
Tudo foi dito e escrito sobre Pepe Mujica. O “velho” se fue, depois de clamar por sossego nos seus estertores. “Sou candidato ao caixão em primeiro lugar. Depois a um punhado de cinzas, como deve ser”, dizia numa de suas últimas entrevistas.
Apesar do tom quase sempre poético e dramático, Mujica ombreou com a figura do mito. “O mito é o nada que é tudo”, esclareceu Fernando Pessoa, numa síntese além de poética, precisa.
Com seu andar humilde e de eterno camponês, Mujica experimentou uma trajetória de homem simples. “No final das contas, as únicas coisas reais são as pequenas grandes coisas da vida ou as coisas mais elementares.” Viveu exatamente como pregou, numa práxis política que o aproxima da figura de Jesus Cristo, apesar do seu ateísmo. Todo o mundo admirava esta figura emblemática, que doava quase todo soldo de parlamentar ou de presidente, trafegava num fusca e gostava de charlar ao lado dos seus cachorros de estimação. Causava espanto, porém reclamava, com razão, que todos os admiravam por esta existência espartana, mas ninguém o seguia. Um mito onde todos gostariam de se espelhar, mas que não tinha seguidores reais.
Conheci vários militantes de esquerda que foram barbaramente seviciados pela tortura da ditadura no cone sul. Em comum, o traço que sempre me espantou: quando mais feroz a tortura sofrida, parece que mais doce a alma humana do torturado se transformou. Como Gregório Bezerra, o homem de “ferro e de flor”, no poema de Ferreira Gullar. Ferro para resistir, bravamente, à tortura e ao isolamento por anos. E flor para não se entregar à desesperança e a amargura da vingança.
Na solidão da prisão, no quartel de Paso de los Toros, encarcerado num porão-solitária, Pepe lutou para não enlouquecer, sabendo que se sobrevivesse, sua nova jornada teria que ser especial.
Assim, causou espanto quando se elegeu deputado, pela Frente Ampla, e adentrava no estacionamento do parlamento numa moto Yamaha desgastada, a mesma que levava, junto com a sua eterna companheira, Lucía Topolansky, para vender flores no mercado público de Montevidéu.
Na saída da prisão, Mujica se reinventou. Abraçou, com radicalidade, a causa democrática, em sua ampla acepção, renegando o esquerdismo juvenil e construindo pontes, duradouras, com o conservadorismo não autoritário.
Também lutou contra o próprio culto, permitindo que novas lideranças surgissem na esquerda uruguaia e que o projeto se afastasse do projeto personalista, tão presente na América Latina.
Como um neo-históico (como se definiu, ultimamente) lutou para a defesa do meio ambiente (“a crise ecológica é, em última análise, a crise política”) e o legado às futuras gerações, numa empreitada que a par de reconhecer os inequívocos melhoramentos de renda e bem-estar mundiais também expôs seus limites, de apequenamento da condição humana e sua solidão crescente. Da obsolência programada das máquinas e da eterna fuga do consumismo e da redução de tudo ao dinheiro e à criação de uma nova classe humana: o homo inservibulus: “um cara tão especializado em alguma coisa e que não sabe nada sobre o resto.”
Afora tantas qualidades, Mujica ainda se comunicava com excelência às multidões, não somente de correligionários, em especial aos jovens, onde legou uma prédica de luta e esperança. Conferia enorme esperança na juventude, ao ser lembrado que Martí tinha dezesseis anos na primeira vez que foi preso por conspirar contra a coroa espanhola; Sucre fez o primeiro contrabando de armas, do Haiti para a Colômbia, com dezoito anos.
Por isso, Pepe Mujica nos fará tanta falta e a enorme lacuna da sua morte dificilmente será preenchida.
Na última vez que fui a Montevidéu, ano passado, conversei com uma senhora de meia-idade, que se intitulava conservadora. Era humilde, trabalhava numa sorveteria, e não era eleitora da esquerda. Ao ser indagada sobre Mujica, todavia, se referia a ele como um filósofo, historiador, e não como político ou presidente, embora no seu mandato deu curso a importantes conquistas na regulamentação do aborto, numa tentativa de combater as drogas, pela legalização e controle estatal, e outros temas da contemporaneidade.
Embora se destaque como orador (plantador de silêncios eloquentes), vale a pena a leitura do seu último livro autobiográfico: “Palavras Para Depois”, com o jornalista argentino Fabián Restivo, embora Pepe tenha se recusado a falar do tempo de prisão e de que conversava, regularmente, com a formiga. 50 horas de áudio.
Pepe foi um pregador filosófico e poético com os pés no chão e encharcado de amor pelo ser humano. “O nada que é tudo”. Um otimista-pessimista. Indagado se nutre esperança na humanidade, Pepe respondeu numa síntese do seu pensamento filosófico e de vida: “tenho esperança biológica, porque os tempos são solidários. Intelectualmente, tenho dúvidas, mas, no final, quem manda são as tripas. Seria bom incorporar este conceito. É ideológico porque você não consegue dizer não à vida e tem a fantasia de ter que pensar nela. Por quê? Porque o único milagre que existe acima da Terra para cada um de nós é o milagre de nascer, de estar vivo. Viemos do nada e vamos para o nada. E há uma pequena licença dentro desse nada chamado vida.”
O “velho” sempre viverá em nossos corações humanistas!
Flávio Sant’Anna Xavier
Flávio Sant’Anna Xavier é Procurador Federal desde 1997. Autor de obras e artigos jurídicos na área do Direito Agrário e Administrativo. Autor do livro de contos “Guris” (2016).










