
Quem assistiu o filme “Conclave” percebe o que um erro ou um deslize pode causar na jornada humana.
Um candidato negro ao Papado, e favorito, é descartado por um “pecado” de 30 anos passados.
Às vezes o imperdoável é eterno…
Que contradição, num conclave, ora, o chefe deles não havia dito “quem nunca errou que atire a primeira pedra”?
Posso acrescentar a segunda, a terceira, sim, as pedras seguem rolando.
E os psicólogos que seguram pedras invisíveis, sim, elas existem, aquelas que rolam no âmago do ser.
Para auxiliar nossos deslizes, somos privilegiados, o Brasil tem o maior time de profissionais na área da psicologia do mundo, são mais de 544 mil.
O concorrente ao papado não teve escolha, antes de aceitar Cristo engravidou uma namorada e seu sonho desmoronou.
Um concorrente também bailou na curva pois descobriram que fora ele que denunciou o colega trazendo a mulher, que agora é freira, a servir no Conclave.
É senhores, se nem os queridos irmãos se perdoam durante a escolha de um novo Papado, imaginem nós, simples mortais.
Ah, meus deslizes…
Aqueles malditos.
Aqueles que gostaria que ficasse, à moda subterrânea de Dostoiévski, nos subsolos mais profundos das maiores profundezas.
Mas amigos e amigas, o deslize é inevitável, seu problema reside em como encarar o porvir.
Alguém já disse, não são os fatos que nos atingem e que determinam suas consequências mas como vamos superá-los.
Uns deslizam sobre águas cristalinas, outros vão para os bares(acho que estou nesse grupo), fiéis vão para a igreja, outros pulam do vigésimo andar e poetas seguem a cartilha do Zeca Pagodinho, deixando as pedras…rolarem…
Todos procurando se abrigar nas tempestades como Bob Dylan sugere em “Shelter from The storm”…
São várias opções.
Imaginem a situação.
Um motorista causa um acidente resultando numa morte trágica e por motivos desconhecidos nunca foi descoberto.
Por muitos anos a polícia procura o motorista fugitivo.
Ele vive com medo, a qualquer hora tudo pode desmoronar e pior, um dos detetives que nunca desiste é seu primo.
Lembra Raskólnikov, seu crime é seu castigo.
Ele segue sua vida como pode, é arquiteto e seu sonho é uma grande obra numa cidade litorânea.
Ele não sabe explicar porque tem um celular daquele tempo, uma vez por ano o aparelho toca mas ele não atende, além de outro que usa normalmente.
Depois de muitos anos, seu sonho está para ser realizado, ele está num jantar comemorando com parentes quando seu celular toca.
No entusiasmo, atende o celular antigo e quando ouve o policial dizer que encontrou ele, fica desesperado.
O primo está na mesma mesa.
Que deslize…
O jornalista Coca Trevisan nasceu em Santa Maria, RS. Atuou como repórter e redator nos jornais NH, de Novo Hamburgo; VS, de São Leopoldo e Jornal Alto da XV, de Curitiba. Como profissional freelancer assinou matérias em diversos periódicos. Participou de workshops e atuou em debates sobre a Indústria Cultural dos anos 1980/90. Mais recentemente, concluiu pela PUC-RJ o Curso de Extensão Origens do Existencialismo. Mantém e abastece o blog Violências Culturais. Atualmente mora em Florianópolis, SC.










