Cultura

Ele não sabe | Coca Trevisan

Foto de Xochi na Unsplash

Dia desses caminhando e cantando como um autêntico homem moderno, entro no “cafezinho” dos amigos.

Estava com quatro livros, dois sobre pintores e seus movimentos quando um amigo comenta “ah tá, agora pensa que é intelectual…só faltava essa”.

Ele não sabe.

Além da beleza estética seus movimentos revelam, acusam, protestam e renovam suas épocas. Mas ele…ele, não sabe.

Rindo e menosprezando acha que quero “dar uma de intelectual”.

Ele não sabe.

Que um Fauvismo, por exemplo, renovou a arte com suas fortes cores, algumas com tamanha força com relevos em seus pinceis mágicos e coloridos.

Que o Dadaísmo chocou o mundo com sua arte alternativa acusando a I Guerra Mundial de absurda com um “surto de raiva e entusiasmo pela vida”.

Ele não sabe.

Que a ArtDéco reconstruiu a Europa devastada pela Guerra com uma arquitetura revolucionária.

Ele não sabe que André Breton lançou o Surrealismo, um movimento exigindo liberdades fantásticas e sonhos delirantes na luta do trabalho doentio originado pela Revolução Industrial. 

Que o grito dos gritos de Edvard Munch ainda bate em nossos ouvidos.

Ele não sabe.

Que o Romantismo, vejam só, antecipou o bolsonarismo.

Calma…claro, com suas devidas proporções, afinal lá no Romantismo estavam o Cristianismo(Deus), Nacionalismo(Pátria) e Subjetivismo(Família), uma arte burguesa ressaltando o casamento, religião e nação. Porém, por outro lado, mas outro lado mesmo, suas pinturas são extraordinárias.

Ele não sabe e não percebe a essência do tema.

Eis um dos caminhos para sair da menoridade que Foucault fala em sua Arqueologia das Ciências quando cita Kant: “por menoridade entendemos um certo estado de nossa vontade que nos faz aceitar a autoridade de algum outro para nos conduzir…”, sim, o tal esclarecimento também está nos movimentos de arte.

Deveria existir disciplina escolar somente com essa temática.

Mas é coisa…de intelectual…

E para não escrever bobagens tenho cinco coleções com mais de cem livros sobre pintores e seus movimentos. A melhor delas é uma da Folha de São Paulo que reforça a parceria entre pintores e suas épocas.

Cada qual com um subtítulo reforçando seu momento histórico.

Mas meu amigo, aquele, ele não sabe.

Fiquei quieto e ficamos discutindo sobre o novo namorado da Regina Duarte entre outros assuntos determinados pela indústria cultural. Fiquei uma hora e segui meu caminho.

Imaginando Salvador Dali pintando um quadro de nossa mesa de cafezinho, com cabeças esquisitas, xícaras com enormes alças e linguagens derretidas.

Mas ele, ele não sabe.

E continuou…não sabendo…

Eles, sempre eles…agradecem..

 

fotografia de Coca Trevisan

O jornalista Coca Trevisan nasceu em Santa Maria, RS. Atuou como repórter e redator nos jornais NH, de Novo Hamburgo; VS, de São Leopoldo e Jornal Alto da XV, de Curitiba. Como profissional freelancer assinou matérias em diversos periódicos. Participou de workshops e atuou em debates sobre a Indústria Cultural dos anos 1980/90. Mais recentemente, concluiu pela PUC-RJ o Curso de Extensão Origens do Existencialismo. Mantém e abastece o blog Violências Culturais. Atualmente mora em Florianópolis, SC.

 

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