhar para os lados, cumprimentando vagamente um ou outro com o canto dos olhos, e fui direto para junto do caixão. Queria ver o corpo em repouso de Dona Luísa, prestar minhas últimas homenagens, rememorar, em silêncio, momentos passados em companhia dela, sonhos que ouvi, risadas que dei e bocejos que segurei. E lá estava ela, com aquele ar de defunto que os defuntos têm, não em estado de serenidade e paz, como gostam de dizer, mas com aspecto de morta mesmo, um cheiro forte de lírios pra disfarçar o formol, a maquiagem pesada, um vestido bem conservador azul e branco que ela raramente usava e que, eu sei, detestava.

 

Enfim, junto ao caixão eu estava, contemplando o corpo inerte de Dona Luísa, quando alguém se aproximou de mim, por trás, pelo meu lado direito, e apoiou delicadamente a mão no meu ombro. Instintivamente voltei o rosto, esperando deparar-me com alguma ex-quase-cunhada, ou alguma irmã, prima ou primo de Dona Luísa, ou ainda, sei lá, era muita gente que passava pela residência de minha ex-noiva, mas não é que quem veio até mim era ela mesma, minha ex, a Jararaca. Olhou para mim. Sorria. Não um sorriso aberto, rasgado, mas contido, daqueles sorrisos entre simpáticos e melancólicos que se devem exibir em velórios. Olá, querido, ela disse, que bom te ver aqui. Não tinha certeza se você viria. Nem eu, respondi, no susto, de um jeito quase automático. Ela então pegou minha mão e me arrastou dali, em direção ao jardinzinho que separava a sala 3 da 4, não exatamente um jardinzinho, mais um pequeno pátio, todo cimentado com duas pobres palmeirinhas semi-secas em velhos e cinzentos vasos.

 

Sabe, ela disse, sinto saudade de você, de nós, do que um dia fomos. E o Boçal, perguntei, seco, onde está? Nos separamos, ela respondeu. Já faz um ano, ou mais, mais de um ano, na verdade, quase um ano e meio. Tentamos bastante, mas não estava dando certo. Ele seguiu um rumo, e eu, outro. Amigavelmente. Vocês não tiveram filhos?, foi só o que consegui perguntar. Não, ela respondeu. Talvez por não estar segura quanto à nossa relação, não quis, evitei. O Boçal (ela não usou este termo) ficou incomodado, pode ser que isso tenha acelerado nosso rompimento, talvez, não, é certo que sim, mas não tenho dúvida que foi o melhor para nós dois. E você, ela perguntou, com um brilho muito particular nos olhos, uma brilho que eu conhecia bem, olhando profundamente para dentro da minha alma, como você está? O que tem feito? Está com alguém?

 

Eu não queria responder. Não queria ficar falando de mim, da minha miserável vida afetiva, justamente para a pessoa que a destruíra, que explodira sem piedade os meus sonhos românticos, e a conhecia bem o bastante para saber que, se mentisse, ela iria saber que eu mentia. Então tentei mudar de assunto. E sua mãe?, perguntei. Como foram os últimos tempos de Dona Luísa? Ela sofreu? Não, a Jararaca respondeu. Mamãe morreu em paz. Ela aceitou a doença, o fim. Lidou tão bem quanto possível com a coisa toda. Sempre perguntava de você. Gostava muito de você. Ela teria amado se você a tivesse visitado de vez em quando. Mas entendia seus motivos para se manter distante. Pena, respondi. Eu realmente gostava dela. Mas precisei me afastar, você entende, né? Sim, claro, ela respondeu, e mamãe também entendia. Ela ainda se lembrava dos sonhos, de tudo que girava em volta dos sonhos?, das datas, de tudo? perguntei. Sim, até os últimos dias, ela respondeu. Até a três ou quatro dias do fim, quando foi muito sedada, e aí não se lembrava mais de nada. Qual foi o último sonho de que ela se lembrou?, perguntei.

 

Acho que foi um sonho que ela sonhou na véspera do casamento da Cristina e do Gustavo, a Jararaca respondeu. Ela falou dele no hospital, uns dias antes do fim. Era um sonho em que ela se via no alto de um prédio abandonado, em ruínas mesmo, lembra? Era um sonho comprido, com tijolos, ferros retorcidos, ratos, vidros quebrados, e no qual, a certa altura, apareciam uns voluntários da Cruz Vermelha, você se lembra? Sim, lembro. Então, nesse momento, a Jararaca me olhou, de novo, bem nos olhos, sorriu um sorriso mais intenso que o anterior, segurou bem forte as minhas mãos e me disse que me deixar tinha sido um erro, que me amava, e que deveríamos nos dar outra chance. Mamãe ficaria feliz se tentássemos. Minha cabeça começou a girar. Pensei em Dona Luísa, nos sonhos de Dona Luísa, na prodigiosa memória de Dona Luísa, até em Ereneo Funes e no Pampa uruguaio eu pensei. Eu não sabia o que responder.

 

***

 

Ubatuba, março de 2026

fotografia de André Caramuru Aubert.

André Caramuru Aubert é mestre em História pela Universidade de São Paulo. Romancista, poeta, ensaísta e tradutor, escreve ou já escreveu para inúmeros órgãos da imprensa brasileira, entre os quais O Estado de S. Paulo, Trip e Rascunho. Para este último, apresenta e traduz mensalmente, há mais de uma década, algum poeta estrangeiro. Traduziu, entre outras, obras de Friedrich Reck-Malleczewen (Diário de um desesperado), Octavio Paz (Areias Movediças) e James Joyce (Dublinenses). Tem doze livros publicados, entre os quais quatro volumes de poemas: outubro/dezembro, As cores refletidas nas lentes dos seus óculos escuros, Se/o que eu vi (Patuá) e A Poesia que há (Rizoma); e oito romances: Cemitérios, A Vida nas Montanhas, A Cultura dos Sambaquis, É assim que termina (Descaminhos), Poesia Chinesa (Sesi-SP Editora), Estevão e Exílio (Alta Books) e A beleza das Coisas (Patuá). Uma nova coletânea de poemas (Diante do Mar – Inéditos e selecionados) deve sair no segundo semestre pela Patuá.

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