
Foto de Darius Bashar na Unsplash
Ainda sobre Camilo e por ocasião do bicentenário do seu nascimento, cabem mais algumas provocações, sejam elas do ponto de vista da ficção ou, até mesmo, numa pretensa amplitude para os olhares da literatura. Amor de Salvação liberta o leitor do sofrimento provocado por Amor de Perdição? Pode ser que sim, ou nem por isso. Há quem garanta que o próprio escritor chegou a esboçar tal intenção em forma de réplica. Então, toda a gente pode se perguntar: Teodora, que se passa por Palmira, entretanto, não é uma versão menos infeliz de Teresa de Albuquerque? Quiçá a própria Ana Plácido?
Conventos, promessas de casamentos e frustrações amorosas à parte, poder-se-ia afirmar que Afonso de Teive é uma reencarnação literária – nem tanto literal – de Simão Botelho. Ainda que a traição somente ocorra na Salvação e não na Perdição. De igual maneira que Mariana da Cruz se vê, finalmente, recompensada na sua paixão platónica e no seu amor eterno em Mafalda. Ao casar com o primo, a “mão salvadora” que traz o protagonista “de volta à felicidade doméstica” é uma compensação emocional àquela malta camiliana. Ou seja, em meio a tantos sofrimentos, surge um candeeiro que não se apagou, e que chega a tempo de iluminar um tradicional “e foram felizes para sempre”. Final feliz? Que não nos leia Eleutério Romão…
Se o leitor ainda não percebeu onde se deseja aterrar com essa Liteira, repleta de linhas tortas sobre Camilo e trocadas num Castelo de letras ressuscitadas; cabem rabiscos de explicação no Branco do papel: do escritor, da literatura de ficção, da eternização das obras-primas que rompem os séculos. Brincar com as palavras. Eis a questão! E com as personagens. Também com os seus destinos que, embora tenham brotado no Minho camiliano, pertencem a toda a gente que não se cansa de folhear as páginas do escritor.
Dito – ou questionado – de outra maneira: escrita criativa e Camilo Castelo Branco podem juntos caminhar ou são incompatibilidades paradoxais? Entre o clássico e o lúdico, cabe uma pitada picante de elucubrações? Eunuco jamais será um texto com tantas possibilidades e nuances como os de Camilo Castelo Branco. Então, permita-nos brincar com as entrelinhas camilianas, num formato de oficina e de experimentação onde o livre pensar não encontre limites.
Por ocasião da definição da capa para o livro Olhares Camilianos: divagações díspares e intemporais, a questão por pouco não se transformou em polémica. Divergências estacionadas na virada das páginas, a celeuma bem que provocou uma saudável reflexão. Quem busca algo de novo para ler sobre o bicentenário camiliano, de certeza, que não o imaginará num ambiente de criatividade semântica. Ou seja, para estes, não
há hipótese: nas clássicas linhas do escritor não se devem mexer.
Por outro lado, entretanto, aquele leitor interessado em técnicas e inspirações para o seu escrever mais criativo também não se destinará a abrir um livro em cuja capa todo o destaque esteja direcionado ao tradicional e conservador Camilo Castelo Branco. Polémicas? Nem por isso: insumos e ideias para um mundo de palavras. Novas ou velhas, pouco importa: o ato de dizer e fazer emergir os sentimentos não se mede, muito menos envelhece. Ao contrário, se (re)escreve e se (re)inventa.
Quem tenta, aliás, aprimorar os seus escritos, não pode jamais se furtar a um mergulho nos castelos de letras de Castelo. Muito menos prescindir da soma de todas as cores – o Branco -, no contexto da luz camiliana. De tal forma que não deve negligenciar o jeito camaleão de ser – e de escrever – de Camilo. Pupilos ou seguidores, quem bebe da fonte do génio bicentenário também prova do sabor – e do saber – lúdico de um reinventar de palavras, frases e estórias.
Afinal, se é sagrado todo o castelo literário de Camilo, profano seja o nosso grito de liberdade para nos entrelinhar com os novos pensares e inusitados dizeres. Dizer o que para quem diz que “Portugal é o perpétuo jardim do mundo”? Desdizer, é melhor, com poesia, onde tudo pode ser novo, ainda que seja mais antigo que os dois séculos que
separam o nascimento e a celebração. Que toda a oração vire pecado, nos predicados que prejudicam a leitura quando não verbalizam a transgressão dos versos nossos de cada texto.
A pretexto disso, escrever criativamente é coisa de Camilo. Ressaltar – e rejuvenescer – a tradição camiliana é coisa dos seus herdeiros, de leitura e de escrita. Num mural de letras e ilustrações, tem-se Camilo Castelo Branco à vista de toda a gente. Em frente, enfrenta-se o desafio de levar – ou até mesmo revelar – o escritor para quem ainda não o (re)conhece. Partilhar Camilo, eis a nossa obrigação. Então, nada melhor que o fazer através das regras – ou falta delas – que a escrita criativa nos provoca a prescrever.
Nilton Marlúcio de Arruda nasceu no Brasil, em 1961.
É escritor, poeta, jornalista, formador (Escrita Criativa, Produção de Conteúdos e Comunicação) e professor universitário. Tem doutoramento em Ciências da Informação – Jornalismo e Estudos Mediáticos. É apresentador do programa Sou Brasil na Rádio Metropolitana do Porto.
Autor de Memórias Pós Cera de Abílio Abelha, Voz e Contexto, O Cavalo do Gonçalo e O Avô pescador e o menino que saiu da rede.
Casado, pai de quatro filhos e avô de dois netos. A poesia e a prosa de ficção são o seu passatempo: escreve-as desde que escreve, pois considera-se um escravo da palavra.
Publica agora a sua obra Ao Norte Todos os Gajos São Parvos com a Oficina da Escrita.
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