Cultura

Dois Contos | Carlos Pessoa Rosa

ARCO E CORDA

 

atritar do vento na manhã. a garoa a beliscar fósseis adormecidos. de cócoras, a criança divaga na névoa o renascer da natureza e, lentamente, da cidade. há um som que atravessa com seus graves, como um entressonho, cada poro da película que se assoma dentro e vaza como um longo voo. o corpo encolhido debaixo do cobertor fino e deitado sobre papelão gesta um andamento sem deslocamento corpóreo. tem os pés, as mãos e os cabelos expostos pelo curto e frágil agasalho, a pele substituída por densa camada de fuligem. as unhas crescidas e os cabelos sebosos. ao redor, a dissonância urbana que não avança. a surdez consequência de agressão policial. viveu do arco e da corda de onde ganhava algum trocado. surda, vendeu o instrumento. daquele tempo, resta esse som misterioso que vaza como um longo voo e traz junto a criança que pensou fácil conquistar a cidade e o mundo…



ANTIGA ESTAÇÃO FÉRREA

 

o nariz aduncado a fariscar ambrosias ciganas na antiga estação de trem. a vegetação crescida nos trilhos como os pelos nas orelhas. já não havia trens nem audições especiais. apenas a grama alta e o chiado do oco da tarde. o banco de madeira chapada com suas fissuras e afluentes. o vermelho alaranjado das ferragens. andarilho, adotou a velha e abandonada estação como moradia. colocou um velho colchão de solteiro na maltratada sala do chefe da estação, chão de madeira corrida, corredor de formigas em laborioso trabalho diário de ir e vir carregando pedaços de folhas. faziam-lhe companhia. ratos e baratas não havia. não sobreviveriam ali. aos poucos, foi dando outra cara ao local. lixou a madeira e o ferro dos bancos. encerou o piso. fez alguns acertos nos telhados para evitar goteiras. recuperou a latrina e o velho fogão de lenha. trabalho de formiga. cortou o mato que ocupava os trilhos. recuperou velhos pés de mexericas e de outras frutas. fez uma horta. a antiga caixa d’água, aberta, enchia durante as chuvas, o que lhe possibilitava a água necessária para o dia a dia. para se entreter, transformou os antigos armários de documentos ferroviários em uma biblioteca com livros abandonados encontrados nas lixeiras da cidade. a luz, conseguiu restaurando antigos sinalizadores esquecidos no local. com as mudanças na estação, também mudava o homem de nariz aduncado. retirou os pelos dos ouvidos e começou a ouvir o canto dos pássaros que passaram a frequentar seu recinto. também a pele ganhou nova textura, menos amarfanhada e, como os bancos e ferragem, mais brilhosa. recursos conseguia de sua horta. mas não foram apenas as formigas que se sentiram incomodadas com as mudanças. também os moradores. afinal, quem seria o intruso que se apossou perigosamente da velha estação de trem? os primeiros a chegar foram os policiais. farejaram cada canto, fizeram perguntas, olharam os livros dispostos nas prateleiras, e nada encontrando que fosse de alçada policial, foram embora. em seguida, vieram os assistentes sociais que, pau-mandados, tentaram convencê-lo a sair do local, que seria melhor alojar-se no abrigo da cidade. não conseguindo, retiraram-se, insatisfeitos. sem resolver o que para eles era um problema, os políticos procuraram verificar a quem pertencia o terreno onde passou a viver o estranho: se à prefeitura ou ao espólio da estrada de ferro. havia o medo de o sujeito entrar com alguma ação de usucapião. o homem de nariz aduncado pouco se preocupou com aquela movimentação toda, continuou a vida que o lugar lhe havia proporcionado. afinal, aquela era apenas mais uma estação dentre tantas que se fixou durante a vida e que desejava fosse a última. apenas o desagradava a presença de curiosos que passaram a frequentar o lugar, mas aproveitou para vender o colhido da terra ali mesmo e a emprestar livros que alguns deles passaram a ler sentados nos bancos de madeira corrida. mas não demorou para a justiça entrar em ação e determinar a retomada da posse local. nessas alturas, a cidade estava dividida entre os apoiadores e os contrários à ideia. passaram a usar a plataforma para manifestações públicas. entraram com recurso para impedir a determinação judicial. numa manhã, encontraram o homem de nariz aduncado imóvel, branco e gelado caído na plataforma. seus apoiadores trataram de enterrá-lo com todas as honras que dariam a um cidadão importante da cidade. e a restaurada estação de trem voltou a ser esquecida, as formigas voltaram a percorrer o chão de madeira corrida, o mato, como os pelos que continuam a crescer depois da morte, foi tomando conta do lugar. a madeira voltou a ficar ressequida e cheia de fissuras. esquecido o local, a cidade voltou àquela mediocridade cotidiana, ferruginosa e oxidativa, a plantar cactos entre paredes e nos jardins.

 

Fotografia de Carlos Pessoa Rosa

Carlos Pessoa Rosa, neto de portugueses e escravos, xamã com registro em órgão de classe (seja lá o que significa essa palavra), arrisca na prosa e na poesia, tem algumas publicações fruto de premiações, cujo valor pode ser discutido, como A cor e a textura de uma folha de papel em branco, contos, e Sabenças, novela, ambos publicados na plataforma Amazon, mas por lá também tem outros livros nunca premiados.



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