
Manhã nublada em São Paulo. Bandeira em punho, vestindo camiseta amarela e boné militar, uma senhora ergue a voz em meio a um pequeno grupo de manifestantes em uma frágil mobilização. Seu olhar carrega a marca dos 71 dias passados em frente ao quartel, à espera de um desfecho que nunca veio.
“Vivemos numa ditadura velada do Judiciário!”, brada. “O sistema nos enganou, e só os militares podem nos salvar!”.
A cena poderia ser de um passado distante, mas ocorre em pleno 2025. Ali está ela, como mostra um pequeno vídeo em um link abaixo, reivindicando a intervenção militar sem notar a grosseira contradição: pedir a derrocada da democracia em nome da liberdade.
Há algo profundamente sintomático nesse fenômeno, creio. O discurso que ecoa nas ruas não é apenas uma manifestação de insatisfação política, mas o reflexo de um paradoxo social e histórico. Essa figura, representante de uma classe média que se vê como elite, nunca experimentou o exercício revolucionário de resistência ao regime militar de 1964 a 1985, nem mesmo depois. Agora, num deslocamento tardio, fantasia-se de combatente contra um sistema nebuloso e perverso, sem perceber (ou talvez percebendo) que, ao pedir um golpe, atua como peça de um jogo que perpetua desigualdades.
A história nos ensina que revoluções genuínas desafiam estruturas de poder, expandem direitos e reconfiguram sociedades. O que se vê aqui, porém, é outra coisa: uma insurgência sem proposta, sustentada na negação das instituições e na crença de que um salvador, inevitavelmente um homem forte, de farda ou de terno, corrigirá os rumos do país.
O problema é que essa contestação não se dirige aos verdadeiros arquitetos do sistema que precarizou sua classe e concentrou riquezas no topo. Em vez disso, canaliza sua revolta contra aqueles que historicamente desafiaram essas estruturas. O inimigo escolhido por ela não é o mercado financeiro que capturou o Estado, nem as políticas neoliberais impostas com violência, tampouco as elites que moldam políticas em benefício próprio, mas sim a esquerda, os movimentos sociais e os intelectuais. Essa inversão de alvo não é acidental; é meticulosamente construída por discursos políticos e midiáticos que fabricam narrativas e notícias falsas, desviando atenções do cerne da desigualdade.
Em sua voz indignada, ainda há uma narrativa persistente: “Lula é o candidato do sistema”. Mas o que é esse sistema? Para ela, trata-se de um delirante conluio entre Judiciário, mídia, grandes corporações e partidos de esquerda, numa conspiração para manter Bolsonaro afastado e garantir o controle sobre o país. O detalhe curioso, e até irônico, é que os maiores beneficiários desse “sistema” são os mesmos que lucraram com o neoliberalismo extremo do governo anterior, justamente o que essa militância defende. Como aponta Jessé Souza, a elite brasileira há séculos usa a classe média como escudo ideológico, fazendo-a acreditar que seu inimigo é o pobre, o trabalhador sindicalizado, o acadêmico progressista; qualquer um, menos aqueles que efetivamente moldam a economia e as políticas públicas.
Essa mobilização não nasce do nada. Ela é fruto de um longo processo de construção de identidade política, no qual parte da classe média brasileira se vê como herdeira de um Brasil supostamente glorioso, patriótico e ordeiro. Valores que, na prática, servem para mascarar seu temor diante das mudanças sociais e econômicas que acredita desafiar seus privilégios. O pedido por intervenção militar, a negação das urnas, a crença num golpe redentor, tudo isso expressa não uma revolta genuína contra o sistema, mas um desespero diante da possibilidade de perder o status que julga merecer.
Nos últimos anos, esse tipo de mobilização cresceu, impulsionado pelo descrédito nas instituições e por uma polarização alimentada pela era digital. O ex-presidente de extrema direita, agora às vésperas de um julgamento no Supremo Tribunal Federal que pode levá-lo à prisão, sempre soube amplificar e explorar esse ressentimento. Criou para si a imagem de mártir, perseguidor do sistema, ainda que tenha governado em aliança com o Centrão, beneficiado a elite, banqueiros, rentistas e desmontado políticas sociais, especialmente aquelas voltadas aos segmentos mais vulneráveis.
Ao reunir-se em praça pública para defendê-lo de seus crimes e pedir anistia aos invasores dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, essa militância não percebe que suas demandas são contraditórias. Defendem uma democracia que, para eles, só vale se o resultado lhes for favorável. Clamam por liberdade enquanto exigem que as Forças Armadas ditem os rumos do país. Protestam contra um governo eleito, mas se curvam a um líder que sempre desprezou a institucionalidade.
O Brasil já viveu essa realidade antes e pôde assisti-la recentemente nas telas de cinema, através do oportuno e premiado filme “Ainda Estou Aqui”. A história ensina que a democracia precisa ser protegida diariamente, por meio da defesa de suas instituições. Ela não se sustenta sozinha; é necessário compromisso, vigilância e memória.
E ela deve ser defendida não por aqueles que a usam como pretexto para corroê-la, mas por aqueles que compreendem que sua força reside justamente na diversidade de ideias, no respeito ao voto e na rejeição consciente a aventuras autoritárias. O verdadeiro combate ao sistema não se faz com nostalgia de ditaduras, mas com a construção de um país mais justo, democrático e atento às armadilhas que se disfarçam de revolução.
Link para o vídeo:
https://www.instagram.com/reel/DHSST0RtiYB/?utm_source=ig_web_copy_link
Nagib Said, carioca, sociólogo, músico, especialista em Gestão para Sustentabilidade e Responsabilidade Social, áreas em que atua profissionalmente há mais de 25 anos. Paralelamente, vem desenvolvendo e publicando reflexões e suas interpretações sobre os impactos deste momento histórico, marcado por profundas transformações comportamentais, culturais, políticas, sociais e ambientais no Brasil e no mundo.










