
A FOTO DO CORTEJO DE UM LIVRO
Ferdinando morreu ontem e a sua biblioteca, agora disposta na calçada da rua bem em frente à casa em que morava, morreu com ele.
Há um encontro triste entre as palavras perpetuadas que agora gemem num silêncio abissal.
Talvez uma luz sem horizonte.
Não dá para desconsiderar que o cortejo do corpo e dos livros, como gesto de purificação do espaço em que se encontravam, tenha sido realizado concomitantemente, talvez, porque não, com algumas horas, dias de ingênua relutância. Depois disso, cada um seguiu o seu espavento.
Fernando, ou Ferdinando, afinal ainda há dúvidas sobre a precisão do nome do protagonista, morreu e junto se espraiou pela casa o deserto da morte dos livros, esses que perderam as leituras que revogam as traças.
Para carregar o corpo, suponho, alguns amigos.
Para os livros, que não interessaram nem mesmo ao livreiro da comunidade, como num devaneio cruel da vida, um despejo.
Junto com os livros Fernando existe apenas na memória daquela casa que não a vemos, mas que fica – como modo de localização, se é que faça algum sentido para alguém -, acima da imagem de onde se encontra o que sobrou da biblioteca, agora disposta e disponível na calçada.
Alguém conseguiu vê-la?
O final do calvário – como essa foto que, se a minha memória não me desferir outro lapso, foi tirada a poucos sismos de meu peito -, no caso, o que restou da biblioteca de Ferdinando, resume-se a essa imagem que como tantas outras, e, porque não, como tantos livros, apenas desaparecerão.
Saliento, sem querer que isso aumente o trauma instaurado, não temos fotos da biblioteca quando essa ocupava o espaço da casa, não sabemos qual a importância era dada a ela no conforto do lar. Já vi, em outras ocasiões, livros serem abandonados no reduto fechado das áreas domiciliares, pois são sempre os últimos, diante dos imprevistos atochados na vida, a serem lembrados. Eu, e em nenhum momento me sinto acusado por isso, já cometi esse desleixo mais que uma vez.
Temos, em estado de especulação, especula, espelho, apenas aquilo que vocês vêem agora, se é que tiveram acesso a foto, e que não será mais possível de ver em breve – quando a estante de livros exposta ao relento for levada, desmembrada, ou aos poucos consumida pelo tempo -, e amanhã nem mesmo terão lembranças da lembrança de sua existência.
É apenas uma biblioteca ou já não é mais uma biblioteca. Afinal, talvez a própria imagem (em todo o processo de construção) seja meramente um exercício narcísico de um escritor que ainda tenta fazer com que resista nela a potência que não existe mais.
Potência das imagens somos fardos.
Não sei por que me deu vontade de repetir essa frase:
Potência das imagens somos fardos.
Engraçado, mas a repetição parece que tirou a potência; talvez fosse esse o meu interesse enquanto escrita sobre uma imagem que aos poucos perde, se for exagero e ou contradição, por favor, não me perdoem, a potência.
A foto – reitero para que vocês tentem imaginá-la -, é de uma biblioteca que foi abandonada na calçada depois que esse alguém acabou de falecer, é tão poucamente isso, nada mais do que isso…
Quando algo é abandonado é porque não cabe mais no espaço em que cabia antes e, em concordância, porque não tem mais nenhum tipo de importância para as pessoas que agora ocupam aquilo que chamo de reminiscências. Imaginamos, apenas mais um exercício, que outras coisas devem estar ocupando o espaço que a biblioteca ocupava. Um móvel, um aquário, um aquário sobre um móvel, caixas, uma cama, uma vassoura e uma pá, ou sei lá, pode ser que o lugar, ou até mesmo a casa, esteja vazio, apenas um vazio….
Para as bibliotecas abandonadas e jogadas ao relento não temos grupos ou ONGs que as protejam. Ninguém vai aparecer para reivindicar um lar para elas. Nem ao menos podemos usar, numa ocasião como essa, o diminutivo de coito, coitada, coitadinha, para angariar olhares empenados. Considerando, por favor, sem que seja um peso, que muitas vezes não temos esse grau de atenção nem mesmo para com a biblioteca de escritores renomados e que fizeram delas porto seguro para a permanência por aqui, quanto mais para a de um morador deslembrado, de uma rua sem muita importância e para alguns míseros livros que já me atrevi mais que uma vez chamar de biblioteca.
A biblioteca, mesmo não sendo um animal e diferente de outros pequenos animais, não é possível ampará-la na mesma idéia de vida que em algum ponto os assemelha, no sentido mais enfático da palavra. Vive-se nela de outra maneira. Recomponho-me por perceber que parece que não fui claro, talvez displicente demais com a metáfora. No entanto, aquilo que gostaria contidamente dizer é que não há a possibilidade de dramatizar livros velhos jogados na rua. Ou, melancolicamente, o drama pode se esgueirar e atingir um ou outro maluco, somente isso, um ou outro maluco já tratado como maluco pela sociedade em que vive. Afinal o livro, em toda a sua magnitude, não na sua condição de objeto de decoração, já não possui outras importâncias a não ser para alguns malucos assobiados em versos. Ou, em doses, os livros não são reverenciados como outrora, entendendo o tom nostálgico e piegas da afirmação.
O mundo hoje, com muito mais livros publicados diariamente do que antigamente, é ao mesmo tempo um lugar que não consegue carregar consigo, e talvez esteja pensando em proporcionalidades, a mesma dose de afeto e de carinho que acredito outrora continham.
Quem sabe o afeto e o carinho, que forçosamente associamos aos livros, não necessariamente venham dos livros que ali jogados na calçada retratam a história de seu dono.
Livros da época primária.
Livros do período ginasial.
Dicionários.
Muitos livros de história.
Alguns de literatura (clássicos em sua maioria).
Enciclopédias.
Manuais.
Livros comprados ao acaso,
Alguns poucos com dedicatórias e outros repletos de anotações ou mesmo com um ou outro asterisco.
Alguns rasgados e comidos pelo tempo.
Livros, assim no plural que, na sua organização ou falta de – refiro-me à biblioteca -, disseram algo para quem deles cuidou e que agora não dizem mais nada no espaço em que se encontram.
Quem sabe de modo fragmentado podem ganhar significados quando chegarem às mãos de outros leitores, não mais da maneira como faziam sentido para o seu Fernando.
É bem provável que, e gostaria que isso não soasse como uma ironia, ainda podem se transformar em colagens para uma obra de arte de algum artista enfadonho qualquer. Todavia, da maneira como os livros encadearam (ou encadernaram) uma vida, não mais o farão, e sei que é uma reafirmação que a faço contendo o sentido das palavras.
O que me leva a reforçar uma idéia que carrego comigo desde sempre sobre as coisas: o livro, como qualquer coisa mundana, tem um tempo de vida e morre do mesmo modo que morre, dentre outros pobres exemplos possíveis, o amor que sentimos por alguém. Há amores que não sobrevivem à falta do outro.
Acho que nesse momento do texto, sem que tenha percebido antes, gostaria de ter falado de alguém (ou para alguém), mas não o fiz e o que me restou foi me referir ao livro físico que debilitado deixa de coexistir.
A imagem, nesse caso, é uma luta desnecessária.
Lembro, e não sei por que o faço agora, que no livro Kafka vai ao cinema, a maioria esmagadora dos filmes vistos pelo escritor tcheco entre 1910 e a sua morte, não existem mais, mesmo que podemos pensar que, futuramente, um ou outro desses filmes ainda possa vir a ser encontrado em uma videoteca ou em uma estante perdida qualquer. Mas o fato simples, nem um pouco pictórico, é que aqueles filmes, especificamente aqueles, não vão mais criar outras ranhuras no mundo para além daquelas sinalizadas pelo escritor de O Artista da Fome.
O fato é que as imagens, ou parte delas, que plasmaram Kafka contra os livros, não existem mais nem mesmo em sua relutância.
Esfumaçaram-se com as nuvens e…
As imagens de cinema que encantaram Kafka não existem como também não existem mais as imagens que inauguraram, mesmo sem que elas soubessem do feito, o cinema brasileiro: neste último caso, nem mesmo resta a imagem da imagem.
As imagens, por elas só, dizem muito, e não tenho dúvidas de que sabem muito também, todavia são condicionadas pelos seres humanos e são eles, sim com uma dose de exagero, que dão a elas algum saber, algum sabor.
É no contato com a caixola humana que as imagens ganham sentidos, no caso, se é que isso faça sentido, um sentido humano.
Independentemente disso, as que restam também desaparecerão.
É esse o caminho único da vida.
O desaparecimento.
O último arquivo de fotografias que vocês descarregaram no computador a semana passada – ou na outra, composto por mil e quinhentas, duas mil, não sei quantas mil fotos -, estão fadados ao desaparecimento. As postagens feitas na internet com não sei quantas fotos do mesmo canto a partir de um mesmo ângulo de um mesmo lugar, do mesmo cartão postal manjado seguem (e seguirão) o mesmo caminho, ninguém se lembra do hoje agora há pouco, quanto mais do ontem antes de ontem.
Talvez o desaparecimento dessas fotografias seja ainda mais medonho do que aquelas que foram impressas e que compõem as nossas memórias de infância. Às imagens digitais não se deu e provavelmente não se dará a possibilidade do envelhecimento, de amarelarem com o tempo. Rancière, com extrema sagacidade, já sinalizou para esse ponto, acho até que mais que uma vez.
Não posso deixar de considerar que, diante da impossibilidade da morte esteja à falta de vida, afinal, talvez esse processo de arquivamento da memória sem que a memória tenha sido estabelecida – querer que as imagens não envelheçam – seja de um grau de maldade ainda mais pungente. Não desconsidero que talvez seja o sintoma de um mundo que continua achando que pode permanecer jovem, ou superficial, a vida toda – o grande ideal que nos atravessa desde muito tempo e que transforma em bandeira a mais abjeta condição humana.
Já meio perdido com as palavras que sacolejam em minha mente, ainda registro que a moradora que vive ali perto de onde Ferdinando morava, com quem conversei à rua, não soube dizer o nome da pessoa a quem pertencia os livros que estão expostos na calçada, disse-me, por mais obtuso que isso possa parecer, que devia ser de alguém que amava livros.
Perguntei a ela, depois de ter batido palmas e tentado contato com um reminiscente morador da casa do dono da biblioteca, se alguém poderia me dar alguma informação a mais sobre o seu Ferdinando, e ela me disse que acha que ele tem parentes que moram em outro canto do país, mais ao norte, mas que não saberia dizer onde e que nem mesmo tinha contato com eles. Ainda, depois de me dizer isso, interrogou-me pelo fato de eu chamá-lo de Fernando.
Na casa, agora fechada, não há indicação de venda ou de aluguel.
Penso comigo que, diante das burocracias mundanas, ainda não deu tempo para que os procedimentos de inventário fossem encaminhados.
A senhora, que se afastou e voltou a se aproximar como se tivesse esquecido o lampejo, disse-me que tinha a esperança de que alguém levasse os livros para consigo, e complementou dizendo que alguns deles, principalmente os de culinária, ela já havia levado. Disse isso, pois sabe que em breve vai passar o caminhão encarregado pela recolha e com ele a biblioteca vai ter outro rumo.
O caminhão compactador de lixo, que já deve estar a caminho, vai compactar ainda mais a história de Fernando.
Amanhã, quando passarmos pela mesma rua, de antemão já temos certeza de que o Fernando (que assim insisto) não passa de um fardo do passado, e bem provável que os livros, ali não mais estarão.
Não sabemos dizer se o personagem, O Fer… – nossa, agora não consegui nem mesmo pronunciar ou finalizar o nome dele -, era um leitor (no sentido mais profícuo da palavra), ou, ainda, porque não, um escritor.
Sabemos apenas que, para eu que aqui insisto em escrever, está desaparecendo junto com a imagem.
Perceberam que desde o momento que vocês a viram a primeira vez – se é que a viram -, ela já parece outra coisa.
Nem eu mesmo sei se a foto realmente existiu.
Assim, amarelado no tempo, debruço-me sobre o que resta da minha própria imagem, e choro.
Demétrio Panarotto (1969 – ) nasceu em Chapecó SC. É um músico, compositor, pesquisador, professor e literato brasileiro. Paralelamente a uma carreira musical com a Banda Repolho e projetos alternativos, louvados pela sua originalidade e irreverência, desenvolve atividades como acadêmico, palestrante e escritor. Publicou vários livros de poesia e prosa que lhe valeram o reconhecimento como um dos nomes de destaque da nova literatura do estado de Santa Catarina.










